Geral, Política

Portugal em guerra. Foi há 50 anos.

Guerra Colonial, guerra do Ultramar ou guerra de Libertação. Estas são ainda hoje as principais visões sobre a guerra com que Portugal se confrontou em três dos seus territórios africanos, a partir de 1961, e sobre cujo inicio se completam agora cinquenta anos.

O assalto realizado à cadeia de Luanda em 4 de Fevereiro de 1961 por guerrilheiros do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, assinala o começo simbólico de uma guerra que se viria a estender, pouco depois, à Guiné (1963) e a Moçambique (1964) e por cujo desfecho seria preciso esperar treze longos e sangrentos anos.

Um Portugal fora do seu tempo

O contexto internacional – as descolonizações de vastos territórios após a II Guerra Mundial. Quando as guerras de guerrilha nas “províncias ultramarinas” tiveram inicio nos anos sessenta, já o caminho das tentativas de negociação política tinha sido percorrido sem resultados. Movimentos de naturais das colónias portuguesas haviam já tentado o diálogo com o Governo com vista à evolução do estatuto desses territórios, inicialmente para autonomias, mais tarde para a independência. Parte desses grupos constituídos eram, aliás, liderados por jovens africanos que estudavam na “metrópole”. Casos de Amílcar Cabral (PAIGC/Guiné), Eduardo Mondlane (FRELIMO, Moçambique) ou Agostinho Neto (MPLA/Angola), entre tantos outros. Não faziam mais do que reproduzir os processos que se passavam noutras colónias europeias em África ou na Ásia.

Os dirigentes portugueses, por seu lado, recusaram-se a compreender o que se passava no mundo; o movimento imparável de concessão de independência às colónias europeias que tomava corpo: França – Marrocos e Tunísia (1956), Argélia (1962, após oito anos de guerra), Itália – Líbia (1951) e Somália (1960), Reino Unido – Sudão (1956), Gana (1957), Nigéria (1960), Serra Leoa, Somália britânica e Tanganica (1961), Uganda (1962) ou Bélgica – antigo Congo Belga/Zaíre (1960), apenas para referir algumas.

Em 1955 a Conferência de Bandung (Indonésia) havia lançado as bases do que viria a ficar conhecido por movimento não-alinhado e a constituir-se como uma plataforma afro-asiática anti-colonialista. Os sinais para os governantes portugueses eram mais que evidentes – provindos, inclusive, de aliados ocidentais, como os EUA que, com J.F. Kennedy na presidência, fizeram questão de patrocinar movimentos de libertação da sua simpatia e de informar o regime de O. Salazar que o tempo se estava a esgotar.

A todos os avisos o regime ficou imune, recusando-se entender os novos sentidos da História. Angola, andar rapidamente e em força”, proclamou O. Salazar (13 de Abril de 1961) após ter feito abortar a tentativa de golpe palaciano do seu ministro da Defesa, Botelho Moniz, e na ressaca dos massacres de colonos brancos e respectivos trabalhadores negros ocorridos em Março de 1961 no norte daquele território. A caminho estava a mobilização do país para uma “cruzada” imbuída da crença nacionalista de um império multi-continental e multi-racial. Cujos resultados viriam a marcar uma geração de portugueses e empurrar o país para um beco sem saída – até 25 de Abril de 1974. Guerra que, porventura no seu período inicial, terá sido um novo desígnio mobilizador para um regime já então em queda e fora do seu tempo.

País pobre em três guerras

Com as acções militares em Angola, e depois na Guiné e Moçambique, começou a drenagem de volumosos recursos materiais, logísticos, financeiros e humanos para suportar o esforço de guerra. Às Forças Armadas, alicerçadas no serviço militar obrigatório, o povo, foi atribuída a procura de uma solução militar para um problema que era político e a que o esforço militar só poderia conceder o tempo da negociação.

Milhares de jovens passaram a ter como horizonte próximo de vida a partida para uma das três frentes de guerra. Um destino que custou ao país um total de 8.290 mortos nas três frentes de combate, 3.250 em Angola, 2.962 em Moçambique e 2.070 na Guiné, segundo dados da “Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África 1961-1973”. Números assombrosos que, associados a todos os traumatizados, calam fundo na sociedade portuguesa. E que continuam ainda hoje manifestar-se. Ao mesmo tempo que o país continuava pobre e miserável a assistir à partida de levas de emigrantes em direcção a França ou Alemanha, muitos “a salto”, e a que se juntavam os que recusavam participar numa guerra que se adivinhava sem saída.

