Cultura

Jacques Brel – 5

O amor em falência. As mulheres amadas que não chegam ou quando chegam o abandonam ou tornam a vida num inferno. A solidão que cresce à sua volta plantando desertos, torna Brel nostálgico das infâncias que correm atrás de improváveis faroestes, fora disso é a decadência que assume romanticamente. Exibe as frustrações, consente solidariedades fáceis dos que perseguem paraísos artificiais.

São os filhos da noite que se deitam com os primeiros alvores do dia e se levantam à hora das matinas. Elas com a arrogância de exibirem uns seios firmes e belos, eles com a segurança em que se advinha que os papás foram uns felizardos. Eles e elas consumindo as noites lavando melancolias que não sujam as mãos, contando poemas que não leram, romances que não escreveram, amores que não viveram, verdades que não servem para nada. O amor indispõe-os por isso consomem a noite bebendo o último uísque, dizendo a última palavra brilhante, dançando o último tango, vivendo o último desgosto e se principiaram a noite dançando com os olhos pregados nos seios da parceira, acabam-na chorando com os olhos sempre colados ao peito das sócias das noitadas. São os filhos da noite que amanhã terão noite igual a que se seguirá outra igual.

LES PAUMES DU PETIT MATIN

Nas canções de Jacques Brel o amor ou é uma miragem, a procura alienante de um absoluto ouvimos em Ne me Quitte Pás ou é estúpido com em Bombons e Bombons 67, onde o amoroso sem paixão se submete às convenções do bem pensar burguês, saltitando de um objecto de amor para outro objecto de amor, com os mesmos argumentos tontos dentro das fronteiras da moral e dos bons costumes: Trouxe-lhe bombons porque as flores são frágeis e os bombons são tão bons embora as flores sejam mais apresentáveis principalmente quando estão em botão mas trouxe-lhe bombons porque espero que possamos ir passear e que a senhora sua mãe não tenha nada a objectar a horas decentes levá-la-ei para sua casa e assim continua a personagem deste amor parvo para logo recuar quando vê o rival, cede o lugar mas guarda os bombons para oferecer a outra Germaine que irá reaparecer três anos depois em Bombons 67, quando Brel com infinito gozo desmascara os filhos família que se entregam epidermicamente às rebeliões porque também têm opiniões. Mudou o visual, usa cabelos compridos, discute com os pais porque enfim há os conflitos de gerações, arrisca posições de esquerda, entra mesmo em manifestações contra a guerra do Vietnam, aderiu ao liberalismo sexual o que demonstra quando oferece os bombons que levava para Germine ao irmão desta. Bombons 67 o retraio ácido de uma certa esquerda caviar de filhos família parece ocupar a boca de cena mas no fundo o tema principal continua a ser o amor vazio, a amor conforme as convenções burguesas cujos valores Brel fustiga sem contemplações

BOMBONS

BOMBONS 67

Os valores do bem pensar burguês, a hipocrisia burguesa são constante e vigorosamente denunciados por Brel. É um dos seus temas recorrentes que está sempre directa ou indirectamente presente. A crítica por mais feroz que seja nunca deixa de ser auto crítica. Brel pertence à burguesia e não o renega. Denuncia corrosivamente a burguesia sem se colocar francamente do outro lado da barricada. Lês Bourgeois é a canção onde o seu pessimismo é mais flagrante. É uma canção em que as personagens se movem em círculo: os jovens que correm atrás dos burgueses chamando-lhes porcos envelhecem aburguesando-se e são perseguidos pelos jovens que reeditam o epíteto que os espera no futuro.

LÊS BOURGEOIS

 

Nas canções em que aborda o tema da burguesia Brel toma normalmente como modelo os belgas e nesses especialmente os flamengos. Em Lês Flamandes sublinha-se a passividade, o aceitar a vida tal como está previamente programada e em que nada muda.

LÊS FLAMANDES

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3 thoughts on “Jacques Brel – 5

  1. Helena Pato diz:

    Vais reunir tudo isto num livro, espero…que tem sido um trabalho excelente.
    Mas o mundo desaba e tu andas a deliciar-te/nos com o Brel?
    Um beijo, Manel
    Lena Pato

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    • Realmente, nestes tempos adversos, é bom procurar e encontrar algo que nos alivie a alma e o quotidiano. Concordo com o comentário anterior até porque sei que isto não deve tirar-te assim tanto tempo e o fazes com a maior das facilidades, apesar de o mundo estar a desabar, pelo facto de conheceres de cor e salteado a obra de Brel e outras… Enfim, um livro é mais complicado…

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      • Manuel Augusto Araujo diz:

        Em livro não sei. Não é por ser mais complicado, o mais complicado está feito que foi organizar tematicamente o Brel mesmo sabendo-o de cor como diz a Guida. Porque não é por saber de cor e salteado o Brel e outros… isto de saber de cor e salteado, mesmo se for verdade e não é, tem muito que se lhe diga. Bem sei que a tua intenção não foi menorizar o saber, antes pelo contrário. O que isto pretende é ser um guia de audição do Brel, simultaneamente, chamar a atenção para os cantautores, existem em todas as línguas, submersos na onda de música americana na forma e internacional nos sentimentos que domina as ondas hertzianas, rádio e televisão, com produtos péssimos e assim-assim. Os textos são o suporte para as canções, isso não se resolve num livro. isto faz-me hesitar porque, já agora o revelo, tenho algumas propostas e não só para o Brel.
        Quanto ao mundo estar a desabar…como deves calcular não estou refugiado no Brel enquanto o mundo desaba á minha volta. Ainda ontem, estive na manifestação de onde sai a correr para me ir deslumbrar com a Anna Netrebko a cantar a Ana Bolena. Na próxima 3º feira lá estarei no Chiado bem como estarei na Semana da Indignação. Faço e farei, como sempre fiz, coisas mais vísiveis, semi-vísiveis e invísiveis. Sempre! Sempre contra este mundo para que desabe e nasça outro, mesmo que não o veja nascer. Abraços para as duas.

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