economia, Internacional, Política

Rating: bons alunos e lixo

"O usurário e sua mulher", de Marinus Reymerswaele (1490 - 1567)

Enquanto não chega o prometido “bom aluno”, isto é, o Portugal cumpridor do memorandum com a troika, a agência de rating (notação financeira) Moody’s decidiu atribuir-lhe uma nota negativa no final do 1º semestre.

Perante um país atordoado com más notícias, o primeiro-ministro sussura que lhe deram “um murro no estômago” e outros políticos de primeira linha competem na televisão para demonstrar a sua indignação, esquecendo-se que ainda há poucos meses lançavam anátemas sobre quem se atrevesse a criticar as sacrossantas agências. Mas que querem? É o sistema a funcionar no seu melhor – friamente e sem respeito pelos interesses dos povos e dos países.

Dizem uns que as agências de rating se limitam a fazer o seu trabalho, isto é, que no caso português, a Moody’s  se terá limitado a avaliar como “lixo” a dívida pública nacional e, por arrasto, um conjunto de bancos, câmaras municipais e empresas, constatando o que todos sabemos – apesar do acordo com a troika os indicadores relativos à Divida Nacional são maus, o desemprego aumenta e, com a economia deliberadamente atirada para a recessão, as perspectivas são más.

Outros dizem que as mesmas agências são pró-ciclicas, isto é, chegam tarde aos ciclos de crescimento e contribuem para “inchar bolhas”, mas também chegam atrasadas às crises, aprofundando as feridas com doses exageradas de pessimismo. Mas o problema maior é que as suas notações são levadas a sério e têm por isso impacto na vida rel.

O momento seria cómico, se não fosse trágico. É verdadeiramente de pasmar que aqueles que ainda há pouco tempo eram incondicionais defensores da notação financeira praticada pelas três grandes agências, se venham agora contorcendo para não se desdizerem. O Presidente Cavaco Silva, por exemplo, que afirmou hoje “que não há o mínimo facto que justifique a decisão de Moody’s”, dizia há cerca de um ano que “não vale a pena recriminar as agências de rating, o que nós devemos fazer é o nosso trabalho para depender cada vez menos das necessidades de financiamento externo”. Por essa altura e mesmo mais recentemente, todos os que punham em causa aexcessiva influência dessas agências e o seu desprezo pelo destino das nações eram rapidamente apodados de esquerdistas.

Se foi longo o caminho, foi curto o espaço de tempo que decorreu até assistirmos ao insuspeito Alberto João Jardim “proibir” a entrada “desses senhores” do rating na “sua” região autónoma! E vermos os autarcas de Sintra e do Porto (e, ao que se anuncia, também de Lisboa) rescindir os contratos que ligavam as respectivas Câmaras Municipais a agências de notação financeira? Então esta gente deixou de acreditar no rating? Bem mais cedo viu o banqueiro Ricardo Salgado a marosca quando, ainda em Novembro de 2010, prescindiu dos serviços da Fitch na sequência da revisão em baixa da dívida do seu banco. Dirão os mais cínicos “agora que lhes pisaram os calos…”

Sem a criação de um sistema de notação financeira credível e independente sediado na União Europeia não será possível ultrapassar os estragos que o “pequeno oligopólio não desejável”, Trichet dixit, das agências hegemónicas Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s, que concentram 90% do mercado. Mas a verdade é que foram os decisores políticos e os agentes financeiros que aceitaram (e pagam!) a actual estrutura de notação e lhe continuam a dar crédito. Apesar de já se constatado as importantes responsabilidades das agências de rating na avaliação errada de várias entidades que estiveram na origem da presente crise e de que os casos Enron e Lehman Brothers, são exemplos dramáticos.

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