economia, Internacional

Europa, tiros nos pés

Ambicionando ser mais que uma mera união económica, a União Europeia vê-se agora chegada a uma encruzilhada: após décadas de crescimento e de rápido alargamento a quase toda Europa central e de leste, multiplicam-se os sinais de fragmentação política e de mesquinhez. Sinais da irrupção de egoísmos nacionais nunca ultrapassados mas que, até há pouco, estavam bem escondidos pelo crescimento. Mas, pior, sinais de falta de visão para o futuro.

A estratégia da União face às chamadas crises da dívida soberana – que estão a abalar três membros da União, e que poderão não ficar por aí -, e as reacções de alguns Estados europeus perante o afluxo de refugiados magrebinos e africanos, na sequência das revoltas árabes, são dois bons exemplos.

Não seria de esperar que aos países membros da UE em situação de maior dificuldade, casos da Grécia, Irlanda e Portugal (e os que mais se verão), fossem concedidas condições de financiamento que lhes permitissem retomar o seu crescimento económico? O que se constata é que as taxas negociadas no âmbito de empréstimo internacional com o FMI, na ordem dos 3,5% a 4,25%, são claramente inferiores às que Portugal terá que pagar pelas tranches oriundas dos fundos da UE (FEEF/MEEF), cujos juros andarão por perto dos 6 %. Os nossos amigos europeus aproveitam a ocasião para castigar o país – penitenciemo-nos pois pelos nossos (nossos?) erros. Uma solução que, associada às medidas do pacote acordado com a troika, acentuará ainda mais a recessão de que há já sinais (-0,7% do PIB no primeiro trimestre), antes ainda da sua aplicação prática. Bastaria, aliás, olhar para o exemplo grego para perceber o que se vai passar e como o cenário da reestruturação da dívida que, ainda há dez dias, era diabolizado por grande parte do espectro político, começa agora a ser sibilinamente aceite por muitos nesses mesmos sectores.  

Toldados pelos números, falta visão de futuro às principais lideranças europeias, mormente a alemã que esquece que foi com a solidariedade dos outros países europeus que pode voltar a ser um país unificado – facto que se sabia vir um dia, no futuro (hoje), a alterar a balança do poder na Europa. O perseguido objectivo da coesão parece agora ter sido atirado para “trás das costas”

O outro sinal. Quando o espaço Schengen foi concretizado na sua vertente de livre circulação no espaço europeu, o facto foi saudado como uma real mudança de paradigma nas relações entre os povos europeus. Por isso os controlos alfandegários entre países da União recentemente repostos por autoridades francesas (com a Itália) e já anunciados pelas autoridades dinamarquesas, revelam um retrocesso inaceitável, impróprio de uma Grande e generosa Europa.

A braços com milhares de migrantes oriundos do norte de África, a Itália foi abandonada pelos seus parceiros da União na resolução deste grave problema, assistindo-se mesmo aos caricatos episódios de controlos franceses nas ligações oriundas da Itália, visando impedir a circulação dos refugiados munidos de documentos italianos. Na Dinamarca a reposição de controlos foi justificada pelo combate à criminalidade, numa medida forçada por um partido de extrema-direita como condição para apoiar o Governo liberal-conservador. Longe vão os tempos em que essa mesma Europa se mobilizava para acolher e apoiar os refugiados das guerras balcânicas ou oriundos dos países do outro lado da “cortina de ferro”. 

Uma Europa que foi rápida a estimular a revolta da rua contra os poderes instituídos e os seus ícones e que se dispôs mesmo a patrocinar sangrentas guerras, mas agora pouco generosa com os resultados dessas mudanças e com as pessoas que elas inevitavelmente afectam.

Num caso como noutro, sacrificam-se os elevados princípios aos imediatos interesses financeiros ou geopolíticos.

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