Cultura

Jacques Brel – 3

 

 

Marieke é o amor distante que quer reviver e recorda mais pelo envolvimento que pela imagem da paixão. É a única canção de Brel cantada quase integralmente em flamengo, tem um refrão que se altera lentamente, dramatizando a situação do amor impossível até ao completo desespero. Começa por mergulhar na memória “Ai Marieke, Marieke amei-te tanto entre as torres de Bruges e Gand, ai Marieke, Marieke foi há tanto tempo entre as torres de Bruges e Gand”, e viaja pela memória sem que Marieke o ouça, continua a viajar até à última estrofe de delicadíssima angústia: ai, Marieke, Marieke todos os lagos me abrem os braços de Bruges à Gand.

MARIEKE

Em Madeleine , Brel é o Sísifo da paixão. Madeleine é a mulher que todos sabem estar bem para ele. Mesmo a família de Madeleine avaliza esse namoro que nunca será porque Madeleine nunca irá ao seu encontro, apesar de ele ter a certeza que ela é o seu Natal, o seu horizonte, a sua América, a sua esperança, a sua vida, Madeleine nunca vai aparecer. Espera-a nessa tarde, como a esperou em todas as semanas anteriores, como a irá esperar nos dias seguintes. Espera-a para lhe dar um ramo de. lilases e propor fazer todas as coisas que Madeleine adora. A dariaçâo é que Madeleine nunca chegará apesar de gostar de tudo o que ele tem para lhe dar.

MADELEINE

Em La Fanette, Brel é espectador de si-próprio, desesperando frente ao amor que lhe escapa e faz calar o sofrimento que a mulher provoca. É uma canção de situações simétricas em relação ao personagem -espectador. Ele a ver o amor que vive com Fanette/ ele a ver o amor que Fanette vive com outro. O refrão regista a evolução das situações nas personagens e no cenário em que o drama decorre. Primeiro canta: Nós éramos dois amigos e Fanette amava-me/ a praia estava deserta e estendia-se sob o sol de Julho/ se elas ainda se lembram / as ondas vos dirão quantas canções cantei para Fanette. Na segunda vez canta: Nós éramos dois amigos e Fanette amava-me / a praia estava deserta e mentia sob o sol de Julho/ se elas ainda se lembram / as ondas vos dirão como para a Fanette a canção acabou. A finalizar explode o drama: Nós éramos dois amigos e Fanette amava-o / A praia está deserta chove sob o sol de Julho / à tarde quando as ondas param / ouço uma voz / ouço… é a Fanette

LA FANETTE

Dessa extensa galeria de mulheres pode-se concluir que, para Brel, as mulheres são a frustração imprescindível do homem. Logo no seu primeiro disco em La Haine, Brel desenrola a preguiça que, segundo ele, avassala as mulheres  que  destilam  os  dias  com  aborrecimento  e   banalidade enquanto os homens destilam o amor, sem conseguirem

LA HAINE

 

Depois de cinco anos de exílio voluntário nas Ilhas Marquesas, Brel volta a França para gravar, dez anos depois, o que ele sabe ser o seu último disco. Todos os seus temas retornam depurados pela travessia terminal da vida enfrentando a morte visível e próxima. Finalmente faz justiça às mulheres. Irá cantar pela última vez a mulher, sabendo que é a última vez. Sem renegar nada do que anteriormente tinha cantado pela primeira vez, no ideário de Jacques Brel, a mulher, sem falsas e românticas luminosidades nem fantasiosas e heróicas auras, aparece como vítima milenária.

ORLY

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