Política

Culpado, eu?

Nos últimos dias, a propósito da crise e da ingerência do FMI, ouvi, com frequência, que todos somos culpados pela situação a que chegou o país. Parece que todos temos culpa do défice, da baixa produtividade, do aumento do IVA, da redução dos benefícios fiscais, das parcerias público-privadas ruinosas, das portagens nas SCUTs, da nacionalização do BPN, da morosidade da justiça, da destruição do aparelho produtivo nacional e da baixa capacidade exportadora da nossa indústria. Todos somos culpados da intervenção do FMI, do ataque das agências de rating, das elevadas taxas de juro da dívida soberana, da desconfiança dos mercados, das licenciaturas tiradas ao domingo, dos centros comerciais construídos em zona que era protegida. Querem fazer-nos crer que assim é. Querem incluir-nos na equação para, assim reduzir ou mesmo anular as responsabilidades que têm no estado a que isto chegou.

A linha da culpabilidade colectiva segue-se à linha discursiva que inaugurou a crise e que obedecia ao simples, mas eficaz,  argumento justificativo da desgraça das contas públicas. Era o tempo do “mundo mudou”, como se, por cá, ninguém tivesse nada a ver com isso. Daí até sermos todos culpados, foi um passo. O PS, que está no Governo há seis anos consecutivos, tentava reduzir a sua culpabilidade; o PSD apanhava a boleia; o CDS fazia-se de inocente. O arco governativo desaparecia de repente. Começava assim a campanha eleitoral, a batalha pela desresponsabilização pelas políticas seguidas pelo tal “arco governativo”, acompanhada da brilhante estratégia de responsabilizar o adversário pela crise, de criar a ideia de que o chumbo do PEC IV foi a nossa desgraça, como se a desgraça não fosse o próprio PEC, o próprio Governo que o impunha e as políticas que seguiu.

Apetece, pois, parafrasear o primeiro ministro, num aparte parlamentar a uma declaração do líder do BE: culpado é a tua tia pá!

Mais ainda apetece citar o programa eleitoral do PCP para as eleições legislativas de 2009, quando se afirmou que “o País vive uma crise económica e social de grandes proporções. Uma crise estrutural que, partilhando e sofrendo do agravamento da crise do sistema capitalista internacional, começa muito antes. As injustiças sociais, fundadas num modelo de baixos salários e reformas e de desigual distribuição do rendimento, já estavam instaladas. Pobreza e altas taxas de desemprego marcam presença de há muito na vida do País. O elevadíssimo endividamento dos agentes económicos não financeiros e das famílias não começou ontem. O brutal défice e dívida externa, resultantes da destruição do tecido produtivo e das baixas produtividades e competitividades, medram há longos anos, num processo cumulativo sem interrupções.

“Um processo que há muito entrou em confronto com a Constituição da República e que é inseparável da reconfiguração do Estado conforme os interesses do grande capital e a subversão das políticas sociais, com o acentuar da dependência externa e o golpear da soberania nacional no processo de integração comunitária (acentuada com a convergência nominal para a União Económica e Monetária/UEM e a moeda única, em 1997) com os ataques ao regime democrático.”

Isto foi o que o PCP disse em 2009, antes da intervenção externa do FMI e dos ataques que a vulnerabilidade portuguesa no contexto europeu permitiu.

A culpa não é de todos. Os responsáveis estão bem identificados e são aqueles que, nos Governos, nos conduziram até aqui nas últimas décadas. E nesses, eu, e muitos milhares de portugueses, nunca votámos. Não me responsabilizem pois por políticas que nunca defendi nem quis viabilizar.

Na véspera da comemoração da revolução de 1974 importa recordar que o sistema democrático nascido no 25 de Abril consagrou como uma das suas principais conquistas o direito de eleger quem governa os nossos destinos.

Hoje, num momento em que o desânimo toma conta de muitos portugueses, em que a descrença assume uma posição cimeira nos sentimentos de quem vê a vida escapar-lhe por entre os dedos, honrar os valores de Abril é exercer esse direito que os militares conquistaram para todos os portugueses. Exercê-lo de forma a que se perceba que há mais caminhos, há novos rumos que podem ser seguidos.

Como escreve o Manuel Araújo, “comemorar hoje o 25 de abril não é um exercício de nostalgia nem um rastilho de memórias para quem não o viveu; é afirmar que a esperança que fez nascer em todos os portugueses e que tem sido sistematicamente destruída por mais de trinta anos de governações ineficazes e desfasadas das reais necessidades dos portugueses, está na ordem do dia, nasce mais forte em cada 25 de Abril“.

Comemorar Abril é afirmar a esperança numa vida melhor. É afirmar a nossa vontade de dar um reforçado contributo à abertura de novos caminhos para que se reafirmem e reforcem os valores da Revolução de 1974.

É rejeitar esta culpa que nos querem pendurar sem que nada tenhamos feito para isso; é provar que não há inevitabilidades e que outros caminhos são possíveis.

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