Política

O PCP e a governabilidade: Poder e trincheira (II)

“As Bandeiras Vermelhas”, óleo sobre tela de M. H. Vieira da Silva (1939)

Ver I PARTE

(CONTINUAÇÃO)

Resistir, resistir

Com o fim da União Soviética e do bloco do socialismo real, foram muitos os que esperaram pela morte iminente do PCP, escudados nos colapsos de outros partidos da mesma área política em toda a Europa (de que são exemplos os congéneres espanhol e francês). Mas tal não aconteceu em Portugal. Os comunistas portugueses não definharam e antes revelaram uma considerável resistência eleitoral. Não progrediram de eleição para eleição, é certo, antes revelando, nas duas últimas décadas, uma relativa estabilidade com uma ligeira tendência de diminuição de peso eleitoral, aqui e ali invertida por vitórias pontuais e um significativo (mas que já foi maior!) peso autárquico.

É certo que se foram afastando dos resultados dos anos setenta (18,8% e 47 deputados em 1979): foram vítimas do traumático fim do bloco soviético e da proximidade que com ele mantinham. Foram autores e vítimas das dissensões internas que acompanharam esse processo de autêntica crise de identidade que atravessou (e dilacerou) o movimento comunista internacional nos anos noventa. Foram ainda vítimas da continuada bipolarização PS-PSD e, nos últimos anos, do êxito mediático e eleitoral de um BE, apoiado por uma boa imprensa seduzida pelo aparente factor de rejuvenescimento do sistema partidário.

O patinho feio

Como partido que cultiva o elevado valor do colectivo, o Partido Comunista sempre desvalorizou a importância simbólica das figuras carismáticas e, com excepção de Álvaro Cunhal, um verdadeiro príncipe da política com estatuto de estrela anti-sistema, os dois líderes (secretários-gerais) que lhe sucederam, sempre foram disso reflexo: mais coordenadores de direcção política que lideres carismáticos.

O PCP, está-lhe na sua matriz genética, valoriza externamente o seu trabalho colectivo – facto hoje com pouco valor mediático e em contra-corrente com uma sociedade de política altamente mediatizada, que mais facilmente consome caras e figuras que ideias. Veja-se a publicidade eleitoral dos comunistas, geralmente avessa à imagem das personalidades.

O PCP é, de facto, um partido diferente, goste-se ou não. Por isso não sofre crises de ansiedade por chegar ao poder. Sente-se confortável na oposição – essa é a sua heróica matriz histórica. No “sangue” de muitos dos seus dirigentes e militantes ainda correm os glóbulos da memória histórica da via revolucionária. Apesar de saberem que no actual contexto de democracia burguesa e representativa tal não é possível…

As suas diferenças e a sua afirmação sistemática no espaço público tornaram-no no “patinho feio” da política portuguesa, sempre posto no canto da sala. Sabem que ele está ali e continuam a receá-lo; preocupa-os a sua força, a sua atenção sistemática às questões e a sua capacidade de acção; não gostam da sua cara. Manteve, aliás, numa clara afirmação dessa personalidade e orgulho, as antigamente assustadoras foices e martelos – que ainda assustam alguns.

Poder ou trincheira?

E porque é que o PCP não pode fazer parte de uma solução de governo? Respondem, do interior e do exterior do PCP que há divergências. De fundo. Opções estratégicas.

Pergunto: quantos casos de “divergências incompatíveis” foram negociados em tantos sistemas políticos de tantos países. Como se fazem maiorias? Somando minorias – é essa a regra da democracia. Com uma cultura de negociação. Há outra possível?

São tantos os casos. Recordo-me bem de quando os “Verdes” alemães, em 1998, fizeram a sua entrada numa coligação para o governo federal – coisa impensável e absurda meses antes.

Tenho presente que o Presidente do Chipre (membro da UE), Demetris Christofias, é um militante do Partido Comunista Akel. Ninguém parece muito incomodado com isso. Ou quando Nélson Mandela, liderando uma ampla coligação que integrava os comunistas sul-africanos, tirou a República da África do Sul da iminência de uma guerra civil fratricida. Ou no Brasil, em que integraram a ampla e diversificada base de apoio da governação do presidente Lula, e agora de Vilma Rousseff. Na América Latina é ainda possível encontrar outros entendimentos: na Argentina, na Frente para la Victoria, que promoveu as presidências de Néstor e Cristina Kirchener, ou no Uruguai, na coligação Frente Amplio do actual presidente José Mujica.

Será que os comunistas portugueses se habituaram já a ser sistematicamente excluídos das soluções de Governo? Será que, de tão habituados à exclusão, se sentem confortáveis no papel de eternos opositores? Contentando-se com autarquias locais e partilhas de poder em órgãos metropolitanos. Temendo o “abraço de urso” do poder? A tese é sibilinamente avançada pelos adversários do PCP.

Mas, pergunto, o que tem o PCP feito para inverter essa característica petrificada do sistema político português? Parte da mudança do sistema pode passar pelos comunistas portugueses e ter mesmo aí a sua origem: apresentando as suas propostas e sujeitando-as à negociação. Pragmaticamente. Certamente que parte relevante das centenas de milhar de eleitores do PCP gostaria de o ver a participar e influenciar a decisão dos destinos do país. O Partido Comunista é, aliás, prolixo em matéria de estudos e propostas sobre a generalidade dos assuntos.

Há uma persistente e continuada rigidez estratégica que não deixa divisar soluções alternativas ao velho statuo quo de um bi-partidarismo rotativista PS/PSD com mais de três décadas. Até ao seu esgotamento. É preciso que os comunistas discutam com os outros actores do sistema político e social uma alternativa estratégica que discuta eleitoralmente as responsabilidades do poder executivo. Uma alternativa que sirva com novas políticas os objectivos de sempre – a valorização da condição de vida dos trabalhadores e do povo português através da produção nacional.

Se os eleitores não perceberem que os comunistas podem ser uma alternativa e influenciar as decisões, irão continuar a remeter o PCP para o limbo eleitoral, castigando-o com representações parlamentares continuadamente menores. Como tem sido feito em muitos cantos do mundo é preciso construir alternativas, convergências, assentes no debate de ideias diferentes e na conjunção dos interesses estratégicos. Esse processo – que é urgente – ainda não começou.

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