economia, Geral, Internacional, Política

ANO do DRAGÃO

Começou o Ano do Dragão, o Ano Novo Chinês que foi antecipado por uma iniciativa chino-japonesa aparentemente da máxima importância mas que, em Portugal passou sem ser notícia ou quase sem ser notícia. A decisão das trocas comerciais entre o Japão e a China deixarem de ser em dólares e passarem a ser feitas nas suas moedas nacionais, o Yuan e o Yen. Trata-se da China, a segunda, a caminhar em passo de corrida para ser a primeira, e do Japão, a terceira economias mundiais que, entre si, são mutuamente os maiores parceiros comerciais. É um duro golpe no dólar que tem vindo nos últimos anos a perder importância como moeda de troca e como moeda de reserva cambial. Não parece coisa de somenos, sabendo-se que um dos sustentáculos, se não mesmo o sustentáculo mais forte da economia norte-americana tem sido transferir para países terceiros os custos da sua enorme dívida, e que essa exportação se faz sobretudo à custa da circulação dólar que, actualmente,  deve ser o maior produto de exportação dos EUA.

Nas últimas décadas essa posição imperial e dominante começou a degradar-se. Primeiro com o surgimento do euro, moeda em que já são feitas 1/3 das transacções comerciais mundiais o que lhe tem valido uma guerra sem quartel por parte dos EUA que está a atingir um ponto nodal. Depois os chamados BRIC (Brasil, Rússia, India, China) que, apesar das suas abissais diferenças,  têm, desde há vários anos, manifestado nas reuniões do G20, a necessidade de o dólar ser substituído por outra referência cambial que concitasse o acordo entre as economias mais fortes do mundo. Coisa a que os norte-americanos fazem ouvidos de mercador e nem querem ouvir falar, com o apoio do que tem sido, até agora, os seus instrumentos de dominação o FMI e o BM, desde que o dólar numa grande manobra cambial deixou de estar indexado ao ouro, o que, num golpe de quase mágica, fez evaporar 45% da sua dívida externa. Frente a essa contumaz surdez, os BRIC decidiram que as transacções entre si se começassem a fazer, como agora acontece, nas suas moedas nacionais. O dólar, cada vez mais cercado,  ancora-se no mercado dos barris de petróleo, pelo que não será de estranhar todas essas movimentações no Médio-Oriente, com o apoio das “democracias” suas aliadas Arábia Saudita, Qatar, Omã, em defesa do dólar e numa estratégia de cerco á China.

Com o Japão a descolar das directivas dos EUA, aceitando essa proposta da China, o que está em marcha é a internacionalização do yuan, colocando-se mesmo no horizonte que as trocas comerciais entre os países do Sudeste Asiático abandonem o dólar, trocando-o pelo yuan. Em relação à China isso encaixa-se no seu Plano Quinquenal 2011-2015 em que se prevê que a dominância das exportações seja progressivamente substituída pela predominância do consumo interno e que as empresas chinesas estatais e/ou privadas, mas sempre muito centralmente controladas, se internacionalizem. O que está a acontecer um pouco por todo o mundo e já chegou a Portugal. A grande curiosidades é assistir às economias ocidentais atacadas de febre neoliberal a privatizarem tudo e mais alguma coisa sendo essas empresas nacionalizadas por um país. Contradição que não incomoda os nossos pensadores económicos tão decididos a que os Estados se reduzam ao mínimo dos mínimos abdicando das suas empresas estratégicas. (leia-se o interessante texto que Mário Vieira de Carvalho publicou no jornal Público e que anexamos).

