Cultura, Setúbal

Convento de Jesus, Marca do Património Europeu

A inclusão do Convento de Jesus, em Setúbal, na lista inicial das Marcas do Património Europeu, corresponde ao reconhecimento internacional do mais importante monumento nacional de Setúbal e de um dos mais relevantes exemplares da arquitectura manuelina a sul do Tejo.

O objectivo destas Marcas, promovidas no âmbito do Conselho da Europa e da União Europeia, é “dar visibilidade aos sítios que celebram e simbolizam a integração, os ideais e a história da Europa”. Recorde-se que Setúbal foi testemunha da ratificação do Tratado de Tordesilhas, por D. João II (em cujo reinado foi fundado o convento), em 5 de Setembro de 1494. Facto, aliás, evocado em 1994, aquando das comemorações do quinto centenário do tratado e que aqui trouxeram o monarca espanhol.

A bela obra manuelina acolhe também o (actualmente encerrado) Museu de Setúbal, depositário de importantes colecções de pintura, sobretudo a do século XVI, escultura sacra, ourivesaria, azulejaria e outras artes decorativas, bem como ainda arte contemporânea.

Convento e Museu que têm sido motivo de orgulho e preocupação para setubalenses e todos os amantes do património. É que tem sido infindável o anda-e-pára da sua recuperação. Apesar dos avanços registados nos últimos tempos, o processo arrasta-se há mais de vinte anos e, quer o monumento, quer o museu (este só o pode ser com aquele), tardam em reabrir as suas portas ao público. O facto de o Convento de Jesus ser agora uma Marca do Património Europeu vem colocar maior pressão na resolução do problema.

Desde há muito que Setúbal debate e procura soluções para valorizar o Convento de Jesus e os espaços envolventes. Até princípios do século XX, o conjunto conventual estava praticamente fora da cidade. O acelerado crescimento urbano da cidade rapidamente o envolveu, deixando-o no meio de um conjunto de problemas de enquadramento urbano. Foram-se também acentuando os problemas decorrentes das inclemências climatéricas sobre tão centenária edificação. Apesar das muitas dificuldades, alguns passos foram dados, sempre lentamente.

O conjunto monumental do Convento de Jesus requer a existência de um Museu para compreensão de todos quantos o visitam. É esse o moderno tratamento dedicado a obras de notável valor – e temos bons exemplos em Portugal, caso da recente (mas também prolongada) obra de recuperação do convento de Santa Clara-a-Velha (Coimbra).

Recuperação, um longo processo

Em princípios dos anos oitenta do século passado começaram a desenhar-se as primeiras soluções para o Convento de Jesus e espaços envolventes.

O espaço fronteiro sul, o Largo de Jesus, foi uma das primeiras preocupações. Até porque precisava de ser requalificado. No princípio desses anos oitenta aquele largo era ainda um indescritível parque de estacionamento transformado em lamaçal no inverno e cuja elevada cota face ao edifício, resultado de séculos de sedimentação, esteve na origem das inúmeras inundações que degradaram a igreja, os claustros e outros espaços. Numa primeira fase chegou a ser realizado um concurso para se lhe encontrar uma solução – não teve sequência. Subjacente estava também a necessidade de rebaixar o piso desse largo à cota original da época da construção do Convento (sec. XV). A solução encontrada para o Largo de Jesus, concretizada em finais dessa década por acordo entre a Câmara Municipal e o Instituto de Património, procedeu ao rebaixamento do pavimento, sendo aquela que hoje conhecemos: um quase-deserto de pedra que tem nos jovens praticantes de skatte os seus principais admiradores…

Por solucionar ficou então a recuperação do próprio edificado (e do respectivo museu, assumido como um importante equipamento cultural do Município), bem como a restante zona de protecção do Convento, que se prolonga para norte até à Cerca. Conquistada a atenção da Administração Central, o processo avançou mas estacou pouco depois; nos primeiros anos devido a desacordo quanto ao respectivo programa de recuperação entre o Conservador do Museu, Fernando António Baptista Pereira (e a Câmara Municipal) e o autor do projecto, Pedro Vieira de Almeida. Assim se consumiram alguns anos. Entretanto e na perspectiva de uma rápida realização de obras, o Museu de Setúbal/Convento de Jesus havia fechado as suas portas (de que apenas se mantém acessível ao publico a Galeria de Pintura Quinhentista). Estávamos em 1992.

Um protocolo assinado entre a CMS e o IPPAR em 1997, era Manuel Maria Carrilho ministro da Cultura, parecia ir resolver os problemas, com recurso a novo autor e a novo projecto. O caderno de encargos do concurso para a recuperação do Convento de Jesus previa a realização de obras de restauro de todo o edifício e a adaptação para um espaço museológico, que deveria acolher o Museu de Setúbal, bem como a construção de um auditório, uma biblioteca, um novo edifício para serviços administrativos, educativos, de restauro e de arquivo, numa intervenção orçada em cerca de 2,2 milhões de contos. Mas, mais uma vez, os avanços foram escassos. Em causa, os inexistentes financiamentos. E tudo voltou a cair no impasse.

Foram os movimentos de opinião dinamizados por várias associações setubalenses, como a LASA e outras, apoiadas pelo Município, bem como as chamadas do tema à Assembleia da República, que viriam a chamar a atenção para a escandalosa degradação do conjunto conventual e a pressionar uma solução. Em 2007 os trabalhos (obras de beneficiação da Sala do Capítulo incluindo cobertura, fachadas, carpintarias e cantarias, execução da rede de drenagem de águas pluviais nas zonas Norte e Nascente do monumento, portal da fachada principal) foram finalmente lançados pelo IGESPAR (ex-IPPAR) com o objectivo de travar a degradação física do edifício.

Grande desafio para o Município setubalense será a valorização e integração – prevista em projecto – do Museu de Setúbal no Convento de Jesus. Uma obra da responsabilidade da autarquia, mas que se prevê que possa ser comparticipada pela Administração Central. Em 2007 o valor previsto para essa empreitada era de 500.000. Embora não de forma regular é já possível aceder aos belos claustros, nomeadamente para assistir a espectáculos. Mas falta-nos ainda percorrer uma parte considerável do caminho.

Breve nota histórica

A fundação do Convento de Jesus data de 1490 e a decorre de um voto de Justa Rodrigues Pereira, ama de D. Manuel I. O rei D. João II entrega a condução das obras a Diogo Boitaca, o primeiro arquitecto dos Jerónimos. As obras terão ficado concluídas por volta de 1500 embora em 1496 freiras clarissas ocupassem já o convento.

A capela-mor é revestida de azulejos de caixilho e nela foi instalado, em 1520-1530, um retábulo de pintura – considerado como um dos mais notáveis conjuntos da Arte do Renascimento em Portugal – que se encontra exposto na Galeria de Pintura Renascentista (visitável) , anexa à Igreja. Em frente à igreja, encontra-se um cruzeiro em mármore vermelho da Arrábida, que foi mandado construir por D. Jorge de Lencastre

Após a extinção das ordens religiosas e registada a morte da última freira, partes do Convento de Jesus viriam a albergar até 1959 um hospital. Com a construção do Hospital de São Bernardo, o Convento viria a conhecer, a partir de 1961, uma nova vocação, a de Museu da Cidade, função que se encontra encerrada desde 1992 (visitável colecção de pintura quinhentista).

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