Política

Um presidente e um partido

O acto eleitoral do próximo domingo irá determinar quem será o presidente da república durante cinco anos.

É muito provável que Cavaco Silva seja eleito à primeira volta e isso não constituirá grande novidade.

Mas, para além disso, o que trarão de novo as próximas eleições?

É sempre arriscado fazer previsões. Por isso alguns só arriscam fazê-las à segunda-feira. Mas, mesmo correndo o risco de inoportunidade e impertinência, considero provável que as três grandes consequências políticas destas eleições poderão ser as seguintes: o final do crescendo do fenómeno bloquista, a entrada da era Sócrates na sua etapa final e o nascimento de um novel PRD, o do século XXI.

Sem grandes considerações acerca das duas primeiras hipóteses, dizer, no entanto, que, ficando mais próximo o fim do ciclo de governação do partido socialista, isso não se consumará no curto prazo, porque, para os grandes interesses económicos e financeiros, continuará a ser importante ter em funções a dupla Cavaco-Sócrates.

Se Fernando Nobre vier a ter um resultado com dois dígitos será muito difícil não ocorrerem movimentos políticos e sociais no sentido de capitalizar e cristalizar, sob a forma de uma organização tendencialmente partidária, as sinergias formadas e as esperanças acumuladas na presente campanha.

Esta aparição partidária seria paradoxal, porque, na génese deste novo “PRD”, esteve um homem que tanto zurziu o outro: Mário Soares!

E significará outro paradoxo: muitos dos desiludidos com a deriva alegrista do BE, poderão ter um novo espaço para empregarem as suas energias militantes. Exactamente ao contrário daquilo que alguns previam: cavar na crise e encher o BE com o desencanto dos militantes socialistas de “esquerda”.

Sendo Fernando Nobre um anti-herói com provas dadas em campanhas humanitárias, pode congregar à sua volta muitos dos que, na actual política, criticam a desumanidade e a desonestidade do neoliberalismo executado ao estilo de Sócrates, e que não se reconhecem nem no caldo da esquerda pós-modernista, nem nos populismos de cariz nacionalista e fascistóide. Isto, apesar dos analistas dizerem que a campanha foi um “desastre” devido à falta de “conteúdo” político do candidato.

Tal partido, porém, como outros fenómenos sociopolíticos que se posicionam transversalmente às órbitas históricas e fundamentais, representadas, na realidade portuguesa, pelo PS, PSD e PCP, acabará por ser, mais cedo que tarde, captado e diluído naqueles grandes corpos clássicos.

Foi isso que aconteceu com o PRD, é o que virá a acontecer, parcialmente, com o BE e, mais à frente, com os próprios partidos de causa ecológica.

Mas, entretanto, será interessante ver Fernando Nobre, finalmente, a actuar como político.

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3 thoughts on “Um presidente e um partido

  1. Demétrio Alves diz:

    Dado que os meus amigos e companheiros neste blogue entenderam privilegiar-me com preciosos comentários públicos ao texto em epígrafe, sinto-me na obrigação de sublinhar o seguinte:

    1- O meu texto não é, hoje (21h oo de 23 de Janeiro), nem o foi quando o escrevi, uma peça de campanha eleitoral. Penso que é nele claro o perfil de analise política que tenta ter alguma utilidade prospectiva. Nem mais, nem menos.
    2- O que eu escrevi, exactamente, no que ao perfil do candidato diz respeito foi: “Sendo Fernando Nobre um anti-herói com provas dadas em campanhas humanitárias, pode congregar à sua volta muitos dos que, na actual política, criticam a desumanidade e a desonestidade do neoliberalismo executado ao estilo de Sócrates, e que não se reconhecem nem no caldo da esquerda pós-modernista, nem nos populismos de cariz nacionalista e fascistóide. Isto, apesar dos analistas dizerem que a campanha foi um “desastre” devido à falta de “conteúdo” político do candidato”. Achei que não interessaria aos leitores, num texto como é aquele que estamos a analisar, o que “eu” pensava sobre o Fernando Nobre como candidato, mas sim aquilo que, em minha opinião, é o perfil do candidato “apercebido” pela população eleitoral. Parece-me, portanto, que não se deverá ler o parágrafo acima referido de uma forma descontextualizada.
    Quanto às previsões que apresentei, e que, no essencial, parece-me ser o essencial da peça, veremos o que vai acontecer. Por enquanto, parece que não errei muito até aqui.
    Um amigos
    DA

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  2. Concordo absolutamente com a análise que o Manuel Araújo faz do candidato Nobre. Mas não posso deixar de notar que o que o Demétrio faz é um exercício de previsão política, baseado nos dados que, neste momento, temos à diposição. E parece-me correcta a ideia de que Nobre capitaliza um vasto espaço político aberto que pode, no futuro, continuar a ser ocupado. De tal forma, que me parece até que há por aí alguns Nobres mandatários que já se estão a posicionar para essa ocupação. Mas isto é pura futurologia. A ver vamos…
    O Demétrio tem razão quando manifesta a sua expectativa no que respeita ao futuro de Nobre como político, ele que, de forma populista e demagógica, se pôs tanto à margem da política nestas eleições. E, como sabemos, não pode haver pior serviço prestado à democracia do que denegrir a política. Fazê-lo, como Nobre fez, é negar a própria democracia, pelo menos na forma como a conhecemos hoje.
    Não me parece, pois, que exista grande contradição de opiniões entre o Demétrio e o Manuel Araujo.

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  3. Manuel Augusto Araujo diz:

    É ponto assente que entre os participantes neste blogue a opinião de cada um só compromete quem a subscreve. A liberdade é total, a pluralidade de opiniões é, para nós, um sinal de vitalidade. Nem sempre as divergências de opinião entre nós se manifestam publicamente. No entanto este post do meu camarada, colega de blogue e amigo Demétrio, suscitam-me algumas reflexões que entendi tornar públicas. Estando no essencial de acordo com o seu conteúdo, discordo radicalmente da opinião que é expressa sobre Fernando Nobre. Claro que se procurou explorar a imagem laboriosamente construída em missões humanitárias, mas logo no primeiro debate com Francisco Lopes, o putativo candidato soarista, estrafegou o sorriso sonso no ranger de dentes com que desfraldou as bandeiras do populismo, da demagogia. Pretendeu demarcar-se da classe política, que ele malevola e desavergonhadamente atirou para dentro do mesmo saco, com um argumentário fascistoide e bolorento, a passar a mão pelo pêlo do bom povo português de má memória. Será possível que entre os seus apoiantes haja a tentação de, se obtiverem resultado eleitoral com alguma expressão, constituírem um movimento ou partido político. Será um caldeirão onde se irão misturar uma pseudo-esquerda desorientada com o blairismo à portuguesa do PS até uma direita desiludida, ávida da aparição de um salvador autoritário que meta o país na ordem. Nobre tentou encarnar essa figura, colocando-se acima dos partidos e dos políticos. A sua prestação foi confrangedora, patética. Pelo que se viu e ouviu nunca se demarcou da desumanidade do neo-liberalismo. Serve-se dela para construir a sua imagem. Nada há a esperar da sua prestação política actual e futura. Foi um acidente só possível porque o clube soarista não conseguiu encontrar outro cordeiro sacrificial. Com outro candidato talvez essa ideia mesmo efémera, provavelmente ainda com uma esperança de vida menor que a do PRD fosse possível, assim a claque soarista estará condenado a continuar a intrigar nos meios em que já actua. A aventura proto-fascista que fumega nas intervenções de Nobre não passará deste acto eleitoral. Mesmo com um resultado de dois dígitos tudo hoje ficará extinto.

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