Cultura

JACQUES BREL – 4

HOJE, HÁ 33 ANOS, MORREU JACQUES BREL. REGRESSOU DO SEU EXíLIO VOLUNTÁRIO NAS ILHAS MARQUISE. GRAVA UM ÚLTIMO DISCO. MORRE UNS DIAS DEPOIS NUM HOSPITAL EM BOBIGNY. AINDA NÃO TINHA 50 ANOS!

Em Jacques Brel não se encontra uma única canção de amor paixão. Mesmo as que numa primeira audição se aproximam da canção de amor apaixonado como Ne me Quitte pás ou Chanson dês Vieux Amants, quando ouvidas atentamente são na realidade canções quase patéticas que retratam o amor miragem na procura de um absoluto impossível.. Canções patéticas mas belíssimas. Quem não foi, pelo menos uma vez na vida, quem não se sinta capaz de, pelo menos uma vez na vida voltar a ser  l‘ómbre de ton ombre / l’ombtre de ta main / l’ombre de ton chien, não viveu a vertigem do amor,. provavelmente, passou ao lado da vida.

NE ME QUITTE PAS

La Chanson des Vieux Amants acrescenta ao tom dorido que ecoa em Ne me Quitte pás, uma sageza adquirida pela idade em que se valorizam as coisas que são essenciais á vida e que possibilitam que os reencontros sejam constantes agregando os amores em que cada um vive por si para tornar os reencontros menos fugazes, mais sólidos nessas separações consentidas e compreendidas. Um registo raro em Brel, talvez explicado por uma velhice prematura, nas vésperas de Brel ir para o exílio voluntário no Pacífico.

LA CHANSON DES VIEUX AMANTS

Um homem como Brel, que procura encontrar no amor o seu próprio equilíbrio terá que forçosamente falhar. Brel assume essa falência e a solidão que implica. Está só no palco da vida como está só no palco do teatro enfrentando o público quando se enfrenta sobretudo a si-próprio: Somos dois meu amor / e o amor canta e ri / mas no fim do dia / entre os lençóis do tédio estamos sós // somos dez a defender os vivos e os mortos / mas desfeitos em cinzas / na fogueira dos remorsos / estamos sós // somos cem a folgar / no baile dos verdadeiros amigos / mas quando se apaga a última luz / mas ao primeiro desgosto / estamos sós // Somos mil contra mil / e todos se julgam os mais fortes / mas na hora imbecil de contar dois mil mortos / estamos sós // somos um milhão a rir do milhão em nossa frente / mas dois milhões de gargalhadas / não impedem que ao espelho / se descubra a solidão // somos mil os que nos sentamos / no topo da sorte / mas quando chega o medo de ver / tudo se desfazer à luz do luar // descobrimo-nos sós / somos cem os que a glória / escolheu sem critério / mas quando se morre por acaso /

SEUL

Jacques Brel só, terrivelmente só, encontra saídas idealizadas num lugar impossível, uma ilha onde tudo poderá ser recomeçado. Uma ilha, derradeira oportunidade para encontrara a harmonia do mundo, onde finalmente terá tempo para reiniciar a vida, reencontrar o amor

UNE ILE

A realidade é voraz. Devora essa e outras ilhas. Torna-as impossíveis. Brel está aparentemente desarmado, é o duplo da rapariga de Sur La Place que dança ao sol enquanto homens e mulheres meio-adormecidos mal a conseguem ver, enquanto a rapariga rasga a tranquilidade da praça cantando um hino ao amor. Hino que se derrete no calor enquanto homens e mulheres fecham as janelas com se fechassem uma porta entre a morte e a vida, porque se recusam a acender a chama que têm dentro de si. Tapam os ouvidos, fecham os olhos, não querem ser acordados da letargia. Fica a praça, o sol, um cão que uiva. A rapariga desiste vai-se embora e os homens choram o seu destino mas nada fazem para o mudar.
Sur La Place, uma das primeiras canções de Brel, é uma das suas obras-mestras

SUR LA PLACE

Brel, desamparado está constantemente a perder-se e a reencontrar-se no que deseja e no que vê, no quer ver e no que acaba por ver. Jogo de espelhos que pode ser infinito sempre a desaguar nos acasos e na recusa dos lugares que ele próprio tinha elegido

LE PROCHAIN AMOUR

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One thought on “JACQUES BREL – 4

  1. Meter a foice em seara alheia não é bonito. As minhas intromissões (sugestões), por vezes antecipadas, só têm o objectivo de mostrar que estou a adorar o que leio e ouço. Não tenho o conhecimento da obra de Brel, que dominas perfeitamente, que me permita mandar dicas. Algumas, desta última leva, não conhecia (La Haine) por exemplo. Esta interpretação de “Ne me quitte pas” é absolutamente pungente e sofrida, embora se tenha tornado uma das canções mais conhecidas e “banais”. Já chega. Quando houver alguma que eu goste e te esqueceste eu digo. Bjs.

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