Política

Triste e escavacada campanha eleitoral

O cidadão Cavaco Silva, em 2001, quando já tinha deixado as funções políticas havia 6 anos, comprou 100 000 acções da SLN ao preço nominal de um euro.

Em 2003, continuando sem exercer quaisquer funções públicas políticas, vendeu-as com uma mais-valia de 147 500 euros.

A sua filha fez uma transacção similar no mesmo período.

A SLN- Sociedade Lusa de Negócios era, naquele tempo, uma honorável entidade financeira, que comandava o BPN- Banco Português de Negócios, legalmente constituído e avalizado pelo Banco de Portugal e por todos os centros conhecidos como escrutinadores deste tipo de actividade.

O BPN tinha negócios com centenas de empresas dos mais diversos tamanhos e qualidades, com muitas colectividades sociais, desportivas e culturais, e, ainda, com o estado e com autarquias. Tinha balcões abertos onde entravam milhares de portugueses.

Dado que o BPN e a SLN não tinham as suas acções cotadas na Bolsa, como, aliás, grande parte das empresas portuguesas, as transacções accionistas (ou de quotas) eram feitas, de forma privada, entre quem tinha o poder legal para vender e comprar.

A esmagadora maioria dos cidadãos que, em 2001, tivessem 100 000 euros para investir, não conseguiria comprar acções da SLN, muito especialmente àquele preço nominal  de um euro.

Tal como em muitos outros negócios que hoje se continuam a fazer em todo o lado, só se concretizou aquela transacção especial – devido ao favorável preço nominal praticado – porque a administração da SLN (e do BPN) e o cidadão Cavaco Silva se entenderam.

Embora se possa especular sobre se houve favor no acto de venda, é impossível, com seriedade, afirmá-lo à luz daquilo que eram os rácios característicos da SLN. Por outro lado, mesmo que se quisesse forçar a suspeição, o cidadão Cavaco Silva não tinha, formalmente, quaisquer poderes públicos que pudessem ser úteis aos interesses privados e, portanto, se a administração da SLN vendeu mal, tratou-se de pura negligência. Isto é,  que outro motivo teria a SLN para ter uma atenção daquele quilate?

Se se tratasse de um responsável político em funções, ou de alguém que as tivesse deixado pouco tempo antes, a quem fosse vendida uma casa por um preço anormalmente baixo, seria razoável a suspeição. Agora, neste caso?

Contudo, a administração da SLN era, no fundo, o próprio Dr. Oliveira e Costa, ex-secretário de estado num governo do Prof. Cavaco Silva. E, também lá estava o Dr. Dias Loureiro, ex-ministro e ex-membro do actual Conselho de Estado.

Estes cidadãos eram, em 2001/2003, e foram-no até há pouco tempo, símbolos excelsos do empreendorismo económico. Para além do seu relevo político no PSD. E, nessa qualidade, tiveram relações com a fina flor dos negócios e da comunicação social.

É  improvável que o agora candidato soubesse, ou tivesse sequer indícios, em 2001, de que o BPN e a SLN eram uma monumental fraude e que, apesar disso, tivesse comprado as acções a um bom preço.

Em 2003, quando as vendeu a um preço superior, embora em nada especial no referencial financeiro então praticado, é mais provável que os seus conhecimentos, lhe sugerissem já a existência de algo anormal e irregular no andamento do BPN.

Bom, mas o cidadão Cavaco Silva realizou, entretanto, mais-valias de 147 500 euros no negócio, numa operação que não foi uma simples aplicação de poupanças. O que é muita massa para agitar as massas em tempos de crise.

Isto, e o facto dos citados ex-administradores da SLN/BPN se terem tornado, entretanto, o alvo de uma enorme desconfiança pública, principalmente no caso do Dr. Oliveira e Costa, judicialmente acusado, foi o bastante para que as candidaturas alimentadas pelo PS e BE ressuscitassem um caso conhecido, e esclarecido, presumia-se, desde 2009.

A candidatura de Manuel Alegre andava triste. A de Defensor não tinha dama. Cavaco seguia, tranquilo, em direcção ao triunfo.

