Geral, Política

Tunísia. Da revolução dos cravos à revolução de jasmim

Ao vermos as imagens que por estes dias nos chegam da Tunísia não podemos deixar de sorrir e lembrarmo-nos do nosso 25 de Abril e da nossa revolução dos cravos. Naquele recanto do Magrebe é a revolução de jasmim. As flores nos canos das armas e a decorar os aparatos de guerra, uma imagem que nós conhecemos em 1974.

A Tunísia não é um país que faça habitualmente cabeçalhos nos media internacionais. Aliás, como todos os países pequenos. Excepto quando ocorrem catástrofes e revoluções. E assim foi, mais uma vez.

Pequenos, Portugal e Tunísia têm alguns pontos de contacto. A começar pelas respectivas populações, ambas à volta de 10 milhões de habitantes. No contexto magrebino os seus indicadores sociais são dos mais aproximados dos europeus. Ambos os países têm também histórias impares e notáveis situadas no passado. É na Tunísia que se localizou Cartago, a Cidade-Estado de grande influência em todo o Mediterrâneo (apogeu por volta do sec. III aC). Acrescente-se que a Tunísia é ainda um destino turístico conhecido por muitos portugueses. Sem recursos petrolíferos relevantes, ao invés de alguns dos seus vizinhos, é um dos países do Magrebe mais abertos ao exterior, como o prova o filão turístico que explora desde há anos. E um daqueles onde mais se fará sentir a influência europeia em matéria de costumes, mormente nas cidades costeiras; gostam de dizer aos estrangeiros que o seu primeiro presidente, H. Bourguiba, proibiu a poligamia e promoveu a condição das mulheres.

As manifestações de protesto iniciadas há cerca de um mês nas cidades tunisinas vieram mostrar ao mundo o que passava despercebido, fosse pela pequena dimensão do país, fosse pela escassa atenção dos media, fosse ainda pelas cumplicidades das potenciais europeias. Que a Tunísia era uma regime ditatorial dirigido por um general (como é habitual) de nome Ben Ali, há vinte e três anos no poder; poder este tomado por um golpe que substituiu o velho herói da independência, H. Bourguiba, o qual, por sua vez, dirigira o país nas três décadas anteriores. Um regime que, ouvido o povo nas ruas, era uma cleptocracia de família sustentada pela repressão e pela manipulação do sistema político.

Apesar de tudo o regime era acarinhado pela União Europeia e pelo chamado ocidente em geral, por ser um declarado inimigo de fundamentalistas islâmicos. O seu ex-presidente, agora em fuga, era visita regular das respectivas capitais onde, ao que parece, nunca ninguém lhe falou em direitos humanos e democracia. O partido do ex-presidente (RCD) fazia mesmo parte da Internacional Socialista; organização que, significativamente, anunciou na semana passada a sua expulsão. E apesar ainda de, poucos dias antes da fuga de Ben Ali, o governo francês lhe ter oferecido assistência para reprimir as manifestações pacíficas que acabariam de levar à queda do regime…

Com o receio do fundamentalismo islâmico (cujo berço, a Arábia Saudita, agora acolhe o afamado presidente anti-fundamentalista tunisino), as potências ocidentais têm desculpabilizado e apoiado regimes cuja única carta da apresentação é a contenção desse fundamentalismo, mas para quem o respeito pelos seus povos é uma breve alínea. O mesmo receio atávico (o do comunismo, à época) que justificou a tolerância de que o regime ditatorial de Salazar e Caetano beneficiou durante décadas. Só que quando chegam os momentos de mudança, ninguém sabe para direcção eles irão.

As consequências da revolução tunisina ameaçam fazer-se sentir noutros países do Magrebe e do mundo árabe. O povo que veio para as ruas e que contagia os militares dá inicio a um processo que ninguém sabe como vai evoluir. Onde é que nós já vimos isto? Em Portugal.

Para já saudemos os tunisinos pela Liberdade que acabam de conquistar – esperemos que a tenham mesmo conquistado.

Standard

3 thoughts on “Tunísia. Da revolução dos cravos à revolução de jasmim

  1. Rui Ornelas diz:

    O Povo tunisino está a iniciar um processo revolucionário de conquista da Liberdade. Mas, tal como no nosso 25 de Abril este processo vai levar muito tempo, estando hoje mesmo num ponto crucial com o povo na rua a exigir a demissão imediata do governo provisório ainda dominado pelo partido que esteve ao lado do ditador. Depende muito da evolução da dinâmica das forças políticas que paulatinamente se vão colocando no terreno e do comportamento das forças militares e dos países vizinhos.

    Gostar

  2. Fonecas diz:

    Um país espectacular e com um potencial de desenvolvimento imenso, que se reflecte não só nas potencialidades económicas que tem mas também nas pessoas, um misto duma cultura magrebina que vê os valores ocidentais como grande progresso moral e ético, com o que de melhor pode haver num país islâmico aberto e tolerante a diversas religiões e crenças, ainda que de forma não manifesta. Esta Tunísia, da pós-Revolução do Jasmim, vai dar, certamente, muito que falar.

    Gostar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s