Cultura

Cinema português: E o público?

"A Bela e o Paparazzo" foi visto por 99 mil; 782 mil viram "Avatar"

O filme português que mais público chamou às salas em 2010 foi a ficção “A Bela e Paparazzo”, que somou um total de 98.889 espectadores; “Avatar”, uma produção norte-americana realizada por James Cameron, foi, no mesmo período, o filme mais visto em território nacional atingindo 782.074 espectadores, isto é, mais de sete vezes e meia o público que viu a obra de António Pedro Vasconcelos nas salas de cinema. Os dados constam no Anuário Estatístico 2010 do Cinema em Portugal, recentemente editado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual e que faz um bom retrato estatístico das tendências nacionais.

Top 40, norte-americano

Se continuarmos “mergulhados” no Anuário e consultarmos a lista dos 40 filmes mais vistos nos nossos cinemas, constataremos que “Jantar de Idiotas”, de Jay Roach, com 126.371 espectadores, foi o último da tabela. E não encontraremos, como se depreende, nenhuma obra nacional e mesmo as com outro carimbo na produção que não o norte-americano reduzem-se a um único filme , “Resident Evil:Ressureição” (34º mais visto), uma produção anglo-franco-alemã, assinada por Paul  W. S. Anderson. Nessa lista não é sequer possível encontrar uma única produção exclusivamente europeia, apesar de terem sido exibidos 408 filmes originários do “velho continente”!

Num total de 16.559.731 espectadores que se deslocaram às salas de cinema nacionais em 2010, os filmes de origem europeia apenas obtiveram uma pequena parcela de 1.291.395 espectadores (7,8%). Quase 13 milhões de espectadores escolheram produções norte-americanas, que geraram uma receita de bruta de cerca de 65 milhões e meio de euros.

Apesar de dominarem claramente o Top 40 dos mais vistos, o número de filmes norte-americanos exibidos, 255, foi inferior ao das produções europeias. Já no que se refere a estreias, a capacidade produtiva americana é dominante – 125 filmes estreados contra 102 obras de origem europeia.

Pode-se pois concluir que os blockbusters americanos continuam a dominar o mercado, apesar dos programas de apoio ao cinema europeu da UE e das subvenções que os Estados nacionais têm dispensado à produção cinematográfica. Longe vão os tempos em que as cinematografias italiana e francesa disputavam com êxito os favores do público.

Cinema português vale 1,6%

Regressando à exibição de cinema português. Foram estreadas 30 obras de produção exclusivamente nacional em 2010. Número que não foge aos valores dos últimos sete anos (que oscila entre um mínimo de 13 em 2005 e um máximo de 39 em 2004). Quanto a público, o panorama é confrangedor, já que a quota de mercado dos filmes nacionais foi de 1,6% (306.990 espectadores em salas de cinema), uma das mais baixas da UE ! O segundo filme mais visto em salas, “Contraluz”, de Fernando Fragata, foi visto por pouco mais de 83 mil espectadores, enquanto o 10º filme do ranking nacional, o documentário “Fantasia Lusitana”, de João Canijo,  teve 4.127 espectadores nas salas…

Cinema na TV

Já a televisão pode dar outra projecção ao cinema português: “Dot.com”, de Luís Galvão Teles (audiência de 244,0) e “A Outra Margem”, de Luís Filipe Rocha (audiência de 207,8), ambos na RTP, garantiram audiências de alguma relevância.

Elucidativo do divórcio entre o público e o cinema feito em Portugal é o facto de apenas 12,2% dos espectadores de cinema (na TV, salas de cinema, DVD, internet, escola, vídeo-on-demand e circuitos alternativos) terem assistido a filmes de produção nacional (*). Se atendermos a que 35,9% referiram a circunstância de “estar a ser transmitido na televisão” como factor de influência na escolha…

Apesar dos muitos anos de esforços, os portugueses continuam arredados do cinema “made in Portugal”. O domínio norte-americano iniciado em meados do século XX veio para ficar e as pequenas e médias cinematografias europeias não conseguem afirmar-se fora das suas fronteiras nacionais e mesmo no seu interior são muitas as dificuldades. O domínio avassalador da língua inglesa e dos circuitos de produção e distribuição americanos, a par de uma cultura massificada e global, pouco espaço deixam às pequenas cinematografias.

(*) Segundo o Inquérito Sociedade em Rede Portugal 2010 (ed. Janeiro de 2011 pelo Obercom – Observatório da Comunicação).

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