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Onde está a acontecer uma (quase) Revolução?

Não, não vamos falar do Egipto onde o governo nomeado por Mubarak antes de se retirar para a estância de luxo de Sharm el-Sheik continua em funções, como continuam as políticas económicas ditadas pelo FMI e logo se saberá como serão as eleições e até que ponto serão livres. Isto de liberdades democráticas tem muito que se lhe diga. Que o digam os tunisinos que ainda não conseguiram remover o governo do primeiro-ministro que lá estava. Do Barhein e Iémen pouco se sabe ou fala e sobre a Líbia a batalha entre tribos parece ser tão intensa como a batalha da desinformação.

Chamar a isto revoluções é um excesso verbal. De essencial nada tem mudado, além de uns tantos tiranos terem sido removidos sem grandes danos pessoais anote-se, o único verdadeiramente ameaçado é Kadhaffi, dadas as especificidades locais. Enquanto tudo isto acontece, o mundo ocidental, na grande cruzada pelos direitos humanos, essa treta inventada para enterrar na névoa da história os Direitos do Homem, faz voz grossa para um lado e emudece noutros.

Cinismo e hipocrisia quanto baste com a indignidade do costume que vem de longe e há-de continuar. Não terá os paroxismos daquele actor menos que medíocre que chegou à Casa Branca. Chamava cão raivoso a Kadhaffi, bombardeou Tripoli e Benghazi matando milhares de líbios, enquanto negociava armas e droga para financiar os contras na Nicarágua, khmers vermelhos no Cambodja, talibãs no Afeganistão, a Unita em Angola e por aí fora. Nos intervalos tinha tempo para arrancar o número seis do número da porta da sua mansão para escapar à malignidade da Besta do Apocalipse, o que dá bem a dimensão da reduzida capacidade mental do personagem. Tem a untuosidade da senhora Alliot-Marie, ministra do Negócios Estrangeiros da França de Sarkozy, que hoje apareceu na televisão saída de uma reunião qualquer da Europa em sobressalto por causa do petróleo, com a boca cheia de liberdades e direitos humanos, a tarte do costume, ameaçando a Líbia com isto e mais aquilo esquecida que ainda há muito pouco tempo estava no aeroporto Charles de Gaulle com o marido e o paizinho para irem de férias na Tunísia, quando um amigo tunisino, grande empresário e amigo intimo de Ben Alli, os livrou das complicações do check-in dando-lhes boleia no seu avião particular. De caminho, antes de mergulhar na história de Cartago, o papá comprou uma empresa ao ofertante da boleia e quando rebentou a borrasca a senhora Alliot-Marie ofereceu os préstimos da França a Ben Alli. Isto é tudo gente muito séria e transpira democracias.

Não vamos falar dessas misérias desses estrénuos defensores da liberdade mas de uma país que caiu no esquecimento e que está a dar lições de democracia, liberdade e soberania: a Islândia.

Com a direita no poder seguiu uma política neo-liberal que a conduziu à bancarrota. Poder-se-ia esperar a receita habitual da cartilha do FMI. Nada disso. Pressionada pela União Europeia que exigia o pagamento das dívidas contraídas pelos bancos privados islandeses aos bancos europeus, nomeadamente da Holanda e Grã-Bretanha, o que faria cada islandês desembolsar cerca de 100 euros por mês durante oito anos, perante a capitulação do governo social-democrata, que tinha substituído o governo de direita, a essas exigências, o povo rebelou-se e o Presidente da República mandou referendar essa decisão governamental e fazer eleições.

O resultado do referendo foi suspender o pagamento da dívida nos termos exigidos pela UE. O das eleições foi ser eleito um governo de Unidade de Esquerda, formado por sociais-democratas, feministas, comunistas e verdes. Foi decidido escrever uma nova Constituição, a anterior copiava a dinamarquesa substituindo Rei por Presidente da República, onde vai ficar consignado a separação do Estado da Igreja, dos poderes legislativos e executivo e, isto o principal, a nacionalização dos recursos naturais e dos bancos. Quanto à divida, ao contrário do que exigia a UE, desindexaram-na do euro pelo que o seu valor, está a ser negociado, será pago pelo valor da coroa islandesa. Na prática corresponde a pagar cerca de 40% menos do que os bancos europeus exigiam. Nada de novo, os Estados-Unidos quando garantiram que o dólar era moeda corrente nas transacções internacionais, desindexaram-no do ouro e com este movimento financeiro a sua dívida reduziu-se em cerca de 35 por cento.

A Islândia é um pequeno país, tem 320 000 habitantes, com um alto nível de vida que tinha sido abalado pela crise provocada pelo sistema bancário privado que o Estado salvou, história conhecida e recorrente, está a dar uma lição de democracia, de defesa da sua soberania e dos Direitos do Homem.

Não é uma Revolução mas deveria servir de lição para essa gente que anda a papaguear receitas velhas como os trapos.

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4 thoughts on “Onde está a acontecer uma (quase) Revolução?

  1. Maria Baeta diz:

    De facto, o novo parlamento aprovou um novo acordo com o Reino Unido e Holanda em Dezembro último. Pelo que li, este acordo, embora menos desfavorável para o povo islandês, não tem a sua aprovação, ainda bem!!! e também não tem a aprovação do presidente da república que vetou o acordo e quer novo referendo como parece ser a opinião da maioria da população. Assim sim, vale a pena ter um presidente…
    O problema, quanto a mim, desta esquizofrenia financeira/política apenas pode ter uma resposta conjunta. NÃO, NÃO, NÃO ao pagamento de qualquer dívida provocada pela especulação.

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