economia, EDP, Geral, Internacional, Política

A EDP NO SAPATINHO

Desde há vários anos que a cotação das acções do Grupo EDP não estava tão baixa, tendo atingido os 2,41 euros por unidade nos últimos dias e um volume de transacções mínimo. Em Janeiro de 2008 estavam cotadas nos 4,26 euros, cerca do dobro, portanto.

É do conhecimento público que o governo, na sequência do MoU – Memorando de Entendimento com a Troika, e fruto da sua própria urgência, quer vender a posição estratégica que detém neste importante grupo nacional, prevendo-se que, até 22 do corrente mês, seja anunciado qual é o comprador concorrente a quem vai sair a EDP no sapatinho.

Tudo indica que a brasileira Eletrobras terá ficado pelo caminho, no âmbito de um “concurso” internacional de que não são públicas as regras fundamentais de apreciação, posicionando-se para a aceleração final a alemã E. ON e a chinesa CTG – China Three Gorges.

Sabe-se que o primeiro-ministro português falou sobre o assunto com a chanceler alemã e não é difícil imaginar daquilo que trataram nessa conversa “de Estado”, que deverá ter acontecido no intervalo de uma reunião em que se analisava o estado precário em que Portugal se encontra no quadro de uma Europa comandada pela imperial Alemanha.

Se José Sócrates estivesse cá e o presidente Lula ainda o fosse, também falariam, com toda a certeza. E, quem sabe, falarão, mesmo nas actuais circunstâncias.

Conversas chinesas são o que não faltará.

Sente-se no ar a excitação vivida em gabinetes, salas e corredores, públicos e privados. Os gestores, ministros, assessores, conselheiros, correctores e jornalistas, gelados pela crise, confortam-se, à mesa de restaurantes e bares, com o combustível sagrado dos grandes negócios.

Contudo, nós, cidadãos consumidores e pagantes portugueses de uma electricidade caríssima, perguntamo-nos, pelo menos aqueles que ainda conseguimos ler as linhas dos jornais especializados e as entrelinhas das telegráficas declarações, por que razão se vai vender o que resta da posição estatal numa empresa estratégica portuguesa, à pressa e a preço de saldo?!

A mim, quando interpelei o agora primeiro-ministro, então candidato, dizendo-lhe que achava mal que fizessem privatizações nestas circunstâncias, porque, para além de razões de princípio, económicas e ideológicas, seria um mau negócio, foi-me respondido que tinha que ser, que não tínhamos dinheiro para aguentar as “empresas públicas”! Mas, então, a EDP que, de facto, já não é uma empresa pública há muitos anos, pode dar centenas de milhões de euros de lucros anuais aos seus accionistas privados, e o Estado, que até aqui tinha uma posição determinante, e que nunca actuou para moderar o regabofe, vai agora vender sob pressão financeira e com a EDP conjunturalmente desvalorizada?

Para além destas questões fundamentais, resta ainda analisar como se consumará o negócio.

Dizem os analistas que a chinesa CTG tem uma proposta financeira muito melhor do que a da E.ON.

Pelos números conhecidos parece-nos que sim. Desde logo porque assegurará, diz-se, o financiamento futuro das necessidades da EDP por vários anos e, além disso, tem vários aspectos económicos e de governação mais interessantes do que os apresentados pelos alemães.

Ou seja, se o problema é falta de dinheiro, como o governo diz, e a decisão fosse tomada com base em critérios económico-financeiros transparentes, as Três Gargantas chinesas ficariam com a pérola eléctrica lusa. Aliás, dizem os nossos antigos vizinhos orientais, que nem querem engolir a EDP.

Mas, pressente-se, a decisão de um país como tem sido o nosso nos tempos que correm, alinhadinho e bem penteado, irá no sentido de não desagradar à mestre-escola.

Uma nota final: já que estamos num mundo de negócios e influências, e dado que não parece ser possível travar a privatização, afigura-se interessante analisar a possibilidade de as organizações dos trabalhadores da EDP, em sintonia com os da REN, virem a interferir nas negociações, nas salas ou na rua, pressionando o governo no sentido que lhes parecesse melhor.

É que a chamada “paz social” pesa muito.

