Política

E se chega à Arábia Saudita?

O movimento de derrube de ditadores e poderes autoritários tem contado com uma generalizada simpatia um pouco por toda a Europa. Mas, à medida que os países produtores de petróleo da região são afectados por esse fogo incontrolável, começa-se-nos a formar um nó na garganta sempre que nos anunciam os novos preços dos combustíveis.

Um fogo ameaça uma região do planeta, o Magrebe e a península arábica, onde se concentram oito dos maiores exportadores mundiais de petróleo, com uma fantástica capacidade conjugada de 17.309 milhões de barris/dia (dados de 2008).

Os acontecimentos na Líbia começaram por beneficiar da simpatia geral. Mas, conforme nos vamos apercebendo das suas consequências, internas e externas, podemos perceber que estamos perante uma das mais importantes mudanças estratégicas das últimas décadas. Se a Tunísia e o Egipto não são relevantes para o abastecimento de hidrocarbonetos à Europa (desconte-se a importância estratégica do canal de Suez na sua circulação), já o mesmo não se passa com a Líbia. O sector petrolífero líbio exportou, em 2008, 1,597 milhões de barris/dia (sendo então o 12º exportador mundial), produto que é responsável por 95% das exportações deste país.

Da Líbia, em caso de derrota de M. Kadaffy, é previsível que resulte a fragmentação do país. As estruturas institucionais do Estado, pouco consolidadas, não parecem poder resistir à guerra civil instalada. Sem um exército unificado (ao invés do que aparenta ser a situação egípcia) as perspectivas de evolução serão muito escassas. O espectro da desagregação ocorrida na Somália não é de excluir. A agravar-se a actual desgraça líbia, resultarão problemas como refugiados, a desagregação do Estado, a “balcanização” de diversas áreas do país e o controlo do acesso ao petróleo e gás… isto sem contar com a destruição e morte que parecem estar em curso e cujo desfecho será ditado pelas armas e não pelo bom senso político – que, apesar de tudo, imperou, com danos relativos, na Tunísia e no Egipto.

Se à tragédia líbia se vier a juntar o reacendimento do nunca extinto conflito civil argelino, ter-se-á subido mais um degrau do terramoto estratégico. A Argélia, possui as quintas maiores reservas de gás natural do mundo e é o segundo maior exportador de gás. É ainda o 14º país com maiores reservas de petróleo. Um país com 33 milhões de habitantes (em 2005) e que vive há quase vinte anos em clima de contestação e confrontação com o poder instituído. Recorde-se que foi uma intervenção militar que, em 1992, impediu a Frente Islâmica de Salvação de aceder eleitoralmente ao poder na sequência da respectiva vitória em eleições nacionais. Desde então terror foi palavra que passou a ser frequente no noticiário sobre a Argélia, no que se transformou num conflito sangrento e brutal sem solução até à data.

Com a contestação a alastrar-se também a monarquias do Golfo, como o Bahrein e a Estados como a Jordânia e o Iemen, aperta-se o cerco à Arábia Saudita. Tão só o maior produtor e exportador mundial de petróleo, com 8,406 milhões/barris/dia em 2008. Uma monarquia absoluta, governada segundo a Sharia islâmica e controlada com “mão de ferro”, sem quaisquer instituições democráticas ou representativas. A cujos súbditos vale o facto de usufruírem de elevados rendimentos, enquanto uma massa de imigrantes com escassos direitos assegura a generalidade das tarefas.

E o Irão? Um outro grande produtor e exportador de carbonetos, ali estrategicamente ao lado. A situação no país dos aiatolas parece também longe de estar serena, com um importante movimento civil de contestação ao Estado religioso (xiita) que dura há trinta e dois anos (desde 1979, com queda do Xá Reza Palevi). Claro que o Irão não é a Líbia. A antiga e milenar Pérsia possui uma consistência como Estado e uma personalidade nacional que a maior parte dos países magrebinos ou do Golfo estão longe de possuir.

O “fogo na pradaria” que varre o Magrebe e o mundo árabe em geral com diversos graus de intensidade, não distingue alinhamentos estratégicos, afectando tanto os velhos aliados ocidentais (Egipto, Tunísia), como os mais recentes (Iemen), como outros menos aliados (Líbia, Irão).

Para comprovar as incertezas quanto ao futuro,  aí está a escalada dos preços do petróleo. O que irá resultar destas revoluções?  Há uma estabilidade assente em poderes autoritários ou ditatoriais que desaparece, não se sabendo o que lhes sucederá. Factos, só por si, susceptíveis de colocar em causa o (des)equilíbrio energético desenhado desde há décadas. O cenário do barril de petróleo a 200 ou mais dólares terá seguramente consequências inimagináveis nas nossas economias dependentes de fornecimentos oriundos destas regiões.

Desconte-se o cinismo, mas poderemos ainda ter que nos perguntar se não estávamos melhor quando os velhos ditadores e tiranos lá estavam?  Isto é, a velha dicotomia entre os valores e a razão, transformada numa armadilha para os Governos.

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