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Exterminem todas as bestas

“Exterminem todas as Bestas”, diz o sinistro Kurtz, no romance O Coração nas Trevas, de Joseph Conrad.

Exterminar todas as bestas, era considerado um acto de caridade das potências coloniais, para encurtar os sofrimentos dos povos inferiores e incivilizados que não se submetiam ao progresso e à civilização. Era, na época em que decorre o romance, o equivalente às actuais intervenções humanitárias das nações ocidentais, espalhando os seus superiores valores culturais e civilizacionais enquanto exploram os recursos económicos dos continentes, praticando uma política de extermínio em que assentou, assentava e assenta, variando os meios, as formas e os fundamentos ideológicos, a expansão ocidental, na América, Austrália, África e Ásia.

Na época, uma abundante literatura justificava o colonialismo e o racismo, em nome do progresso e da civilização. Hoje, a propaganda continua farta, usa novos aparatos tecnológicos e mudou os temas para os direitos humanos, a livre circulação financeira e comercial, os valores democráticos. Isto depois de o mundo ficar horrorizado com os campos de concentração nazis, muito mais sofisticados e eficazes que o primeiro campo de concentração instalado pelos espanhóis em Cuba, sem que ninguém ou quase ninguém o visse como o que realmente era: a aplicação moderna, industrial das políticas de extermínio que durante séculos o ocidente efectuou nos cinco continentes.

É enorme a perfídia da imposição da zona de exclusão aérea na Líbia com o pretexto de proteger a população civil. No Magrebe, no Médio-Oriente continuam neste momento a morrer centenas de civis desarmados às mãos dos militares e das polícias. O silêncio é opaco, não há ajuda humanitária, nem ameaças, só uns vagos vagidos para calar quem anda possa ter sofrimentos de alma.

Os massacres de palestinos, no Líbano, na Jordânia, em Gaza, de sauris pelos marroquinos, de africanos no Ruanda, na Costa do Marfim, só para citar algumas brutalidades recentes, mereceram o silêncio, a indiferença ou a cumplicidade activa daqueles que, agora de coração despedaçado, acorrem ao povo líbio, sem se saber bem de que povo líbio estão a falar. O cumulo da doblez é a Liga Árabe, onde pontificam vários kadhafis, colaborar com a coligação ocidental que bombardeia a Líbia. Um espectáculo edificante que aquece requentadas almas democráticas.

Não se deve esquecer que Kadhaffi começou por ser apoiado pelos italianos contra um rei fantoche e facínora, colocado no trono pelos ingleses. Principiou a ser execrado quando nacionalizou o petróleo e depois de várias aventuras politicamente incorrectas, para o ocidente o terrorismo é bom ou mau conforme a quem serve, voltou recentemente a passear mundo fora de mãos dadas com a mais fina flor dos políticos ocidentais.

O rol de ditadores que são amados para a seguir cair em desgraça, podendo voltar a ser amados não sendo seguro que não voltem novamente a cair em desgraça, é infindável. O amor e a desgraça é um vai e vem sem ética, aplicado conforme serve ou não serve os interesses económicos ou a politica geoestratégica do imperialismo. Em paralelo, os resultados eleitorais por mais transparentes que sejam só são válidos quando se enquadram nos desejos do império.

A intervenção da coligação para proteger os civis líbios, fórmula maravilhosa que não esclarece a que civis líbios se referem e se esses civis líbios não estão prontos a massacrar os civis líbios das outras tribos, vai devastar ainda mais aquele país. Dizem os coligados do costume, que é só para impor uma zona de exclusão aérea e impedir que a aviação líbia bombardeie a população civil. Hão-de dizer por tudo o que é sítio que só fazem ataques cirúrgicos para cumprir esse objectivo. Todos conhecemos os resultados dessas cirurgias. Já aconteceram momentos que seriam do mais reles humorismo se não fosse a gravidade dos acontecimentos, como o de Sarkozy anunciar que a aviação francesa tinha começado a impor a zona de exclusão aérea e os primeiros alvos serem carros de combate que por serem das forças de Kadhaffi iam a voar, baixinho mas a voar, por isso foram destruídos.

A conversa subiu de tom, já ultrapassa os objectivos de uma zona de exclusão aérea. Fazem-se exigências que anunciam o que irá acontecer a seguir. O circo diplomático e da comunicação social já está a funcionar para explicar a entrada em Benghazi, de conselheiros militares, diplomáticos e políticos. Mercenários para engrossar os que já por lá andam. As ONG, para dar apoio humanitário. A parafernália que mascara uma política agressiva, que procura manter um domínio económico e geopolítico ameaçado por uma crise que está a abalar os seus alicerces.

É o equivalente moderno e travestido dos genocídios racistas do Coração nas Trevas, a que foram associadas uma série de acções para os dissimular sob a capa de uma legitimidade internacional bafienta. O importante é que os objectivos dos impérios de ontem ou de hoje não sejam postos em causa. È sempre de relembrar que a brutalidade pura e dura que Conrad descreveu e a que Hannah Arendt recorreu para considerar que os “terríveis massacres”, os “assassínios selváticos” perpetuados pelo imperialismo ocidental, foram os responsáveis “pela introdução triunfante de tais meios de pacificação em políticas estrangeiras comuns e respeitáveis” e estão na origem dos genocídios totalitários, deles não se distinguindo no essencial.

Sobre o que se passa actualmente na Líbia há que questionar se haveria intervenção humanitária com a aplicação de zonas de exclusão aérea se a Líbia não tivesse petróleo. Só há intervenções humanitárias se estão em causa matérias-primas importantes ou interesses estratégicos essenciais, caso do Egipto em relação a Israel. Só se enxergam massacres, violações dos direitos humanos etc, quando o cheiro do petróleo é intenso ou está em causa um equilíbrio geopolítico favorável aos interesses do império e seus aliados. Que a Kadhaffi suceda um outro Kadhaffi, é uma questão de pormenor, desde que o novo ditador, tenha o nome que tiver, venha de onde vier, se submeta aos ditames das políticas económicas imperialistas. Para alcançar esses objectivos todos os meios são bons e há sempre uns cavilosos teóricos para os justificarem.

O povo, a humanidade, os direitos do homem, para essa gente não existe!

O que o império, o grande capital e os seus servidores nos cargos políticos acolitados por um exército mercenário que, no terreno e nos meios de comunicação social, dispara indiscriminadamente por todo o mundo tiros de bala real ou balas ideológicas, quer é manter os privilégios de uma minoria que explora sem freio os bens materiais e imateriais da humanidade.

O que acontece agora na Líbia é mais um episódio dessa guerra que, perigosamente para todo o mundo, começa a ser uma guerra de sobrevivência de um sistema corrupto, ferido de morte mas detentor de um enorme poder militar.

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