Cultura

Um Livro de vez em quando

FESTEJAR A ESCRITA

Há trinta anos Mário de Carvalho irrompeu com fragor no mundo literário de língua portuguesa com dois livros de contos, Contos da Sétima Esfera e Casos do Beco das Sardinheiras. Dois anos depois A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, no ano seguinte Fabulário. Descobria-se uma inventiva que ultrapassava todas as margens, um prazer lúdico saltava todas as barreiras, invadia aqueles textos ancorados em relatos domésticos, fantásticas ou históricos.

Novelas e romances, entre eles, um dos mais notáveis de língua portuguesa Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, foram-se sucedendo. Em 2000, uns Contos Vagabundos, confirmaram a prática da concisão mas não faziam esquecer aqueles três primeiros livros.

Com O Homem do Turbante Verde, Mário Carvalho evidencia-se como grande mestre da narrativa curta seja a história relatada secante a vivências do autor, tenha uma raiz “kafkiana”, seja paródica ou provocadora de inquietações extremas, ocorra em cenários bloqueados impossíveis de reconhecer ou que nos sejam familiares, decorram as peripécias integradas num vago contexto histórico que se torna de uma actualidade cortante ou se localizem em tempos próximos. Todos os contos são notáveis.

São dez contos magníficos, arrumados tematicamente, de uma imaginação fértil que se espraia por um português límpido de vocabulário extenso e construção sem fissuras. Uma exibição do virtuosismo de ter uma história para contar e sabê-la contar como poucos o saberão fazer.

Lê-se de um fôlego. A muitos dos contos, em que acontecem maldições ferroviárias, brutalidades inomináveis e inexplicáveis, o erro distraído de um burocrata que é imperdoável num meio doentiamente deformado, a crescente paranóia de um individuo que vai fechando a casa para melhor se entrincheirar, voltamos atraídos e inquietados por um pessimismo que se entrevia nas suas duas últimas novelas Sala Magenta e A Arte de Morrer Longe e aqui adquire uma dimensão com outra espessura.

O Homem do Turbante Verde é um livro de contos que festeja a literatura.

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal/Leituras , Julho 2011)

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