Política

Otelo, a culpa não é tua!

Com a franqueza ingénua que sempre o caracterizou, Otelo Saraiva de Carvalho, um dos heróis do 25 de Abril, afirmou recentemente que “se soubesse que o país ia ficar assim, não fazia a revolução”. Uma ideia partilhada por muitos, nestes momentos de crise e depressão colectiva. Terá o “desabafo” de Otelo fundamento ou antes significará o anunciado fim de uma época?

O que seria o país se um punhado de jovens capitães não se tivesse revoltado e derrubado o regime há trinta e sete anos? Ninguém sabe como o velho “Estado Novo” teria evoluído, mas é certo que, pelo menos, as guerras coloniais se teriam prolongado. Não sabemos como acabariam nem qual seria a solução. A História faz-se com o que aconteceu e a questão colonial era, em 1974, absolutamente crucial para o futuro de Portugal.

A partir de 1976 e com a abrupta e traumática descolonização praticamente concluída (faltava digerir as suas consequências, nomeadamente o regresso de centenas de milhar de portugueses à metrópole), o país ficou, qual jangada de pedra, como que à procura de um novo rumo para o seu futuro. Por entre a utopia revolucionária apostou todas as suas “cartas” na adesão à CEE. Um enquadramento territorial e estratégico que substituiu no imaginário dos portugueses os sonhos coloniais pela promessa de uma mais pragmática melhoria das condições de vida. De país “orgulhosamente só” e “pobrezinho mas honrado” aspirou a pertencer ao clube dos países da Europa rica. O sonho da “Europa está connosco” foi-lhe estimulado e apoiado por potências ocidentais receosas dos movimentos sociais que viram irromper após o 25 de Abril nas fábricas, nas escolas e nos campos do Alentejo e Ribatejo, imaginando Lisboa ocupada por tropas do pacto de Varsóvia e um governo comunista em São Bento.

É verdade que a adesão à CEE nunca foi referendada, foi uma mera decisão tomada pelos actores políticos. O mesmo é igualmente verdade para todos os outros actos que progressivamente integraram (e desmantelaram importantes sectores da) economia portuguesa. Nunca em Portugal foi referendado um tema relativo à integração europeia. Nunca nada foi perguntado aos portugueses O último episódio ocorreu com o malogrado tratado que instituía a “Constituição Europeia” que deveria ter sido objecto de um referendo, conforme promessa eleitoral do Partido Socialista em 2005, mas que acabou aprovado por um acordo com o PSD. Houve sempre quem se opusesse, mas sempre foi minoritário e classificado de extremista.

Os sucessivos titulares do poder (PS, PSD e às vezes CDS), sempre recearam a resposta popular e, por isso, decisões da maior magnitude – como a adesão à moeda única – foram remetidas para acordos inter-partidários com escassa discussão popular. Mas a verdade é que os portugueses também sempre sufragaram favoravelmente – embora com crescentes taxas de abstenção – os responsáveis por tais decisões. Chegámos onde chegámos por opção dos portugueses.

Os políticos que têm regido o regime disseram o que as pessoas queriam ouvir para assegurar os respectivos votos. Prometeram uma terra de mel e abundância. E durante alguns anos uma grande parte de nós julgou ter lá chegado. No espaço de três décadas os indicadores sócio-económicos passaram a mostrar um país que evoluiu: no acesso à educação, à saúde, à habitação e as condições de habitabilidade (água domiciliada, electricidade, saneamento básico). O acesso aos bens de consumo passou a ser uma realidade. Um acesso proporcionado pelo crédito, essa grande invenção que o capitalismo popularizou e democratizou.

A integração numa comunidade de países ricos (CEE, UE) criou nos portugueses a impressão de também serem (quase) ricos. De estarem protegidos contra as intempéries. Por isso prescindiram alegremente de muitas da suas capacidades produtivas, aceitando de ânimo leve (com a ajuda de uns trocados vindos da Europa) abater parte da frota pesqueira ou desmantelar segmentos da agricultura.

Em Abril de 1974 a actividade política e os partidos, anteriormente proibidos, beneficiaram de um capital máximo de nobreza e compreensão junto do povo português. Mas, ao longo dos 37 anos de regime que se lhe seguiram, a nobreza dessa actividade foi cedendo aos olhos da população perante os golpes de oportunismo carreirista e favorecimento pessoal promovidos pelo rotativismo instalado, de que temos abundantes exemplos. Exemplos que são, aliás, os maiores espinhos cravados na credibilidade do regime democrático. Ampliados por uma economia com um importante sector público empresarial que se transformou num campo de incompreensíveis montantes de remunerações e outras prebendas para os amigos e apaniguados dos sucessivos ocupantes do poder político. Tudo perante uma população que assiste silenciosamente à descredibilização do regime, isto enquanto houver algum houver algum “mel” com que alimente o corpo e o espírito.

Chegados a 2011 somos confrontados com a verdade: o nosso desenvolvimento tem pés de barro. Sempre com o fito de agradar aos eleitores e de inscrever os seus nomes nos livros de história (diria antes de estória) os nossos governantes promoveram políticas de betão-dá-no-olho (de desenvolvimento, como pomposamente dizem) com recurso a : 1) comparticipações de fundos comunitários e 2) financiamento junto de entidades privadas, mas com rendas a pagar pelo Orçamento do Estado durante décadas, as tristemente célebres PPP’s (parcerias público-privadas), de que, só agora, os portugueses começam a conhecer em toda a extensão. Um remoinho de investimento que nos tornou no país com mais quilómetros de auto-estradas por habitante e com mais PPP na Europa. E um formidável centro de negócios. É o fim de um ciclo.

Do programa do MFA são genericamente referidos os célebres 3 D’s – Democratizar, Descolonizar e Desenvolver. Se os dois primeiros foram integralmente realizados, não se pode dizer que do terceiro, Desenvolver, não se tenham dados importantes passos. Fica-nos, porventura, a sensação que, do muito que progredimos, poderíamos ter seguido um outro caminho e estar hoje num outro patamar. Mas disso desculpemos Otelo, não o podemos culpar, a ele e aos outros homens que fizeram daquele dia, O 25 de Abril, uma dos mais extraordinárias páginas da história portuguesa contemporânea.

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