Cultura

Um Livro de vez em quando

LIVROS QUE QUEIMAM

Ernesto Sabato foi um homem anti-mundano. Nasce em 1911, em Buenos Aires. Doutorou-se em Física. Trabalhou em radiações atómicas no Laboratório Curie até aos 34 anos. Abandona uma carreira científica de sucesso para se dedicar à filosofia e à literatura, que entendia “como uma dolorosa tentativa de chegar ao fundo do mistério, e ao comprometimento como testemunho, contra todas as formas de aniquilação”. Ate morrer, quase com cem anos, escreve inúmeros ensaios e três romances, O Túnel, Sobre Heróis e Túmulos e Abbadón, o Exterminador. Com esses três livros torna-se num dos mais importantes e influentes escritores argentinos. Em português europeu. está traduzido O Túnel. São livros que obrigam o leitor a moderar a velocidade de leitura, travado pela fascinação. Não há espaço para facilidades, enquanto vai deixando um rasto de oxidações de ouro nas células cinzentas do leitor.

O Túnel é um livro sobre o amor que promete não tranquilidade mas os perigos da intensidade da paixão que queima como ferro em brasa. Sobre a luz e as sombras que nos habitam e se vão alternando até ao impossível. Sobre a solidão e a ânsia de a ultrapassar sem que essa ultrapassagem alguma vez deixe de ser uma ilusão
Aparentemente há uma história contada na primeira pessoa, o pintor Juan Pablo Castel, que relata o crime que cometeu assassinando a mulher por quem se tinha apaixonado, Maria Iribarne, que era a única pessoa que o podia compreender: “ existiu uma pessoa que poderia entender-me, mas foi precisamente essa pessoa eu matei”. Matou-a, não suportando ter sido abandonado, o que o atira para a solidão de onde, afinal, nunca tinha saído.

O Túnel tem uma estrutura de romance policial, sem nunca o ser. Uma história que é contada sem nunca se esgotar para dar espaço ao leitor, à imaginação do leitor. Um livro raro escrito com o mesma intensidade de quem dizia: “A condição mais preciosa do criador é o fanatismo. Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.”

(publicado em Leituras/Guia de Eventos de Setúbal-Outubro 2011)

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