Cultura

Jacques Brel – 6

 

Brel particulariza a crítica à burguesia salientando alguns dos seus espécimes. São as beatas que preservam a virtude defendendo-se do pecado e que envelhecem tão mais rapidamente quanto mais confundem o amor e a água benta. Exibem com tal convicção o seu fervor religioso que até o diabo se castra de raiva e deus perde a fé

LÊS BIGOTTES

As grandes famílias, os emblemas dos valores burgueses, são radiografadas sem complacências e Brel atinge um clímax de causticidade em Grand-Mére. A história de um triângulo constituído pelo Senhor, pela Senhora e pela criada é o pretexto para por a nu toda a hipocrisia das relações burguesas. Enquanto a senhora faz prosperar os negócios manipulando e corrompendo políticos e militares e tranquiliza a consciência pela prática da caridade, o Senhor, lamentando que esses espectáculos não promovam os valores sociais e espirituais na criada, persegue-a enganando a senhora. Ao fim de semana, quando os negócios da senhora entram de férias o senhor arrasta-se choramingando o remorso pelos quatro cantos da casa, é a vez de a senhora enganar o senhor com a criada, explicando-lhe que os homens são todos uns comediantes.

GRAND-MERE

 

Nas críticas aos valores da burguesia os militares não podiam ficar ausentes. São os que vão adquirindo galões sem fazer mais nada do que roçar os fundilhos da farda nas cadeiras do comando à espera que o inimigo apareça o que nunca acontece como em Zangra que morre, carregado de medalhas e galões, mas sem glória. Num outro registo, não trágico-cómicoo como em Brel, sòmente dramático, leia-se o magnífico livro de Dino Buzatti, O Deserto dos Tártaros. O desperdício da vida olhando para a paisagem de onde se espera que surja algo, amigo ou inimigo, que lhe dê sentido. Usando como metáfora a vida militar, a rotina da vida militar que só ganhará sentido se inimigo que se invadir essa paisagem que se desenrola imóvel, desconhecida e ameaçadora.É a espera de qualquer coisa que dê sentido à própria vida, enredado nas rotinas, que são, simultaneamnete,  uma ameaça e um refúgio.  Zangra de Brel vive essa vida singrando na vida militar sem nada fazer para trepar mas trepando na hierarquia, Giovanni Drogo de Buzatti, vai desgastando a vida e a sua carreira até tudo ficar sem saída. Os dois vivem uma vida burocrática que leva um ao topo e outro ao impasse. A sociedade que fabrica essa teia é a mesma, os valores são os mesmos.

ZANGRA

É o patriotismo de pacotilha do militarismo e a imbecilidade da inteligência militar como em Caporal Casse Pompom e em Au Suivant é a denúncia da brutalidade militar em La Colombe acentuada por um refrão de rara violência: Nós já não iremos ao bosque, a pomba está ferida / Nós não vamos ao bosque, vamos matá-la.
LA COLOMBE

Fustiga os emblemas das classes dominantes plantados para exemplo e que são a expressão dos vícios privados, públicas virtudes. La Statue, a estátua plantada sobre a peanha descreve como a sua vida é o contrário dos elogios impressos na pedra. A cada estrofe a estátua indigna-se com o “filho da puta” que escreveu que tinha vivido entre a honra e a virtude ele que tinha enganado todos de falso sermão em falso sermão, de sentimento em sentimento (1º estrofe) ou que deus o tinha chamado por amar mais os que amavam acima de tudo, ele que só rezava a deus quando lhe doíam os dentes ou porque tinha medo do diabo (2º estrofe) ou que tinha morrido como um herói como já ninguém morria assim quando ele só fez guerra por causas das mulheres dos alemães e que acabou por morrer ao acaso do momento. É uma canção do desmoronar dos valores burgueses. Ele queria agarrar pelos colarinhos esse sacana, mas gostaria sobretudo que as crianças não o olhassem.

LA STATUE

A crítica sarcástica da burguesia, dos valores burgueses, cujos signos mais evidentes são, para ele, o dinheiro, a ganância, as virtudes hipócritas e o conforto imbecil têm uma presença constante na obra de Brel. A falta de horizontes da vida burguesa daquela gente pequena em todos os sentidos, de pequenas moralidades, de pequenos pensamentos, de pequenos valores, de pequenos desejos, de pequenos horizontes, aquela gente que em vez de pensar reza, que em vez de falar faz contas, que nunca sairá dentro de si nem do lugar que ocupa e que se multiplicam para a que tacanhez sobreviva tem, provavelmente, em Ces Gens-lá a sua canção paradigmática. No final da canção aquela gente que só fugazmente pensa fugir à sua situação sem nunca o tentar é a gente que fica em casa esperando por nada e por Brel que quando a critica está, simultaneamente, a autocriticar-se.

CÊS GENS-LÀ

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2 thoughts on “Jacques Brel – 6

  1. Ces Gens là é uma canção fabulosa que sempre me impressionou pela descrição de actos pouco louváveis, desde o comportamento moral comezinho até às formas pouco próprias de comportamento quotidiano. Brel, (e aqui posso perder-me um pouco), tenta fugir desse mundo ao conhecer Frida e ser ela o objecto da sua fuga embora sem grande sucesso. Será assim?
    O meu Francês está pelas ruas da amargura.
    Abraço. Guida

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