economia, Política

Portugal 2011. O fim de um capítulo?

A perspectiva de uma intervenção do Fundo Europeu de Estabilização/FMI em Portugal está a constituir-se rapidamente como um cenário negro para os próximos anos. Negro porque são expectáveis os elevados custos sociais de uma tal intervenção. Será que chegámos ao final de um capítulo da história portuguesa contemporânea?

A intervenção do FEE/FMI – que é dada como certa pela generalidade dos meios financeiros europeus – é também a oportunidade para se reflectir sobre os caminhos que o país seguiu nas últimas três décadas. Porque parece ter-se chegado a um daqueles momentos de mudança radical de rumo.

Até 1974 a CEE era apenas um recurso lateral, mas também inacessível, para o regime autoritário. Os então territórios coloniais portugueses e o acesso às respectivas matérias-primas asseguravam uma outra dimensão aos mercados nacionais, num mundo ao«inda compartimentado. Mas a maioria dos portugueses vivia nos limites da pobreza e essa situação colonial era insustentável. Três dispendiosas frentes de guerra, indefensáveis perante a opinião pública internacional, ensombravam o presente o futuro; o país era sistematicamente condenado em todos os fóruns internacionais e objecto de sanções internacionais.

Com o 25 de Abril fechou-se um capítulo e abriram-se novas perspectivas. A inevitável mas traumática descolonização que se lhe seguiu – provavelmente a única possível no conturbado contexto e circunstâncias da época – deixou, no espaço de dois anos, Portugal reduzido ao seu rectângulo continental (mais as ilhas atlânticas). E a braços com graves problemas de toda a espécie, ditados pelas elevadas expectativas da população. Salvava-se o entusiasmo e o empenho em participar na fundação de um novo sistema sócio-político e quase de um novo país. E essa foi a principal preocupação dos portugueses nesses anos. Após o confronto político-militar de 1974-75 no interior do MFA, a “Europa está connosco” (*) de M. Soares venceu as propostas revolucionárias anti-capitalistas (ainda existia a União Soviética, o COMECON e o Pacto de Varsóvia!), opção que o povo sufragou e que tem mantido nas urnas, aliás com cada vez menor interesse. Foi então que se fizeram as principais opções – para o bem e para o mal -, que nos conduziram à situação de hoje.

Portugal mergulhou no sonho europeu – o seu novo “destino” após a perca do “império”. Nos primeiros tempos de CEE foi o “bom aluno”, cumprindo todas as orientações e regras fixadas por Bruxelas. Se é verdade que recebeu muitos milhões em fundos estruturais, tornando-se o país da União com mais quilómetros de auto-estradas, também é verdade que aceitou prescindir de importantes partes da sua anterior capacidade produtiva, como nas pescas ou na agricultura.

A economia cresceu nos anos noventa (3,04% de taxa média anual de crescimento do PIB) e a população aumentou os seus rendimentos, bem como o acesso aos bens de consumo. A facilidade de crédito mostrou aos portugueses a prometida sociedade de consumo. Entretanto, o estatuto de benjamim salvo das tentações revolucionárias dos anos setenta – que Portugal deteve nos seus primeiros anos de CEE/EU -, foi sendo anulado pelos sucessivos alargamentos a leste e pelo novo quadro de investimentos daí resultante. Portugal foi regressando à sua condição periférica na Europa e, mais grave, a sua visão de futuro foi diluída na UE. Os sucessivos governantes disso se encarregaram, como as consabidas debilidades nacionais.

Na viragem do século e com a adesão ao euro começou a constatar-se que a economia não crescia. As taxas de crescimento do PIB tornaram-se medíocres, quando não mesmo negativas: 0,59% foi o valor médio do crescimento anual da década (2001-2009). Quase todos, famílias, empresas, bancos e Estado acreditaram nas virtudes do dinheiro barato. E quando chegaram as crises internacionais, primeiro a financeira, dos sub-prime, que rapidamente alastrou ao sistema financeiro e depois à economia, ficaram vivamente expostas as nossas fraquezas centenárias. E não é que Portugal continua perto da posição que tinha quando, em 1891, entrou em bancarrota e esteve cerca de dez anos sem acesso a financiamento externo?

O sistema político-partidário rotativista (PS, PSD com ajudas pontuais do CDS) serviu de suporte ao modelo que o país escolheu. Têm ambos a mesma idade e estão intrinsecamente ligados. Está desacreditado e o empobrecimento ditado pela crise ainda aumentará mais essa convicção.

Algumas perguntas: a falência do modelo económico não é também a falência do modelo político? Que factor faltará para fazer detonar a sua implosão? O que lhe sucederá e quem poderão ser os novos protagonistas?

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2 thoughts on “Portugal 2011. O fim de um capítulo?

  1. Pingback: Coisas Giras de Portugal em 2012 (42) « O Peso e a Leveza

  2. Luis Almeida diz:

    “Após o confronto político-militar de 1974-75 no interior do MFA, a “Europa está connosco” (*) de M. Soares venceu as propostas revolucionárias anti-capitalistas…”.
    Há quanto a mim um factor nunca mencionado que proporcionou essa vitória ao PS. As palavras “socialismo” e “socialista” eram pronunciadas por toda a gente de todas as forças políticas ( incluindo o PCP ) como o objectivo a atingir para uma sociedade mais justa. Ora, o PS tinha essa palavra no nome…
    O PCP, por outro lado, falava ( e bem ) no rumo ao socialismo mas, tinha a temida ( devido a preconceitos incutidos ) palavra “comunista” no nome.
    Ora, em 1976, aquando das eleições para a Constituinte, a quem é que o povo achou que devia dar o voto ?…

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