Internacional, Política

Europa-América

Enquanto a Europa se desilude com uma esquerda que se rendeu às teses da supremacia do mercado, na América do Sul uma esquerda assumidamente ideológica e que aposta no combate à pobreza tem vindo a conquistar o sub-continente. A recente eleição de Ollanta Humala no Peru é mais uma demonstração desse vento que varre o sub-continente.

A América do Sul não faz parte das preocupações da maioria dos portugueses. Mais atentos aos lugares turísticos brasileiros e com a excepção do relato de alguns episódios da política brasileira, quase tudo o que se passa naquele sub-continente pouca relevância merece nos nossos media. Certamente resultado da ligação histórica que a generalidade daqueles países mantêm com Espanha.

Ao contrário da maré neo-liberal que varre a Europa e que tem vencido quase todas as recentes eleições no “velho continente”, no sul do continente americano (13 países, 357 milhões de habitantes em 2003) regista-se exactamente o movimento contrário. Com o final da guerra fria governos ditatoriais e de extrema-direita que dominavam numerosos países daquela parte do mundo, bem representados pelas sanguinárias ditaduras de Pinochet (Chile 1973-1990) e J. Videla (Argentina 1976-1983), foram paulatinamente arredados do poder.

Por via eleitoral Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Equador tem hoje governações politicamente à esquerda. Um processo iniciado com a eleição de Hugo Chávez em 1998 (e as importantes medidas que introduziu num país marcado por enormes contrastes) e extraordinariamente acelerado com a eleição do ex-operário Lula da Silva em 2003 para a presidência do maior país da América do Sul. Brasil cuja taxa de crescimento do PIB atingiu 7,5% em 2010. As opções “esquerdistas” dos eleitorados não parecem ter perturbado o crescimento das economias latino-americanas que, com excepção da Venezuela (-1,9%) atingem valores notáveis, 15% no Paraguai, 8,5% no Uruguai, 7,5% na Argentina.

O vento de mudança e de esperança que varre a Sudamérica representa um profundo corte com as imposições geoestratégicas que dominaram o sub-continente nos tempos em que era qualificado como o “quintal” dos Estados Unidos. No Peru (29 milhões de habitantes), com a recente eleição de Ollanta Humala, que há dias tomou posse, esse vento acaba de mais uma vez se fazer sentir. O Peru tem uma história repleta de desigualdades sociais, dramas e traumas tão perturbadores como a hiper-inflação de finais dos anos oitenta, as elevadas tensões sociais ou a sangrenta e feroz luta sem quartel e sem regras que opôs o Estado a grupos revolucionários radicais como o Sendero Luminoso e o Tupac Amaru durante a presidência de Alberto Fujimori.

Com uma América do Sul à esquerda e a crescer economicamente, os posicionamentos parecem referenciar-se a partir de duas principais fontes de inspiração, o Brasil de Lula da Silva (e agora da Dilma Roussef), apresentado como uma declinação reformista e de sucesso que procura garantir conquistas sociais numa economia de mercado, e a Venezuela de Hugo Chaves com a sua revolução bolivariana servida com políticas sociais dirigidas pelo Estado aos estratos mais baixos da população.

Como sempre a questão central do papel e da intervenção do Estado. Por isso o novo presidente peruano afirmou no seu acto de posse que “necessitamos de mais Estado”, tendo anunciado medidas de ataque à pobreza inspiradas nas experiências brasileira e venezuelana.

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