Política

Primeiros-ministros… como sair?

Zé Povinho cravejado com impostos, décima e outras "carícias". Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro

Ser primeiro-ministro de Portugal não é tarefa fácil. Às tantas é mais fácil chegar ao lugar do que sair e ficar bem no fotografia. Recapitulemos.

Cada um a seu jeito, Cavaco Silva, António Guterres e Durão Barroso foram primeiros-ministros avisados. Cavaco (1985-1995), ao fim de dez anos como Chefe do Governo, percebeu, por ocasião de um célebre Carnaval, que o seu tempo havia chegado ao fim e não se recandidatou. Seguiu-se-lhe Guterres (1995-2001) que, antevendo a aproximação do “pântano” após a derrota do seu partido em eleições… autárquicas, saiu pela esquerda baixa. O testemunho foi passado a Durão Barroso (2002-2004) que após dois anos no lugar e assustado com a visão do país “de tanga”, o trocou pela sereia europeia. Saiu pela direita alta e passou o testemunho – sem eleições — ao seu amigo (ou inimigo) de estimação Pedro Santana Lopes.

O resultado pessoal foi óptimo para o trio de políticos. Cavaco descansou, regressou à Universidade e tornou-se um talentoso investidor. Para coroar a sua carreira de “servidor público” desejou e conseguiu ser eleito Presidente da República. Guterres repousou das agruras do “pântano” e dirige hoje uma prestigiada organização internacional, viajando pelo mundo em missão de protecção dos refugiados. Barroso, qual deus do Olimpo europeu, repousou menos e é hoje uma estrela da política mundial, por onde também viaja, aparecendo amiúde nas fotografias de cimeiras e outros areópagos internacionais.

Resguardados do caldeirão nacional, Guterres e Barroso reservam-se, à semelhança de Cavaco Silva, para uma candidatura presidencial, esse lugar onde se influencia, mas não se governa, e se é muito popular.

P. Santana Lopes “anda por aí”, como avisou logo que perdeu as eleições para J. Sócrates (2005). Ajudado por uma má imprensa, que tudo fez para o equiparar ao “playboy que chegou a primeiro-ministro”, não aqueceu o lugar. Terá cometido o erro crasso de ter aceitado o lugar sem eleições — uma habilidade do seu amigo (ou inimigo) de estimação D. Barroso que, com artes nunca desvendadas, também conseguiu convencer o presidente J. Sampaio.

Guterres e Barroso abandonaram o rectângulo do combate, Portugal, e partiram para melhores paragens. Porventura humildemente cientes das suas capacidades. Como este país cansa e desilude! Daqui se constata que não são só os pobres e os desempregados que emigram para melhorar a sua vida. Veja-se que até os nossos mais altos representantes o fazem…

Sócrates superman

Mas eis que J. Sócrates chega ao poder, aliás, quase que oferecido numa bandeja, tal o conjunto de episódios anedóticos que o seu antecessor acumulou. Não se levou muito tempo para perceber que o homem era de outra cepa. Sente-se bem no papel e percebe-se-lhe o gosto pelo conflito, não se resguardando das balas, antes avançando para elas de peito cheio. Domina o mainstream das ideias dominantes e, em 2009, faz o mix que lhe permite voltar a ganhar as eleições, embora em perca e com a ajuda da completa inépcia comunicacional de M. Ferreira Leite, a sua principal concorrente.

Ao longo de quase seis anos foram-lhe construindo uma imagem: o dinâmico corredor de jogging em todas as capitais que visita (sempre seguido por repórteres), o político que ombreia com as estrelas da TV nos índices de popularidade para os bem-vestidos, o comunicador que domina com”naturalidade” o discurso de tele-ponto e que estuda dicção e postura. Competências exigíveis a políticos modernos para quem a imagem vem antes da governação e para quem tudo se resolve com uma boa estratégia de marketing.

E se lhe acrescentarmos a sua flexibilidade táctica? As políticas da saúde e da educação que o digam. Os ícones hard do seu primeiro governo, Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues, cederam os lugares às softs Ana Jorge e Isabel Alçada. E agora, face à ajuda externa. Apesar de ter dito e repetido que não governaria com o FMI, ele aí está, usando todas as armas à sua disposição – e não são poucas – para se manter no poder. A maior dessas armas é a repetição à exaustão da mensagem que atribui a culpa da situação actual aos partidos da oposição pelo chumbo do PEC4. Culpa que constitui, aliás, como que uma zona cinzenta onde J. Sócrates encontrou o espaço retórico para se esquivar à sua responsabilidade pelos resultados da governação.

Será que a mensagem passa? Induzindo, por exemplo, com o papão das medidas néo-liberais de Passos Coelho, o “voto útil” do eleitorado comunista e bloquista? Será a táctica da mensagem da culpa dos outros suficientemente eficaz para encobrir os enormes danos já causados ao país, mais os sacrifícios que serão pedidos aos portugueses e que serão (?) conhecidos antes das eleições de 5 de Junho?

