Num país à beira de um ataque de nervos em que a cultura, que sempre foi o parente pobre do orçamento do estado, vai continuar a andar pelas ruas da amargura o Festival de Teatro de Almada é quase um milagre e uma pirâmide à persistência, inteligência e dedicação à causa do teatro que brilha no céu da cultura. Uma pincelada forte, espessa e brilhante no geral cinzentismo que por cá invade o seu universo.
Apesar de ter sido sujeito a um corte de mais de cento e cinquenta mil euros, a CTA-Companhia de Teatro de Almada condenada à quase indigência pelos poderes públicos, que cortam cegamente para se fingirem sérios, consegue, com grande modéstia de meios resistir e organizar um festival de grande qualidade.
Retornam a Portugal grandes nomes do teatro mundial, companhias de teatro com créditos firmados ao lado de artistas e encenadores incontornáveis que pela primeira vez pisam palcos no nosso país. Todos, quase todos, os géneros teatrais estão presentes no Festival de Teatro de Almada, que estende a sua rede por todo, quase todo o país.
Há qualquer coisa de extraordinário em que como se consegue, no estado actual da arte e da pátria, organizar uma programação deste gabarito que também é resultante de um trabalho continuado e quotidiano, do prestígio angariado tanto nacional como internacionalmente pela CTA- Companhia de Teatro de Almada e pelo seu director Joaquim Benite, um homem do teatro com a fibra de um resistente, de um militante, de um combatente da causa da cultura.
Começa hoje e termina no próximo dia 18, esta sucessão de espectáculos teatrais onde a condição humana, as contingências históricas, politicas, sociais e estéticas são encenadas para melhor percebermos as suas contradições e vermos os seus horizontes de um modo como só a arte, a grande arte é capaz.
Absolutamente a não perder.