Como corolário da guerra que se iniciava, algumas zonas dos territórios africanos, nomeadamente de Angola e Moçambique, conhecem então importantes surtos de desenvolvimento. Políticas estatais incentivam a – antes muito condicionada -migração para as colónias, agora promovidas a “províncias ultramarinas”. Era preciso demonstrar ao mundo a eficácia de uma ocupação efectiva dos territórios, até aí praticamente abandonados, sem infra-estruturas, sem equipamentos, com populações sem acesso a serviços básicos e com escassos investimentos. Era o regresso do fantasma do “mapa cor-de-rosa” que, em finais do século XIX, havia desapossado o país dos territórios situados entre as suas maiores colónias africanas.

Num espaço de tempo relativamente curto, Angola e Moçambique transformam-se na nova miragem do regime. Cabora Bassa (em Moçambique), bem como importantes estruturas portuárias e ferroviárias viram a luz do dia em ambos os territórios. Cidades que cresceram e ganharam população. Muitos milhares de portugueses embarcaram para esse “novo mundo” em busca da vida melhor que o Portugal metropolitano não lhes proporcionava. Os recursos materiais e… humanos eram abundantes. O lado negro era que a guerra continuava em três frentes e o desprestígio do país aumentava, com sucessivas condenações e exclusões nos fóruns internacionais.

Tentativas néo-coloniais

Portugal era, nos inícios da década de setenta, um país desfasado do mundo e o seu maior problema era o pesadelo de uma guerra sem fim à vista. Que atormentava a nação. Todas as tentativas de negociação política de uma solução esbarraram na teimosia e na cegueira da liderança portuguesa. Pouca ou nenhuma esperança restava já às famílias que continuavam a deslocar-se ao cais da Rocha do Conde de Óbidos para se despedir dos seus jovens que, treze anos após 4 de Fevereiro de 1961, continuavam a ser enviados para as três frentes de guerra.

Problema nº 1 que o novo poder nascido em 25 de Abril tinha que resolver com urgência. Com o país em convulsão político-social, as tropas a recusarem embarques para os cenários de guerra, uma população ansiosa pelo fim dos conflitos e a exigência de independências “imediatas e totais”, estavam criadas as condições para uma extraordinária aceleração da História. Um daqueles momentos de velocidade vertiginosa…

Para trás ficaram, por serem já então deslocadas no tempo, as tentativas néo-coloniais que acreditavam ser possível manter as “províncias ultramarinas” na órbita nacional, em soluções mais ou menos federalistas. Quando o general António de Spínola, publicou, com grande impacte público e inusitado escândalo para o regime, em Fevereiro de 1974, a sua obra “Portugal e o Futuro”, já os ventos das independências tinham tornado impraticáveis outras soluções. Spínola tentaria ainda inflectir o curso das independências durante o curto período em que ocupou a presidência da República (Abril-Setembro de 1974) – facto que o viria a incompatibilizar com o movimento dos jovens capitães que controlava o MFA, a sede do novo poder.

Para que serviu a guerra?

No curto espaço de pouco mais de um ano – entre 10 de Setembro de 1974 (reconhecimento da independência da Guiné e Cabo Verde, auto-declarada pelo PAIGC em Setembro do ano anterior) e 11 de Novembro de 1975 (independência de Angola), o império colonial português desvaneceu-se e o país viu-se reduzido à sua dimensão inicial. O final teve episódios trágicos e dolorosos, dos quais avulta a regresso de milhares de pessoas a Portugal continental em condições trágicas. Uma saga extraordinária de que restam hoje poucas feridas, para além do que perdurará na memória dos que viveram esses acontecimentos.

A sociedade portuguesa “digeriu” sem sobressaltos sociais graves o fim do império, apesar dos inúmeros dramas pessoais que acarretou. Ficará a sensação, ao olhar para esses anos de guerra, o quão gloriosas foram as mortes dos milhares de jovens que tombaram em tão infausta quanto inconsequente guerra. Que poderia ter sido evitada.

Terminada a guerra há 37 anos, as preocupações dos portugueses estão hoje muito longe dessa traumática fase da vida do país. Para muitos ela é apenas uma vaga referência nos livros de história ou nas esporádicas imagens televisivas. Para muitos outros é uma recordação trágica. Os problemas e aspirações dos jovens são hoje radicalmente diferentes dos daquela época: a ameaça do desemprego substituiu o temor de uma mobilização para os cenários de guerra.

As independências de vários desses territórios viriam a revelar-se frutos amargos e geradores de muitas outras violências e sofrimentos, em conflitos civis sangrentos atravessados pelas disputas entre os blocos antagónicos dos tempos da guerra fria. Mas foi esse o sentido da História. Uma aventura que durou seis séculos, iniciada em 1415 com a conquista de Ceuta e que deixa um lastro ainda por perceber em toda a sua amplitude – a cultura, a língua, as tradições, uma certa maneira de ser, que não são coisa pouca.

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