O que se assiste é a uma mudança geopolítica de consequências incalculáveis e ainda imprevisíveis, apesar de todo o optimismo mesmo dos mais insuspeitos economistas ocidentais. Joseph Stiglitz numa entrevista no caderno Economia do Expresso, diz, com uma inesperada (?) ligeireza que “não há hipótese de os EUA entrarem em incumprimento porque devem dinheiro em dólares e controlam a impressora “ acrescentando a rir “só se a impressora se avariar”. Não coloca sequer a hipótese de a impressora começar a tipografar moeda que vale tanto como o papel em que é impressa ou mesmo valer tanto como papel higiénico. Parece ser mesmo essa a hipótese que começa a circular pelas economias mais poderosas do mundo pelo que, cautelarmente, vão atirando o dólar para um protagonismo secundário, até se tornar irrelevante. Esse movimento de abandono do dólar, sucede também quando a China se aproxima de ocupar o primeiro lugar nas indústrias tecnológicas e no registo de patentes. Isto quando a sua posição já é dominante em muitos sectores. A ideia que ainda é corrente de a China produz produtos de má qualidade na base da exploração da mão de obra barata e trabalho infantil é pueril, está bem longe de traduzir a realidade actual. Em dez anos, a China deu um brutal salto em frente, melhorou significativamente todos os índices aceites para medir a qualidade de vida, tornou-se uma potência tecnológica.

No início do Ano do Dragão tudo parece apontar para que o eixo do mundo se desloque geograficamente. A incerteza é grande e os perigos são muitos. O menor dos quais não será os EUA, em decadência económica, continuarem a ser a maior potência militar. As últimas leis aprovadas tornam aquela democracia duvidosa numa democracia protofascista e os últimos orçamentos de estado acentuam o seu pendor militarista. Nada que deixe o resto do mundo sossegado.

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8 thoughts on “ANO do DRAGÃO

  1. HM diz:

    A tendência para a perda da hegemonia do dólar como meio de pagamento e de reserva mundial será muito mais lenta do que se poderia julgar a partir deste tipo de notícias. Nem sequer será um processo progressivo, terá avanços e recuos, sobretudo com as desventura do euro.

    De qualquer modo, julgo que a figura deste artigo da insuspeita The Economist te interessará:

    http://www.economist.com/node/21542155

    HM

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  2. Luiz Moita diz:

    Excelente texto. Como sempre ! Do Manuel Augusto Araújo.
    As contradições do sistema capitalista acentuam-se cada vez mais sendo no entanto ainda difícil prever o desenlace destes complexos jogos de poder.
    Interessante é verificar que a China, Civilização Milenar e sem dúvida com uma sabedoria e uma inteligência invulgares soube colher a grande lição da queda do “Império Soviético” devida fundamentalmente, entre outras razões, mas sendo esta a principal, ao grande falhanço da sua economia. O Chinês não é nada parvo ! Terá pensado: ai é ? Então já vão ver…. E é o que se está a ver!
    Adeus livro vermelho de Mao ! Vamos combater com as armas do inimigo. A IMPORTÂNCIA DO PRAGMATISMO e o arrumar para o lado das teorias e ideologias deu o resultado espantoso que hoje todos reconhecemos.
    De resto algo controverso: os “camaradas chinêses” lançam no desemprego milhões de trabalhadores dos países capitalistas incluindo os americanos. Adeus “Internacionalismo proletário” ! Mas, como se disse, as teorias e ideologias foram guardadas na gaveta do museu da História.
    A nossa “Esquerda” deveria também aprender esta lição: PRAGMATISMO, SIM ! Teorias, muito lindas, mas que na práctica redundaram em falhanço completo : guardem-nas na gaveta.
    A Revolução Burguesa ( Revolução Francêsa) levou mais de 600 anos para triunfar e detinha em grande parte o poder económico.
    Será que os Comunistas queriam a revolução em meia dúzia de anos.?Até a Odete Santos disse uma vez: “Há que reconhecer que o egoísmo do homem vai atrazar em muito o triunfo da Revolução.”
    Ela disse “egoísmo” , eufemismo elegante e literário para : Corrupção do Poder, Ganância, Ditadura , desonestidade e mentira.
    Bem, como ninguém está disposto a combater, no presente. para revoluções que irão demorar séculos, talvez fosse aconsellhável que a nossa esquerda aprendesse com a lição chinêsa. É para agora! o mais tardar amanhã, seu estúpido ! Estamos todos fartos !

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