Internacional, Política

Grécia

“Crise da Dívida: Grécia em Roda Livre?” titula um jornal. Desfilam os números. Nada de novo. Oculta-se que políticas conduziram a essa situação e que políticas são aplicadas pelos espertos do costume, um bando de corvos também anda por cá, para a (não) resolver.

POVOS DA EUROPA, POVOS DO MUNDO! ACORDEM!
Preciso lavar os olhos, os neurónios. A correr vou buscar Ritsos à estante.
.OS MODELOS (*)

Não esqueçamos nunca — disse — as boas lições, aquelas
da arte dos Gregos. Sempre o celeste lado a lado
com o quotidiano. Ao lado do homem, o animal e a coisa —
uma pulseira no braço da deusa nua; uma flor
caída no chão. Recordai as formosas representações
nos nossos vasos de barro — os deuses com os pássaros e
com outros animais, e juntamente a lira, um martelo, uma maçã, a arca, as
[tenazes;
ah!, e aquele poema em que o deus, ao terminar o trabalho, retira o fole de junto do fogo, recolhe uma a uma as ferramentas
dentro da arca de prata; depois, com uma esponja, limpa o rosto, as mãos, o pescoço nervudo, o peito peludo.
Assim, limpo, bem arranjado, sai à tardinha, apoiado nos ombros de efebos todos de oiro — trabalhos de suas
[mãos
que têm força, e pensamento, e voz; — sai para a rua,

mais magnífico que todos, o deus coxo, o deus operário.

MUDANÇA (*)

Por estas paragens esquecemos um monte de coisas.

Não há uma janela para olharmos o mar.

Dum modo se olha o mar duma janela,

doutro modo por detrás da cerca-de-arame.

A voz duma criança à tarde — onde está? –

uma mulher na soleira da casa, a casa — onde está? —

e o armário com a roupa de inverno

e o silêncio que cai do relógio de parede sobre as cadeiras

e a sombra duma mão amável que põe uma flor no copo –

[— onde estão? —

e o gramofone do sábado-à-noite no umbroso peitoril,

e o gato que passeava no telhado da casa em-frente

dentro dum crepúsculo todo naftalina,

aquele negro gato de bairro — atormentado

com duas gotas de azeite de solidão dentro dos seus olhos,

atormentado gato preto no telhado em-frente —

estranhamente, tranquilamente passeando dentro do

[crepúsculo,

arranhando com sua cauda a alva lua. Esquecemos.

Aqui é muito o frio, à noite,

é muita a solidão por sob o medo

e é muita a camaradagem por sob o medo

à hora em que a morte sobre as vigias

joga aos dados com as sentinelas sentadas no chão de-

[-pernas-cruzadas.

Aqui  até os gatos são diferentes,

bravos, pacientes, mudos,

não esfregam seu focinho no nosso cotovelo,

am-estáticos nos nossos joelhos e estudam

estudam a morte,

estudam a tristeza,

estudam a vingança, a determinação,

estudam o silêncio e o amor,

estudam a vida dentro dos nossos olhos,

os não-acarinhados,

os bravos gatos

os silentes gatos de Macrónissos.

E esta lua de-Agosto que pende sobre nós

É como a grande palavra que não foi dita

mortificada na garganta da noite.

PRONTOS (*)

Dispostas-em-socalcos as tendas na encosta

lá mesmo no alto ao longo do céu,

cravadas as tendas na pedra,

estacadas na obstinação,

com o arpéu do sol sobre-o-peito.

Chegam e partem os dias. A pedra não muda.

Uma-vez-por-outra passa um barco, uma nuvem —

deixam atrás de si um pouco de sombra,

uma pequena janela aberta para os anos da árvore.

Não muda nada.

Nem o coração nem a pedra mudam.

De-pedra a cama onde dormimos,

de-pedra o pão onde afiamos nossos dentes,

de-pedra a mão onde encosta seu queixo a noite.

Coisas em que o vento não pega.