Nem mesmo quando tudo começa a desabar à sua volta ele se sente tentado a sair de cena. Ou será que precisa de uma boa desculpa para sair do palco? Por exemplo, chumbarem-lhe o PEC — cuja votação era dispensável — e derrotarem-no em eleições que o país provavelmente dispensava. De qualquer forma, puro jogo político num período dramático para o país e que deu já azo a episódios caricatos, como os de Teixeira dos Santos remeter a União para a negociação com os partidos da oposição ao que dirigentes da UE responderam perguntando se Portugal não tem governo para negociar. Confrangedora cacofonia a lembrar aquela máxima de Caius Julius César, “um povo que não se governa nem se deixa governar”.

Mas, perante um cenário de eleições, não nos podemos esquecer que Sócrates é o primeiro-ministro em exercício e é ele quem dispõe da máquina governamental. E é o chefe de um partido que viverá com muita dificuldade se tiver que ir para a oposição. Há pois muita coisa em jogo. Por detrás do verbo terrivelmente eficaz de J. Sócrates esconde-se a extensa rede de pessoal político que ocupa os lugares de comando das “salas de máquinas” do país. Quantos primeiros-ministros eleitos, em exercício, foram derrotados quando estavam no poder? Mas quantos deles foram responsáveis por tão grande descarrilamento do país durante o seu mandato?

Quando se fizer a história do drama económico que estamos a viver, ir-se-á recordar a galeria dos que ocuparam os lugares de poder, nomeadamente primeiros-ministros. Alguns souberam sair a tempo. Outros preferem cair de pé

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One thought on “Primeiros-ministros… como sair?

  1. Porque é que os media silenciam o FULCRO da Revolução na Islândia?
    .
    RESPOSTA: o FULCRO da Revolução na Islândia não é o discutir “pagamos” versus “não pagamos”… mas sim, o ‘corte’ com as regras da superclasse (alta finança – capital global):
    – a superclasse (nota: controlam os media) quer Democracias-Fantoche… leia-se: Democracias facilmente manobráveis por lobbys…
    – a superclasse não está interessada em Democracias aonde os cidadãos exijam, não só maior transparência aos governos, como também o Direito de VETAR as ‘manobras’ com as quais não concordam!
    .
    .
    —> Os islandeses estão a optar lutar pela sobrevivência… ficar à mercê da superclasse (alta finança internacional – capital global) tem um resultado certo: o desaparecimento!
    —> A superclasse é anti-povos que pretendem sobreviver pacatamente no planeta…
    .
    —> A superclasse protege o pessoal gerador de caos no planeta!
    —> Um exemplo: o pessoal que anda numa corrida demográfica pelo controlo de novos territórios.
    [nota 1: a superclasse ambiciona um Neofeudalismo – uma Nova Ordem a seguir ao caos… consequentemente, a Superclasse pretende dividir/dissolver Identidades para reinar…]
    [nota 2: como alguém já disse: os ‘bilderbergos’ – infiltrados nos governos, nos partidos, nos sindicatos, etc – têm feito o seu trabalho: governos fragilizados… são depois pressionados/empurrados no sentido de que sejam vendidos activos dos Estados… leia-se, delapidar os sectores estrategicos, privatizar as joias de ouro, decapitar qualquer força opositora (no caso de Portugal a PJ e o Exercito) e depois criar uma policia privada mercenaria e um gigantesco complexo de vigilancia electronica]
    .
    .
    .
    ANEXO:
    Antes que seja tarde demais, há que ‘cortar’ com a superclasse e sus marionetas… ou seja: há que mobilizar aquela minoria de europeus que possui disponibilidade emocional para abraçar um projecto de Luta pela Sobrevivência… e… SEPARATISMO-50-50!
    .
    Mais, o que caracteriza o Nazismo não é o ser ‘alto e louro’… mas sim a busca de pretextos (adoram evocar/inventar pretextos) com o objectivo de negar o Direito à Sobrevivência de outros!…
    Pode-se ver quem anda por aí a efectuar uma sistemática busca de pretextos: O Nazismo Mafioso (um exemplo: a Inquisição Mestiça) repudia Hitler… mas, simultâneamente, o seu comportamento é hitleriano: andam por aí numa busca de pretextos… com o objectivo de negar o Direito à Sobrevivência de outros… nomeadamente, as Identidades Étnicas Autóctones.
    .
    O Estado tem muitos defeitos… mas permite-nos participar (e procurar melhorar as coisas)… MAS… quem quiser ficar à mercê dos globalistas maçonicos do clube bilderberg (etc), ou seja, ser UM SERVO de senhores neofeudais…… tchau: que faça bom proveito!…

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