economia, Política

Amoralidade total

Vítor Bento, reputado economista nomeado por Cavaco Silva como Conselheiro de Estado em substituição do “desaparecido” Dias Loureiro, lançou um livro, cerimónia que constitui sempre uma excelente oportunidade para produzir tiradas de longo alcance.

Bento tem um passado curricular riquíssimo na administração do sector financeiro do Estado, mas, pelo que diz, continua a mostrar que o que gostava mesmo de ter sido era banqueiro, daqueles da velha escola de Ricardo Salgado, que não se importam de repetir os chavões absurdos do neoliberalismo mais puro, mesmo quando tudo aquilo em que acreditam mais profundamente se desmorona com estrondo. O Conselheiro de Estado, como um outro conhecido banqueiro da nossa praça, defende que a “forma de regulação económica, em si, é amoral, mas o comportamento das pessoas não é. Essa é que é grande questão. Não é a economia que se deteriora, é o quadro de moralidade de uma sociedade que aceita comportamentos que, de outra forma, não teria aceitado“. A declaração suscita volumes enciclopédicos de dúvidas e discordâncias, mas há uma ou duas, muito simples, que me ocorrem de imediato. Se a forma de regulação económica é amoral, por que razão favorece, então, com toda a cobertura política e legal, tantos comportamentos imorais? Será que não é a génese desta “forma de regulação económica” ela própria uma imoralidade que, só por meios imorais, pode subsistir e desenvolver-se?

Defender a amoralidade da “forma” capitalista de regulação económica equivale a classificar como amoral um desempregado de longa duração que rouba para comer, já que muitos dos que o fazem só o fazem porque a isso foram obrigados pela amoralidade deste sistema económico? A sociedade costuma, aliás, compreender e justificar estes ladrões, mas não é por isso que o Estado deixa de exercer coerção sobre quem, em desespero, rouba um pão para comer, ainda que a escala coercitiva não seja a mesma. Quem rouba um pão vai para a cadeia, quem rouba um milhão não é incomodado. Exemplos não faltam por aí.

Será que o que se passa neste momento, com a especulação financeira a estrangular estupidamente o nosso país, baseada em agências de rating “amorais” mas legais, é um fruto da “amoralidade” da forma de regulação financeira ou da sua imoralidade genética? Será Vítor Bento o único com moral nesta história?

Bento, que de ingénuo deverá ter pouco, põe-se de lado e acusa os “políticos que aparentemente surgem agora como quem tem que limpar a sujidade feita pela crise” de serem os “grandes responsáveis na criação das condições que levaram à crise”. Ou seja, a “forma” de regulação financeira é boa, os nossos políticos é que não sabem utilizá-la, o que faz supôr que o economista defende que melhor seria entregar a governação a técnicos amorais como ele, ou seja, desprovidos de moral. Sabemos no que isso acaba…

Curiosamente, o Conselheiro de Estado nomeado por Cavaco Silva acusa os políticos de terem criado a crise, no quadro “amoral” deste sistema, mas esquece-se de dizer quem foram esses políticos. É a amoralidade total. O Conselheiro esquece, convenientemente, o nome do primeiro ministro que durante mais tempo esteve no cargo em Portugal, depois de Salazar, claro. E mete todos no mesma carruagem, esquecendo que, nas mais de três décadas da moderna democracia portuguesa, as responsabilidades do que hoje vivemos só podem ser assacadas aos que partilharam entre si o poder, definindo, com total liberdade, as opções políticas que nos trouxeram à crise de 2011. Não quero acreditar que assim seja, mas parece-me que Vítor Bento acaba de acusar Cavaco Silva de ser um dos políticos imorais responsáveis pela “criação das condições que nos levaram à crise“…

Já agora, quando se fala em “amoral”, vale a pena ver a definição de “moral” para perceber melhor o que defende Vítor Bento quando defende a “amoralidade” da forma de regulação económica vigente. Falta de (bom) senso, é o que é…

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