Cultura

MANUEL ANTÓNIO PINA, Prémio Camões 2011

Manuel António Pina foi galardoado com o Prémio Camões 2011. O voto do júri — Rosa Martelo, Abel Baptista, António Carlos Secchim, Edla Van Steen, Ana Paula Tavares e Inocêncio Mata — foi unânime, sublinhando a coerência da sua obra.

Manuel António Pina, sucede a Ferreira Gullar, e tem todo o merecimento em ter ganho este prémio. Poderão dizer que muitos escritores de língua portuguesa também o mereciam. É um facto isso em nada deslustra o eleito pelo júri.

Por uma circunstância fortuita, mas sempre possível no país em que vivemos, este prémio dá a oportunidade de sacudirmos as quiladas de cotão que andam por aí depositadas por um grupo de inumeráveis beócios que são dados aos maiores despautérios por tudo o que é comunicação social. Agora são às molhadas, a fazer comentários aos debates políticos plantando certezas e dando notas com o maior desplante. Em comum têm o comerem da mesma  gamela ideológica, podendo uns optar por grãos que outros põem de lado, mas nem assim deixam de estar todos afinados pelo mesmo diapasão. A grande diferença está no brilho das penas de pavão que exibem, a dimensão das cabecinhas é invariável. O que os aproxima é ocuparem o mesmo poleiro, sempre igual mesmo que com nomes e grafismos diferentes. Pertencerem a uma classe jornalística estipendiada, acolitados por um grupelho de comentadores que se sentam no mesmo banco de jogo, para debitarem o mesmo pensamento formatado, velho e relho Tem sido um espectáculo deprimente que não deve ser barato, que isto não é gente para fazer borlas. Aliás é justo que sejam pagos para cumprirem o seu trabalho sem desiludir quem lhe dá a soldada.

Vêm isto a propósito de Manuel António Pina, prémio Camões 2011, ter sido soezmente insultado por um personagem dessa constelação de avantesmas, no mesmo jornal onde coloca as suas lúcidas crónicas, sempre com um recorte de fina ironia.

Depois de classificar inúmeras vezes de cretino o “colunista” alongava-se em afirmações do jaez da que reproduzimos para se perceber como pelo coice se conhece a besta “As suas (de Manuel António Pina) crónicas no JN, sempre naquele estilo alambicado típico dos ociosos, são a expressão aparolada de um imenso complexo de superioridade. Ele tem de julgar e condenar sumariamente alguém, pois senão sente-se diminuído perante si próprio e, sobretudo, perante o círculo de aduladores que lhe entumecem o ego.Mas, se repararmos bem, lá nos secretos mais profundos do seu ser esconde-se um homem cruelmente dilacerado por indizíveis frustrações. É possível que na adolescência o tenham convencido de que seria um grande escritor, destino para o qual logo desenvolveu os tiques e poses apropriados. Mas, afinal, nunca passou de uma figura menor típica do universo queirosiano – um personagem que mistura o diletantismo de um João da Ega com os dotes literários de um Alencar d’Alenquer e o rancor mesquinho de um Dâmaso Salcede. Tudo isso, transposto para o jornalismo, resultou numa espécie de Palma Cavalão dos tempos actuais. Enfim, um homem que chegou a velho sem ter sido adulto e a quem os mais próximos, por rotina, caridade ou estupidez, provavelmente ainda tratam como uma grande esperança.”

Quem isto escreveu foi António Marinho Pinto, mas poderia ser, com outro estilo, uma dessas cabeças que apesar de ocas tanto brilham como um Rui Ramos, um Henrique Raposo, um Henrique Monteiro, um Ricardo Costa para referir alguns dos que ultimamente mais têm aparecido a comentar os debates televisivos. Marinho Pinto, se tivesse uma gota de vergonha, deixaria de escrever, calava-se para deixar de ser mais um a poluir o espaço da comunicação social com as suas alarvidades. Deveria ser acompanhado por essa cáfila de triviais palrantes. O ar ficaria menos poluído.

Felizmente para o júri do Prémio Camões essa gente não existe, aliás só existe por se ouvirem uns aos outros e afagarem conspicuamente as respectivas corcundas ideológicas. O prémio foi mui justamente atribuído ao Manuel António Pina.

Cinco poemas de Manuel António Pina seleccionados ao acaso:

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam

à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

O Medo

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?

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2 thoughts on “MANUEL ANTÓNIO PINA, Prémio Camões 2011

  1. Vasco Teixeira diz:

    “Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo, calma é apenas um pouco tarde”
    Deliciosa a Prosa e a Poesia de António Manuel Pina.
    Enquanto que… Marinho (e Pinto a cantar de galo) sempre fingiu surfar nas ondas do Marão, às portas da sua Amarante natal. Mas, como verdadeira toupeira, ignorou as suas difíceis curvas, seu antigo caminho, e optou pelos túneis socráticos.
    Como exímio fingidor, vocifera o que sabe cocegar os tímpanos das carradas de jovens advogados imersos no desespero da sobrevivência. E consegue iludi-los!
    Mas Marinho estará sempre aquém do Marão, muito aquém de António Manuel Pina.

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