Geral

Ontem, na Feira do Livro do Bombarral, Francisco José Viegas foi muito rápido e definitivo sobre o Acordo ortográfico, reduzindo as questões que o AO suscita ao “choque e surpresa quando as pessoas vêem as suas palavras grafadas de outra maneira”.

Foi tão rápido e definitivo sobre o Acordo Ortográfico como foi a recusar pronunciar-se  sobre o seu programa de governo e respectivo orçamento, coisa bem mais simples sobre que falar do que sobre as complexidades científicas do AO que, para ele, não existem.

Em muitos locais da administração central e local, quiçá já em todos, o choque e a surpresa advém de qualquer texto que se escreva ser automaticamente corrigido pelas normas do AO. Não há volta a dar, sem aviso prévio, a não ser o governo ter anunciado que no ano de 2012 os documentos oficiais passariam a ser escrito em conformidade com o AO, nem período de adaptação, nem sequer uma formação sobre o novo AO. Escreve-se e zás, automaticamente tudo em linha com as regras do AO

Neste blogue as abordagens feitas sobre o AO deram origem a comentários interessantíssimos de que se destacam os de Pedro Silva Coelho. Há sempre ângulos por que pode ser abordado o AO além dos científicos e, insisto, os económicos e políticos é que determinaram a adopção do Acordo Ortográfico sem que a discussão científica tivesse sido encerrada.

Continuam a ser publicados artigos estimulantes sobre o AO. Para quem não leu colocamos o texto que António Guerreiro, mais um dos ‘resistentes’, que instiga a que se continue a pensar sobre esse tema e contribui para que as opiniões se formem em bases sólidas.

Regressemos ao Acordo Ortográfico, a convite de uma entrevista que um dos pais do monstro deu ao “Diário de Notícias”. O que diz o professor Malaca Casteleiro? Que o que muda é “a imagem gráfica da palavra” e só temos agora de “fazer um esforço de adaptação”. Esta conceção da ortografia como engenhoca gráfica baseia-se numa total desvalorização da gramma (a inscrição) em favor da phone (e daí o privilégio concedido à representação fonética), como se aquela fosse uma mera representação desta. A filogénese da escrita mostra que esta é autónoma do oral, o que levou Barthes a afirmar: “Tudo se passa como se a escrita já tivesse sido inventada antes de ser posta em relação com a língua, antes de ser fonetizada.” Ora, este dado filogenético transpõe-se para o nível do indivíduo: aprender a ler e escrever é entrar numa ordem ortográfica que transporta uma memória cultural e um imaginário que nos constituem, tal como a língua. É neste sentido que a ortografia é sempre mais do que o design convencional das palavras: na ontogénese da consciência, há uma escrita que precede a fala (leia-se a crítica de Derrida a Saussure). E essa escrita acaba por se confundir, para cada um de nós, com uma manifestação ortográfica, de um modo tão profundo como o sonho é uma espécie de texto que transcreve a imagem latente. É certo que a resistência a uma nova ortografia só pode vir de quem foi constituído pela ordem da ortografia anterior. Mas nem por isso ela pode ser vista com o simplismo do professor Casteleiro, que, com uma perna na Academia, outra na escola primária, e a cabeça numa órbita que não é a da Linguística, afirma: “Se pensarmos nas crianças que estão a aprender a escrever, para elas é muito mais fácil escrever sem as consoantes mudas.” Este álibi manhoso da literacia foi o mesmo que serviu para expulsar em larga escala os textos literários do ensino da língua.

António Guerreiro, in Ao Pé da Letra, Actual nº 2045/Expresso, 7 de Janeiro 2012

Ligação

3 thoughts on “Ainda o (Des)Acordo Ortográfico

  1. Mário Pereira diz:

    Mas como privilegiar a representação fonética, se tantas vezes as consoantes mudas serviam para abrir as vogais que as precediam? Por exemplo, espe(c)tador, lê-se com e aberto ou fechado conforme o contexto. Que é isto?
    E que raio de argumento é esse de ser mais fácil para as criancinhas aprender a escrever? Que dizer então, por exemplo, das criancinhas holandesas e alemãs, que têm que aprender a escrever palavras com dezenas de letras e cheias de consoantes? Mas alguma vez foi difícil, para uma criança normal, aprender a escrever sem erros? Toda a gente sabe que a coisa mais importante para aprender a escrever sem erros é ler, quanto mais melhor. E há para aí tantos milhares de livros escritos com as regras antigas e que não podem ser, pura e simplesmente, destruídos… Fazer um acordo com o Brasil só para aproximar a nossa grafia da deles, com o argumento de facilitar a aprendizagem aos estrangeiros, é absurdo. O grego só é falado na Grécia e esse é o menor problema deles; o japonês no Japão; o italiano na Itália; o alemão na Alemanha, na Áustria e em parte da Suíça, e isso não impede a Alemanha de ser a maior potência económica da Europa. Qualquer dia, quando os angolanos ou os moçambicanos, que também são muito mais que nós, quiserem começar a escrever como falam, como vai ser? Mudamos outra vez? Há tanta coisa errada no nosso País, porquê mudar a escrita, que era tão consensual?

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  2. Deixo a minha profunda vénia a este post e ao magnífico texto de António Guerreiro.
    É exactamente assim que eu sinto que este desacordo foi concebido; menosprezando a inscrição e privilegiando a representação fonética. Ignorando a imensa trama que se tece entre uma e outra.

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