Internacional

Líbia, lições de cinismo

Com grande encenação diplomática e com um timing afinado, começou mais uma guerra pelo controlo do petróleo. É disso que se trata. E uma guerra que se sabe como começou, mas que, como todas as guerras, não se sabe nem como acabará, nem com que consequências.

A partir da resolução 1973, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU e que estabelece uma “zona de exclusão aérea sobre a Líbia” e autoriza todos “os meios necessários para proteger civis e áreas povoadas por civis”, potências ocidentais lideradas pelos EUA, França e Inglaterra, trataram de, rapidamente, interpretar a seu contento esses conceitos de “exclusão aérea” e de “protecção de civis” para passar à guerra total sobre os recursos militares do sempiterno coronel.

Todo o processo é uma gigantesca manifestação de hipocrisia política. Dos promotores ocidentais, conforme Manuel A. Araújo já aqui deu conta, mais abaixo. Mas também dos dirigentes dos países árabes. Veja-se a Liga Árabe. Tendo começado por apoiar e votar a criação dessa área de exclusão aérea, vem agora chorar “lágrimas de crocodilo” perante os bombardeamentos sobre a Líbia, fingindo ignorar o alcance das suas posições anteriores. Nem outra coisa se poderia esperar de regimes que sempre apostaram em aliar-se a Deus e ao diabo e que se confrontam, eles próprios, com sérios problemas de contestação no interior das suas fronteiras.

Os votos no Conselho de Segurança da ONU – esse areópago que legaliza a guerra no mundo e cujo painel de membros permanentes (EUA, França, Reino Unido, China e Rússia) há muito que deixou de reflectir os equilíbrios do mundo contemporâneo -, são outra demonstração do cinismo da realpolitik. O voto português, favorável à resolução, não causa surpresa, já que corresponde ao de um fiel aliado dos EUA, incapaz de se desviar um milímetro das orientações. Mesmo que o governo português considerasse com aparente amizade o regime do coronel e que o nosso PM o tivesse visitado várias vezes – petróleo oblige.

Mas a declaração do Conselho de Segurança foi aprovada com as abstenções da Alemanha, Brasil, China, Índia e Rússia. E aqui divisam-se algumas meias-surpresas, como a posição dos membros permanentes Rússia e China. Votos que, a coberto das politicamente correctas preocupações com o sangrento conflito que dilacera a Líbia, expressam o desejo de contemporização com o dominante poder ocidental e a participação na grelha de partida para a era pós-Kadafy. Perante os eufemísticamente chamados danos colateriais – caso de um hospital parcialmente destruído, segundo a chancelaria russa – bem podem agora Rússia e China dizer que os bombardeamentos e ataques às forças do sempiterno coronel não faziam parte do cardápio do documento aprovado. Mas não foram esses membros permanentes do Conselho de Segurança que, tendo direito de veto sobre as resoluções, as “deixaram passar”? Com o que é contavam os seus dirigentes? Limitaram-se objectivamente a fazer um favor às potências ocidentais, a quem, oportunamente, cobrarão num outro palco, numa outra negociação, num outro negócio. Conflitos russos no Cáucaso? Relações económicas entre a China-EUA-UE? Questões cambiais? Acesso à exploração dos recursos naturais da Líbia?

Ressalvadas as aparências, a todos interessa que M. Kadafy faça parte do passado. Como no célebre “Um Crime no Expresso do Oriente” (Agatha Christie, 1934), todos estão agora interessados em contribuir, nem que seja com uma singela facada. Até o governo de nuestros hermanos já anunciou o envio de dois aviões; e o nosso governo não anunciou porque as coisas estão como estão e ninguém compreenderia o (caríssimo) gesto. Mas os recursos líbios são muito importantes para que não haja uma solução.

Por agora resta-nos saber se as potências que conduzem a guerra a ganharão confortavelmente instaladas aos comandos dos seus aviões e nos monitores dos quartéis-generais, contando com o apoio dos rebeldes em armas para o trabalho no terreno, ou se terão que enviar tropas terrestres. E aí o cenário complicar-se-á.

Noticias de última hora indicam que o Conselho de Segurança de ONU irá hoje reunir à porta fechada.

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