Política

Ter vergonha

O ministro da Defesa alemão demitiu-se na sequência de acusações de plágio na tese de doutoramento, que já tinham levado a Universidade de Bayreuth a retirar-lhe o grau de doutor.” Aferida com as práticas políticas (mas não só) correntes em Portugal, a notícia ilustra bem a diferença quanto ao conceito de responsabilidade que vigora nos dois países.

Ainda recentemente assistimos, atónitos, a uma das maiores trapalhadas registadas em mais de trinta anos de processos eleitorais: a impossibilidade de milhares de cidadãos exercer o seu direito de voto nas eleições presidenciais. O cerne da questão – a responsabilidade política por um facto da maior gravidade – foi iludido com relatórios técnicos e a demissão de um alto funcionário, um director-geral . A mensagem que se quis transmitir foi a de que os políticos responsáveis não tinham nada a ver com o assunto. Pergunta: o que é que estão lá a fazer? Será que precisamos de Governo?

Fica bem ilustrada a “teoria dos fusíveis”. Antes que o curto-circuito chegue ao quadro principal, o ministro e os secretários de Estado, “rebentam-se” uns quantos fusíveis, no caso um director-geralEstranha-se como o caso não chegou ao porteiro do ministério.

Regressando à Alemanha. Convenhamos que ter no Governo um ministro cuja tese de doutoramento foi plagiada é desprestigiante. Facto, aliás, de difícil compreensão num país berço de tantos génios… A sociedade alemã não gostou e protestou. E os protestos foram ouvidos. Retornando a Portugal. Se formos a atender às habilitações literárias dos nossos governantes, convenhamos que teríamos (como temos tido) muito que sorrir e gargalhar. Claro que não fizemos uma carta aberta dirigida ao nosso chanceler, assinada por milhares de pessoas, nomeadamente professores universitários e alunos de doutoramento, como os alemãos fizeram. A quem a dirigiríamos? Limitámo-nos a sorrir e a contar umas anedotas.

Mas não será muito mais grave ter governantes que são (ir)responsáveis por perturbações e danos muito maiores, como é o caso do ministro da administração interna?

A conclusão é que temos ainda um longo caminho a percorrer em matéria de decência e de respeito pela coisa pública e pelos lugares públicos. Era bom que os nossos governantes fizessem algum benchmarking com os exemplos que lhes chegam da Europa.

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One thought on “Ter vergonha

  1. Carlos Anjos diz:

    Em sentido oposto – o bom sentido, sublinhe-se -, registo aqui a demissão de Fernando Mota, Presidente (desde 1993!) da Federação Portuguesa da Atletismo, na sequência de um erro administrativo dos respectivos serviços. Erro que impediu a inscrição da vice-campeã europeia, Sara Moreira, na prova de 3.000 metros dos Europeus de pista coberta. A atleta foi erradamente inscrita na prova de 1.500 metros e F.Mota assumiu a responsabilidade. Sai bem. Um exemplo a seguir.

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