Praça do Bocage

O TANGO DOS TEMPOS MODERNOS

Faz hoje nove anos que morreu Astor Piazzola, o grande renovador do tango. É um dos grandes músicos do século XX. Os seus pais emigraram para os Estados Unidos, Nova Iorque, à procura de melhores condições de vida. Foi aí que nasceu o seu interesse pela música, tem os primeiros contactos com o jazz e os pais oferecem-lhe o primeiro bandeneon. É também aí que tem as suas primeiras lições de piano com Bela Wilde, um pianista húngaro discípulo de Rachmaninov.

Mas é em Paris que a sua vida se irá virar do avesso até se tornar no mais famoso compositor de tangos da segunda metade do século XX. No final dos anos 30, rumou ao Conservatório de Paris para estudar piano e composição. Teve a excepcional sorte de ser discípulo de Nadia Boulanger. Compositora, maestrina, musicóloga, mulher de enorme inteligência e sensibilidade rapidamente se apercebeu das enormes qualidades de Astor Piazzola e da impossibilidade de ele se tornar num compositor e músico de sucesso e relevo no quadro da música sinfónica. Tudo se conjugava para isso não sucedesse, até pela vida a que era obrigado para sobreviver. Astor, antes de ir para as aulas tocava até desoras em bares. Obviamente tocava tangos já com algumas variantes, poucas e tímidas, que os conhecimentos de jazz lhe permitiam. Calcula-se o défice de atenção com que enfrentava as aulas do Conservatório. Nadia Boulanger, conhecedora desses factos, ouvindo-o tocar tangos, incentivou Piazzola a utilizar os conhecimentos adquiridos nas aulas para renovar o tango que estava a repetir retoricamente fórmulas estafadas. Provavelmente com outro professor mais apegado a métodos de ensino mais rígidos e tradicionais, não se teria acendido o rastilho que fez explodir em Astor Piazzola a carga de dinamite que introduziu no tango, inovando-o radicalmente.

Se no principio foi incompreendido e mesmo colocado no índex pelos puristas mais extremados, prosseguiu um caminho que tornou o tango uma linguagem inovadora e universal, dando mesmo novo alento às suas formas mais tradicionais que também se libertaram de serem cópias das cópias, o que é o suicídio das formas de música tradicionais, formatando-as, esclerosando-as.

Com Astor Piazzola o tango ganhou uma nova vida e abriu novos caminhos. Hoje é impossível falar de tango sem falar de Troilo, Gardel e Piazzola,  na linha da frente de talentos que perpetuam esse género musical, do tango tradicional ao tango da modernidade,  em que, no dizer de Cortazar, se inscreve uma serenidade que faz perder a hipótese de regaste. Onde se encontra o equilíbrio precário entre o excesso de sensualidade e o humor triste, que percorre ” todos os registos da sentimentalidade popular desde o rancor irremissível até à alegria do canto pelo canto”.

Tudo isso se reencontra na música inovadora de Piazzola que mergulha nas raízes mais fundas e vitais do tango, libertando-o do provincianismo a que se estava a condenar depois da morte de Gardel, que morreu para mal dele mas para bem para o tango, quando a mão holywoodesca o estava a iniciar nas traições para que a glória cinematográfica empurrava, polindo e descaracterizando a canção “portena” .