Havia, portanto, que inventar perturbação. Isto faz parte dos cardápios de qualquer director de campanha, mesmo do mais mexeruco. É que se não der para ganhar, dará, no mínimo, para chatear. E aumenta a cotação do arquitecto eleitoral.

Às malvas se é necessário recorrer ao golpe baixo. E logo em questões de honra e honestidade! É que nem foi necessário perguntar ao Pavlov, porque se sabia, à partida, que o Prof. Cavaco Silva só poderia reagir desta forma perante a provocação:  mal!

Cometeu, o candidato, alguma ilegalidade ou, sequer, irregularidade? Não! O “problema” é que não quer explicar o “problema”, dizem, insufladas por vapores democráticos, as pítias socialistas e bloquistas!

Mas, não será verdade que, se existe alguma questão real e criticável em tudo isto, ela residiria nas mais-valias realizadas? E, repare-se, são mais-valias, e não, um lucro, que esse, teria, apesar de tudo, uma qualquer elaboração produtiva na sua génese.

As mais-valias resultam, em geral, de uma actividade ou acção especulativa, neste caso de natureza financeira. Comprar e vender acções é aplicar recursos financeiros num jogo especulativo. O que não deve ser confundido com a noção de poupança, como é o caso de quem adquire PPR, Certificados de Aforro ou tem, simplesmente, uma conta a prazo.

O Prof. Cavaco Silva andou mal quando disse, no início deste caso, há dois ou três anos, que se tinha tratado de uma simples operação de poupança. Percebe-se que, sendo ele um dos que introduziram o neoliberalismo em Portugal, se envergonha, agora, da livre e especulativa actividade capitalista. Pudera!

Mas, como podem os responsáveis políticos da campanha ligada ao candidato PS e ao BE criticar a prática de especulação bolsista, se, vários deles, têm ou tiveram carteiras de acções?

Por isso, para fugirem ao debate político do essencial, aqueles actores preferem chafurdar, como sempre fizeram, nas charcas da insinuação torpe e, muitas vezes, anónima.

Conheço, infelizmente, e por experiência própria, aquilo de que é capaz certa gentalha política da nossa praça para tentar ganhar eleições.

Mas, esta pulsão atávica, muito característica da mediocridade nacional, não é exclusiva daquelas agremiações partidárias. A acusação, entretanto lançada contra o candidato Manuel Alegre, focando o seu “texto literário”, produzido sob encomenda do BPP, outra insigne instituição do mundo financeiro, embora bem esgalhada na ressaca, é fruto da mesma ronha lusa. Com uma pequena diferença : – neste caso não são mais-valias que estão em causa, mas sim o resultado de uma “prestação de serviços”. Que, diga-se, nem foi cara, porque o poeta até estava deputado ao tempo da criação. Escusava era, agora candidato, ter improvisado mal a resposta, embora seja de assinalar o seu inultrapassável estilo proclamatório.

Onde nos levará tudo isto?

A muitas horas de conversa “analítica” nas televisões feita por comentadores de alta tarifa? Sem dúvida.

À conclusão de que qualquer pessoa, uma vez exercidas funções políticas relevantes, nunca mais deixa de ser visto, no seu futuro, como “político”, e, por isso, o candidato Cavaco Silva não deveria recusar-se a esclarecer, mais uma vez, as coisas feitas entre 2001 e 2003? Talvez.

Mas, de facto, o verdadeiro e necessário combate à política destruidora e desumana perpetrada pelas organizações subjacentes aos candidatos maiores na presente peleja eleitoral, esse, não é por esta via sinuosa que será realizado.

Por muito difícil que pareça ser o caminho a percorrer, e que o é na realidade para todos os que nele sofrem; por muitos derrotes eleitorais e sociais que se experimentem, como aqueles que, é quase certo, se avizinham; por muito difuso que esteja o ponto de chegada e avariados os aparelhos de navegação, uma coisa é certa: deixar de lutar é desistir, desistir é parar, e parar é morrer.

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