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6 thoughts on “A EDP NO SAPATINHO

  1. Manuel Augusto Araujo diz:

    Meu caro Demétrio colocaste os pontos todos nos iis! Um concurso bastante opaco, como bem dizes, com os condimentos todos para o grupo de sábios (esta dos sábios é para nos dar uma barrigada de riso! ririamos talvez menos se soubéssemos quanto é que vão ganhar por tão esforçado trabalho) aconselhar em consonância com o activissimo lobbie alemão como se tem lido, visto e ouvido nos meios de comunicação social. Na pressão que está a ser feita a favor da Alemanha, nos mais variados canais de comunicação,argumenta-se mais com factores políticos, sublinhando a posição dominante da Alemanha na Europa em geral e na zona euro em particular,do que com factores económicos. Citam-se coisas e loisas como a transferência de tecnologia, sem que se saiba bem em que é que isso consiste, se for equivalente ao negócio dos submarinos, estamos conversados. Até já houve quem lembrasse que a Alemanha é um país democrático o que não acontece com a China, apesar da China ter sido bem mais transparente nos objectivos que pretende alcançar com a compra da EDP que qualquer outro dos concorrentes. è ver as declarações do homem forte da CTG. O teu post mais o “rigor” das análises da comunicação social, dita especializada ou a outra, acrescentam mais umas pinceladas ao quadro inquietante do momento em que vivemos com os governantes que temos e ao modo como tudo é manipulável,mesmo quando aparentemente se esteja a apontar para a melhor solução da pior opção.

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    • Não conheço as condições totais e exactas da proposta da E.ON, nem os termos de referência para a apreciação. Nem eu, nem quase ninguém neste país.
      No entanto, se o Luís Moreira quer dizer com a sua expressão “Transferência de Tecnologia” que os alemães vão “oferecer” tecnologia a Portugal, receio que esteja muito enganado. Quanto muito, vendem-na, blindada por adequadas royalties.
      De facto, parece haver uma intenção de fazer uma espécie de centro relacionado com as renováveis, mas isso é show-off pouco significativo por várias razões que agora não posso transmitir-lhe.
      Note bem o seguinte: a minha opinião vai no sentido de que não se deveria vender os cerca de 21% que o Estado detém na EDP a ninguém, nem a chineses, nem a brasileiros, nem aos alemães, porque, para além de perdermos completamente o controlo desta empresa chave, ainda se contribuirá para a haver mais exportações anuais de centenas de milhões de euros de dividendos.
      Ainda por cima, quando se vai vender com as acções num mínimo histórico!
      Mas, não deixa de ser sintomático que, como suponho, se vá entregar a EDP a uma proposta (a alemã) que não é a melhor do ponto da vista económico e financeiro. Não acha?

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  2. Edmundo Gonçalves diz:

    Não que o defenda, mas não deixa de ser curioso que o “bendito” triunvirato nos tenha obrigado a vender o que de nosso dá lucro “aos milhões” e poderia ser uma ajudinha para pagar o calote resultante de más políticas e de muita incompetência e aproveitamento pessoal e de grandes grupos económicos, deixando para o povo a enormidade de pagar os buracos causados noutras empresas, deliberadamente ou por manifesta incompetência de quem as geriu.

    Ou seja, p’ra mim que sou do povo, mas por desígnio constitucional co-proprietário de algumas empresas, resta-me apenas vender o que dá lucro e ficar com o que dá prejuízo, por imposição estrangeira.

    Será isto uma inevitabilidade?

    Desejo crer que não!

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  3. António Martins diz:

    Concordo com quase tudo o que diz o Chico Dídio exceto no que diz respeito aos intelectuais. É que há intelectuais e intelectuais. E ter uma posição de preconceito contra os intelectuais em geral é errado porque os há, felizmente muitos, que renegam a sua condição de classe (os que são de origem burguesa) para adotarem uma posição revolucionária – veja-se o próprio Miguel. Misturar tudo é deitar fora o que não se deve e comprometer uma parte importante da força do movimento popular e revolucionário. A deriva obreirista sempre foi prejudicial ao movimento operário.

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  4. CHICO DÍDIO diz:

    Qual é a admiração? Isto é o fascismo do século XXI.É ler o livro do Muiguel Urbano e ficamos a perceber que nao existem muitas saidas para esta situação.É lutar e ver o que isto vai dar.O mundo não para ,umas vezes anda para trás,presentemente estamos nessa situação.Mas atenção um espírito revolucionário tem de perceber e não desanimar.O difícil é passar a mensagem com os orgãos de comunicação que temos.Todavia a LUTA É DIFICIL MAS É NOSSA.E atenção que tem de ser o povo a fazer a revolta e não deixar os chamados intelectuais tomar o poder ,com discursos ditos revolucionários .

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