Cultura, Geral, Setúbal

O Victor Serra que eu conheci

Ensaio para sessão no bar Octubrus, em Setúbal (imagem de Albano Almeida)

Victor Serra, militante político-cultural e poeta, nascido em Setúbal em 1950, faleceu no passado sábado na sua cidade natal.

Desde cedo ligado à vida artística e a associações culturais da sua cidade – algumas das quais ajudou a construir, como os grupos de teatro Sobe e Desce, Vozes Acesas e Teia, o Círculo Cultural de Setúbal ou a Associação José Afonso – Victor Serra foi também um activo organizador de iniciativas tão importantes para o panorama cultural sadino como o festival Cantar José Afonso, entre 1988 e 1996, e dispersou a sua verve poética por numerosos recitais de poesia e espectáculos.

Fez parte de uma geração que viveu os verdes anos ainda em ditadura e com a ameaça da guerra colonial, num país amordaçado e amedrontado. Caldo que certamente contribuiu para o tornar um activo militante e animador político-cultural, no que veio a constituir uma face permanente da sua postura ao longo de toda a sua vida. Viveu os tempos de esperança nascidos em Abril de 1974 e, como muitos de nós, acreditou numa Revolução que nunca chegou e que deixou muitos portugueses desencantados com o rumo da nova democracia dali resultante.

Victor Serra dizia e escrevia coisas às vezes difíceis de aceitar. Sobretudo para quem está em lugares de decisão. Apesar da amargura crítica que dedicava com frequencia às coisas da Cultura da sua terra, Serra foi como que um franco-atirador contra tudo aquilo que ele gostava de classificar como “o poder”, que frequentemente considerava desqualificado e medíocre. E nisso, nunca transigiu perante o que a sua consciência lhe ditava, mantendo sempre um espírito libertário e crítico que às vezes roçava a intolerância. Mas todos sabemos a falta que os espíritos críticos e independentes fazem às sociedades, agitando-as, ajudando-as à reflexão e contribuindo para impedir o estabelecimento de novas “situações” (termo que no singular os mais velhos recordam por ser utilizado pelos defensores do Estado Novo para caracterizarem o seu regime) pantanosas e caciqueiras, também elas tão comuns em democracias fracas e com escassa opinião pública – como infelizmente a nossa ainda é.

Qual “grilo falante” sem preocupações de correcção política, não era fácil ficar indiferente a Victor Serra, um homem que sempre cultivou a sua independência cívica.

Agora que ele deixou de estar entre nós, lembremo-lo, não só como o poeta e o animador que se esforçou por ser, mas como o cidadão activo e crítico que nos recordou a necessidade de nos mantermos acordados e atentos. Mas sempre com um espírito fraternal e solidário, isento de ódios e rancores. Por alguma razão, quando o seu corpo desceu à terra, entre a sua Setúbal e adoptada Palmela, os seus amigos presentearam-nos com três canções de José Afonso, “Balada de Outono”, “Traz Outro Amigo Também” e “Grândola Vila Morena”.

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One thought on “O Victor Serra que eu conheci

  1. rui farinho diz:

    Melhores palavras não podiam ser ditas.Numa curta página, está o Victor todo, embora a sua vida enchesse um livro, não só de poesia. Conheci o Victor com 9 ou 10 anos, com o pai, que também aos 33 anos nos deixou. Encontravamo-nos de vez em quando, e neste meio século de conversas esporádicas, fui sempre reconhecendo nele um exemplo de intransigência com o que está mal, e, como diz o Carlos Anjos, um certo desencanto por ver o tempo passar, e a revolução não chegar. “Qualquer dia…Qualquer dia” cantava o Zeca, quando o inverno nos faz criar ódio, e era esse cerrar de dentes que eu fui vendo no Victor Serra.No domingo passado, muitos amigos estiveram com ele no S.João de Palmela. Muitos outros estão aqui e ali, e não o esquecem. Qualquer dia, Victor, qualquer dia.

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