Política

UM PAÍS SEM VERGONHA NEM DIGNIDADE

Selo de Apoio e Solidariedade com os Presos Políticos desenho Eduardo Nery / edição Partido Comunista Português

Amanhã Portugal devia acordar corado pela mais intensa vergonha.

Margarida Fonseca Santos, autora, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira, ex-directores do Teatro Nacional D. Maria II, vão a julgamento acusados pelos sobrinhos de Silva Pais, pelo crime de difamação e ofensa da memória de pessoa falecida por, no entender da acusação terem denegrido a imagem do último director da PIDE/DGS, com a adaptação teatral que foi feita do livro “A Filha Rebelde”.

Mais uma inominável vergonha nacional!

Depois do 25 de Abril a maioria dos torcionários da PIDE/DGS saíram em liberdade sem uma arranhadela. Os envolvidos em casos mais mediáticos, casos dos assassinatos de José Dias Coelho e Humberto Delgado, apanharam penas levíssimas ou deixaram-nos fugir para o estrangeiro. Pelo caminho ficaram centenas de mortos, milhares de torturados e de presos anos e anos sem saberem quando iriam viver a liberdade possível. Milhares de deportados e exilados.

Depois do 25 de Abril, nos (poucos) julgamentos da pandilha de verdugos, muitas vezes quem era verbalmente maltratado eram as vítimas, para gáudio da escumalha.

A ignomínia foi tal que Cavaco Silva, primeiro-ministro, recusou a reforma por serviços relevantes a Salgueiro Maia, capitão de Abril que cercou e deteve Marcelo Caetano no quartel do Carmo, concedendo-a a dois ex-inspectores da PIDE/DGS. Só por esse acto a sua carreira política num país que tivesse uma gota de dignidade tinha ficado definitivamente acabada! Assim, foi para casa tecer a renda de bilros que acabou por o levar ao cadeiral de Belém, enquanto se entretinha a comprar acções da SLN e do BPN ao seu amigo Oliveira Costa!

Com este passado que humilha a Revolução dos Cravos, não admira que os sobrinhos de Silva Pais, o último director da PIDE/DGS que durante doze anos exerceu zelosamente o seu cargo de torcionário-mor, supervisionando torturas, assassinatos, prisões, venham defender o bom nome do canalha, como isso fosse sequer possível.

País de servos com alma de escravos! País de gente sem coluna vertebral!

Ainda se admiram que votem, maioritariamente, em quem votam!!!

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10 thoughts on “UM PAÍS SEM VERGONHA NEM DIGNIDADE

  1. João Eduardo Coutinho Duarte diz:

    Existe apenas, segundo me chegou ao conhecimento, uma boa notícia: O Ministério Público negou-se a fazer a acusação.
    Nem tudo está perdido. A ser verdade ainda resta alguma dignidade neste país.

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  2. Maria Crabtree diz:

    Estou sem palavras. De inicio pensei que tinha lido mal, depois que era uma mentira atrasada do dia 1 de Abril, logo de seguida um mail de uma amiga confirma! Que dizer? Outro abaixo assinado que nao nos levara muito longe? Vou reler Borges “Historia Universal de la Infamia”. Ao menos nao e tempo perdido!

    Abracos

    Maria Crabtree

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  3. Artur Pinto diz:

    Há um problema subjacente a tudo isto, a este tipo de atitudes: somos um povo sem memória. Porque quando se tem memória não se esquece, mesmo que se perdoe. Infelizmente já nada me espanta depois de tudo o que se permitiu aos ex-torcionários. Viveram todos felizes para sempre.
    Abraço
    Artur Pinto
    PS Não se esqueçam de ir ver a exposição na cadeia do Aljube: é a nossa memória.

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  4. Luis Almeida diz:

    Bem sei que aquisição de consciência (nomeadamente a política e social ) é um processo e que, portanto, o “povo” só tem “culpa” das suas escolhas ( nomeadamente a de votar no lobo para tomar conta do rebanho ) na justa e exacta medida desse grau de consciência…
    mas, que diabo já era tempo de terem aprendido alguma coisa !
    A comparação com, por exemplo, o povo vietenamita não nos é nada lisongeira.
    Se a sociologia é “mutatis mutantis” a psicologia das massas, alguém me pode explicar de onde nos vem esta maldita propensão para aceitar jugos e de assestarmos quase sempre a nossa mira contra o alvo errado ( por exemplo, treze anos “a matar pretos” em vez de matarmos o Salazar ? )

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  5. Fernando Rebelo diz:

    Os familiares da sinistra figura que foi o Major do Exército Português, empossado como Director – Geral da PIDE/DGS , acham-se com o direito de exigir um julgamento a partir de um espectáculo teatral.
    A nossa Justiça dá-lhe provimento e leva a Juízo.
    O senhor Major Silva Pais – fugido para Espanha após 25 de Abril de 1974 – sem julgamento, usufruíu de reforma até ao fim dos seus dias.
    Se houvesse vergonha. Os fascistas ficaram mal enterrados e botaram raízes.

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