Política

Vladimir Ilitch não merece a ofensa

Das duas, uma: ou Ana Benavente desconhece o funcionamento do centralismo democrático, por ser profundamente ignorante, ou então apenas quis produzir um elemento dissonante na argumentação — só para ficar bem junto de alguns dos seus camaradas e não a confundirem com uma qualquer perigosa comunista — com que arrasou o governo do partido a que pertence, numa entrevista que deu à Revista Lusófona de Educação e que o jornal “Público” fez o favor de desenterrar.

Na prática, as declarações de Benavente, que compara o “autoritarismo” de Sócrates ao “centralismo democrático” de Lenine constituem uma ofensa não ao líder do PS, mas sim a Lenine. A Sócrates já nada se pode dizer que o ofenda, porque ele é tudo o que lhe chamam, e talvez mais ainda. Lenine, pesem todas as opiniões que se possa ter sobre ele e o seu papel histórico, não pode ainda ser acusado de algumas coisas…

Benavente, que, apesar da comparação pouco feliz, tem toda a razão no diagnóstico que apresenta sobre o PS, esquece que é no Partido Socialista e nos partidos do chamado arco governativo que as lideranças são construídas e definidas como o projecto de um homem só, salvador previdente capaz de, com a visão iluminada que mais ninguém tem, corrigir e resolver todos os problemas da humanidade e, quem sabe, até de desconhecidas civilizações escondidas no sistema solar. Isto mesmo que saibamos que mais não são do que emanações do mesmo poder económico que põe e dispõe sempre e a que alegremente aceitam sujeitar-se.

O centralismo democrático, com todos os enormes defeitos que tem, gera mais discussão democrática e saudável do que qualquer estrutura orgânica partidária nacional. No centralismo democrático, salvo algumas excepções que fazem, de facto a regra, são muitos mais a discutir e discute-se mais ferozmente do que em qualquer directório político partidário português. Com uma diferença essencial: a regra da submissão da minoria à maioria, depois de tomada uma decisão, e a disciplina com que essa regra é encarada, ainda que o essencial resida em saber se os resultados dessas discussões são, ou não, devidamente aproveitados e respeitados. Mas isso é outra conversa… Por isso, comparar Sócrates a Lenine, misturar autoritarismo com centralismo democrático, é um equívoco de proporções históricas e até ofensivas. Para Lenine, claro está.

Na ausência de link para a revista, aqui ficam as citações da entrevista de Ana Benavente reproduzidas pelo “Público” :

Jamais pertenceria a um Governo de José Sócrates com uma pasta idêntica, “porque, se o fosse, já teria apresentado a minha demissão.”

O PS tornou-se “neoliberal” – “fazer do capital financeiro o dono e árbitro do desenvolvimento económico é uma capitulação face ao neoliberalismo que não é digna de um partido socialista”.

No PS, há falta de debate interno e Ana Benavente critica “o autoritarismo da actual liderança”. “Tornou-se autocrata, distribuindo lugares e privilégios, ultrapassando até o “centralismo democrático” de Lenine. Alimentando promiscuidades que recuso”.

Este PS tem “falta de ética democrática e republicana”.

O PS de Sócrates assumiu  “políticas de direita” através das privatizações ou das reduções drásticas no sector público.

O PS abdicou “da defesa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos”.

O Orçamento do Estado de 2011 é “o revelador máximo” das divergências: “Estado abusador, castigo para os pobres, poupanças nas políticas sociais”.

“O PS hipotecou o seu papel na sociedade portuguesa e deixou-nos sem perspectivas de um futuro melhor. Assumiu o papel que antes pertencia aos centristas do PSD, ocupou o seu espaço e tornou o país mais pobre, política e economicamente.”

O caminho passa por o PS partir do seu “papel histórico” de conseguir um “reforço dos direitos dos trabalhadores, desenvolvimento dos direitos de cidadania e do consumidor, reforço da assistência pública, mudança do paradigma energético, desenvolver um sistema de saúde solidário e alargar o sector público”. “Novas vagas de democracia” serão exigidas por todos os que, “assustados pelo eventual desemprego, comprados por um hiperconsumo esmagador e com medo da anunciada recessão”, vão “querer respirar livremente e reconstruir a paz”.

Sócrates e o Governo “maltrataram” a escola pública com políticas educativas “marcadas pela centralização” ou pelo “questionamento da qualidade” dos professores através do sistema de avaliação ou da publicação de rankings de escolas.

Os sete pecados mortais do PS, segundo Ana Benavente

1. Adoptou “políticas neoliberais e, portanto, abandonou a matriz ideológica socialista”;

2. “Autoritarismo interno e ausência de debate, empobrecendo o papel do PS no país”;

3. “Imposição de medidas governativas como inevitáveis e sem alternativa, o que traduz dependências nacionais e internacionais não assumidas nem clarificadas para o presente e o futuro”;

4. “Marketing político banal e constante, de par com uma superficialidade nas bandeiras de modernização da sociedade portuguesa”;

5. “Falta de ética democrática e republicana na vida pública e na governação”;6. “Sacrifício de políticas sociais construídas pelo próprio PS em fases anteriores”;

7. “Falta de credibilidade, quer por incompetência quer por hipocrisia, dando o dito por não dito em demasiadas situações de pesadas consequências”.

Standard

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s