economia, Geral, Internacional, Política

Europa: end of the line?

Agora que a Grécia está prestes a ser empurrada para o abismo da bancarrota, perguntamo-nos se a seguir não seremos nós. Será o fim de um sonho dourado que termina em pesadelo? O fim da Grande Ilusão em que os portugueses viveram despreocupadamente ao longo das últimas quase três décadas?

O problema grego (e o português, o irlandês, o espanhol, o italiano… o europeu) põe a nu as graves falhas de um projecto federal sem uma arquitectura e sem instrumentos federais. E começa já a empurrar milhões de pessoas para a pobreza, por via de medidas de austeridade que amplificam os efeitos das recessões instaladas .

O momento é de desânimo perante a manifesta incapacidade dos principais dirigentes da UE e dos maiores Estados nacionais. Poucos duvidam que a falta de apoio à Grécia arrastará Portugal e outros países num turbilhão de imprevisíveis consequências para o futuro dos povos e do próprio relacionamento entre as nações europeias.

Nós e “eles”

Bem podemos agora dizer que a culpa foi “deles”, como tantas vezes fazemos quando as coisas não correm bem. A culpa do estado a que chegámos não foi deles. Foi nossa. Nossa porque fomos nós, povo, enquanto eleitores, que maioritariamente votámos nos partidos e nos políticos que fizeram as opções que agora toda a gente constata erradas.

E continuamos a votar nos mesmos que agora se desdizem e que afirmam o contrário de tudo o que antes fizeram: o Presidente Cavaco Silva é o exemplo coroado desse transformismo. Aquele que agora apela ao regresso à agricultura e fala de uma economia do mar foi o mesmo que, quando primeiro-ministro, contemporizou e aceitou o desmantelamento de importantes sectores da agricultura e das pescas portuguesas.

E que dizer dos políticos do centrão, que enxamearam o país com empresas municipais (como Paulo Anjos já aqui lembrou) para contornar as leis da administração pública de que foram primeiros subscritores e que agora lançam anátemas sobre as suas próprias criações. Idem aspas para as Fundações e outras figuras criadas ao longo dos anos para sacar financiamentos ao Estado. Caricato!. É a fase da negação.

Mas como se explica que a imensa maioria dos portugueses tenha acreditado em tal El Dorado?

Em primeiro lugar porque todos gostamos de contos de fadas. Em 1974 a estória do Império Colonial havia acabado mal e após os primeiros anos revolucionários do regime democrático, uma nova narrativa seduziu os portugueses – “Portugal na CEE” (veja aqui o tema musical que os GNR cantavam em 1981), que Mário  Soares anunciara como a “Europa está connosco”.

No princípio da estória os milhões chegaram a rodos (FEDER, Fundo Social Europeu e outros) e o país melhorou a “olhos vistos”, construiu auto-estradas e as cidades duplicaram o seu volume de cimento. Nos capítulos seguintes entrou-se na fase alucinada. A maioria dos portugueses e dos políticos eleitos para os governar deixaram de se preocupar com auto-sustentabilidade futura do país e a sua autonomia em matérias tão importantes como a produção de bens alimentares. “Bruxelas” é que sabe! Desde que as coisas corressem mais ou menos bem – desemprego controlado, salários e pensões pagos a horas e assistência médica mais ou menos universal, taxas de juro baixas e acesso ao crédito… parecia que nos aproximávamos do melhor dos mundos.

Os poucos “grilos políticos falantes” que lembraram algumas verdades inconvenientes e incómodas nos momentos certos foram remetidos pelos portugueses eleitores para o limbo eleitoral. Pois que lá estava a Europa para nos ensinar: da colher pau e das matrículas dos carros à política externa, passando por tudo o define um país economicamente.

Em segundo lugar, porque a maioria dos portugueses julgou o país a salvo de qualquer problema futuro por se fazer parte de uma união (economicamente) poderosa e assistiu despreocupada ao definhamento de muitos sectores tradicionais da sua economia, casos das citadas agricultura e pesca, mas também de outros como os têxteis, por força da globalização e do crescimento chinês.

Mas conseguiremos pensar hoje um Portugal fora do euro? Provavelmente não! Ou sim! Que preço teríamos (teremos) que pagar? Agora que a nossa economia é mais aberta que nunca; agora que somos completamente dependentes do exterior inclusive para nos podermos alimentar; agora que estamos “atados de pés e mãos” por uma dívida “colossal” e que somos forçados a cumprir curas de emagrecimento pessoal e colectiva que se reflectem em mais impostos, menos prestações sociais e um empobrecimento generalizado.

Resta-nos constatar que perdemos a nossa independência e que as nossas principais decisões deixaram de ser tomadas pelos nossos representantes. Até quando iremos continuar sob este estado letárgico que há muito parece afectar-nos ?

Standard

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s