Cultura

Uma Pausa para Ler

UM LIVRO QUE ILUMINA A LITERATURA

O último livro de Gonçalo M. Tavares é um livro singular. Singular não só na história da literatura mas também na sua já extensa obra. Dividido em dez cantos, como os Lusíadas, com a aparência de um poema, não tem nenhum elemento formal que o aparentem a um poema. Também não é um romance como estamos habituados a conhecer. Uma Viagem à Índia é uma narração em verso, com uma estrutura radicalmente inovadora que prenuncia que tudo, lugares, personagens, categorias, será minado e explodido.

A colagem à arquitectura e a algumas peripécias dos Lusíadas, é explicada por Eduardo Lourenço no prefácio que considera o livro “uma navegação de alma pós-moderna (…) uma verdadeira epopeia mental”

Uma Viagem à Índia é a odisseia de um homem Bloom, referência explícita ao protagonista do Ulisses de Joyce, que foge de Lisboa, na sequência de acontecimentos trágicos, na demanda de auto-conhecimento com que quer apagar/redimir o passado. Viaja para a Índia, terra dos grandes sábios místicos. Vai passando por diversas cidades, Londres, Paris, Praga, enfrentando sucessos bons e maus, travando conhecimento com pessoas, mapeando um percurso que é sobretudo literário, pelo que a acção, personagens e lugares podem mesmo não existir enquanto entidades não ficcionais. Da partida ao regresso a Lisboa, o autor vai colocando marcos que assinalam um pessimismo histórico e cultural a aplainar o mundo para depositar uma verdade: a de que ele é igual em qualquer uma das suas sete partidas.

É um livro inusitado, surpreendente e povoado por fantasmas de homens passados e pelos fantasmas do homem contemporâneo que transportam ecos de uma infinitude de textos onde vibram séculos, numa longa e brilhante reflexão sobre a condição humana e a vida porque “A vida, meu caro, é ilegível. Acontece / e desaparece. Não há inteligência / que a descodifique: vem em linguagem-nada, / surge no corpo como surge o dia, e como / se dia e vida individual fossem materiais paralelos, / A vida não surge em prosa / nem em poesia – e a existência não fala / inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos / resiste às invasões matreiras da publicidade e / dos filmes. Já não é mau.”

Uma Viagem à Índia
— melancolia contemporânea
(um itinerário)
Gonçalo M. Tavares
Prefácio de Eduardo Lourenço
Editorial Caminho/Leya
Capa Rui Garrido
Maquete do texto Maria João Lima
Grafismo do Itinerário Luís Maria Baptista

( publicado no Guia de Eventos de Setúbal, Janeiro 2011)

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