O anoitecer desfralda a sua vermelha bandeira.

Vamos dormir mais-uma-vez com uma pedra entre os

[dentes,

com as narinas do mar perto da raiz-das-orelhas.

O que quer que venha agora, camaradas,

achar-nos-á com a nossa trouxa ao ombro

com todo o nosso coração dentro da nossa trouxa

moendo a nossa determinação no juramento da Democracia

como moemos o dedo na botoeira do casaco do nosso amigo

não por não termos que dizer

mas porque muito o amamos: — e assim sucede sempre

quando amamos não podemos falar,

brincamos com um raminho de oliveira-brava em nossas

[mãos

arranhamos na terra um nome,

sempre o mesmo e estamos prontos

sempre o nome da Liberdade.

.

 CONHECIMENTO (**)

Um sol de pedra viajou ao nosso lado

queimando o ar e os espinhos do deserto.

À tarde deteve-se na margem do mar

como uma lâmpada amarela num grande bosque de recordações.

Não tínhamos tempo para tais coisas – no entanto

dávamos de vez em quando uma vista de olhos – e sobre as nossas mantas

conjuntamente com as manchas gordurosas, a cor, e caroços de azeitona,

repousavam algumas folhas de salgueiro, e agulhas de pinheiro.

Tinham também estas coisas – não muito importantes – o seu peso:

a sombra de uma forquilha no muro, até ao ocaso,

a marcha do cavalo à meia-noite,

uma cor rosa que morre na água

deixando atrás de si o silêncio mais solitário ainda,

as folhas da lua caídas entre a erva, e os patos selvagens.

Não temos tempo – não temos,

enquanto as portas se convertem em mãos cruzadas,

quando os caminhos são como aquele que diz “não sei nada”.

No entanto, sabíamos que para além da grande encruzilhada

há uma cidade com milhares de luzes coloridas.

Lá as pessoas saúdam-se com um único movimento da sua face –

reconhecemo-las pela posição das suas mãos,

pelo modo como cortam o pão,

pela sua sombra sobre a mesa à ceia,

pelo momento em que todas as vozes adormecem nos seus olhos

e uma só estrela cruza a sua almofada.

Reconhecemo-las pelo sulco de luta nas suas sobrancelhas

e, sobretudo – nas noites em que o céu se amplia sobre eles –,

reconhecemo-los por aquele tranquilo e oculto movimento

com que atiram o seu coração como um jornal clandestino

por debaixo de uma porta fechada ao mundo.

Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi preso e esteve em vários campos de concentração, durante a ocupação nazi-fascista, contra a qual lutou, não de armas na mão, porque a sua saúde não o permitia mas na organização administrativa da Grécia libertada. Acabada a guerra, o exécito de libertação da Grécia, ELAS, desarmou-se voluntariamente e os seus membros, que tinham lutado heroicamente contra os alemães e italianos, continuaram a ser perseguidos com igual ferocidade pelos novos ocupantes , os ingleses, e seus cúmplices gregos. O número de vítimas entres os resistentes não foi menor do que tinham sofrido contra os nazis. As prisões tornaram-se a encher de patriotas gregos. A repressão não diminuiu quando a Inglaterra transferiu as suas responsabilidades para os Estados-Unidos. Iannos Ritsos esteve num deses campos de 1951 a 1957, quando saiu em liberdade vigiada.Em 1967, nas véperas de eleições finalmente livres e na previsão de uma estrondosa derrota da direita, dá-se o “golpe dos coronéis”. Ritsos é novamente preso e deportado para a ilha de Garos, a ilha do Diabo. Um movimento internacional, encabeçado por Aragon, consegue a libertação do poeta. Morre em Novembro de 1990. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956,num momento de pequena apertura política e contra fortes pressões do poder, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis, Odyssues Elytis e Konstandinos Kavafis, é considerado um dos mais importantes poetas do século

-versões e traduções de (*) Custódio Mageuijo (**) Amadeu Baptista

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