Cultura

Em memória de Bartolomeu Cid dos Santos

Auto-Retrato 1986

A viagem pelos anos que vamos somando fazem-nos adquirir a sageza simples de aprendermos que poucas coisas são essenciais na vida. Uma, provavelmente a maior entre todas, é a amizade. Quando ela se interrompe porque o outro se ausenta do convívio, o vazio é enorme. Nem sempre é possível pranche-lo.
Hoje, dia de fim de ano, uma vez mais sei que uma coisa essencial da minha vida me vai fazer falta: o fim de ano na casa de Sintra do meu amigo Bartolomeu.

Durante o ano, raro era o mês em que não nos cruzávamos várias vezes. Os motivos eram muitos. Desde trabalhos em comum ao mais simples comércio intelectual ou beber um copo sem mais arredores. Tínhamos o imenso prazer de estarmos os dois, com ou sem mais amigos. De Sintra a Tavira, ou no caminho inverso, Bartolomeu fazia paragem obrigatória em Grândola, onde no momento, eu estacionava. Não raramente quem metia pés à estrada era eu. Lá ia de Grândola para Sintra ou Tavira. Nunca falhava um telefonema para a Fernanda, quando ela não estava connosco e andava pela metrópole londrina.

Foi assim que vi sair do porta-bagagens do seu automóvel as caixas das “Signatures of the Invisible”, projecto que fez para o London Institute e o CERN, expostas pela primeira vez no chão de um parque de estacionamento de um restaurante grandolense. Em Tavira, já tínhamos falado desse projecto. Ideias e desenhos espalhavam-se pela mesa de trabalho. Como sempre nada era terminante. A ideia inicial crescia, alterava-se até encontrar a forma final, que não era definitiva.

No meio dessa quase regularidade de encontros existiam duas rotinas. Uma, almoço na última semana de Agosto, por vezes coincidente com o seu dia de aniversário. Outra, o fim de ano. Um grupo de umas cinquenta pessoas, almoço, trinta no fim de ano (re)encontravam-se em alegre convívio. Grupo político e socialmente heterogéneo, de cépticos de direita a assumidos comunistas, como o Bartolomeu, de grandes secâncias culturais que, não sendo um território politicamente neutro, era arena de confrontos de outra grandeza.

No ano de 2008 lá estávamos. As badaladas da meia-noite em Sintra não eram coincidentes com o estoirar do foguetório no arco do Cabo da Roca às Azenhas do Mar, a iluminar a terra estendida aos pés do terraço da casa de Sintra. Depois os convivas, atravesando a porta do ano novo, foram saindo. Lembro o José Cutileiro, o Luis Santos Ferro, o José Brandão, o Júlio Moreira, o Manuel Botelho, o Júlio Pomar, a Isabel Santa-Rita, e muitos outros sós ou acompanhados. O Bartolomeu, já bastante debilitado pela doença, pouco depois do dobrar do ano tinha ido repousar. Alguns, mais retardários, mais íntimos, estavam quase à porta de casa quando, chamados por ele, voltam ao cenário principal.

O Bartolomeu, a Fernanda, o Ruben, o Valter Vinagre, a São, a Ana e eu voltamos a tilintar o cristal dos copos para começar uma nova rodada convivial que só terminou pelas cinco horas da manhã. Não sabíamos que esse seria o nosso último fim de ano na casa de Sintra.

Desde aí, as passagens de ano, são diferentes. Há a imensa dor da ausência do Bartolomeu.

Sempre pensei que os meus amigos eram imortais, nunca os veria desaparecer e acabo solitariamente a ler, reler Celan “ a morte é uma flor que só se abre uma vez/mas quando abre, nada se abre com ela/Abre sempre que quer, e fora de estação.”

Agora quando mais um fim de ano se aproxima, não resisto a publicar este texto, que quero homenagem ao meu amigo Bartolomeu, um dos grandes artistas e humanistas do século XX.

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7 thoughts on “Em memória de Bartolomeu Cid dos Santos

  1. Caro Manuel,

    Encontrei este seu post por acaso, quando investigava online o trabalho do Bartolomeu. Comoveu-me muito as suas palavras pois identifico-me muito com elas e com os lugares e situações que descreve. A acrescentar à sua muito fiel descrição de quem era o Bartolomeu e de como era conviver com ele, falta a alusão a como ele também adorava estar rodeado de jovens e como não tinha qualquer pejo em ajudar jovens artistas a seguir o seu caminho. Fui uma dessas jovens que teve o privilégio de aprender com o Barto. Estive num almoço de Agosto e numa passagem de ano, penso que a de 2001, eram realmente mágicos os momentos em que ele e a Fernanda contavam histórias. Cheguei também a ir com ele para Tavira algumas vezes onde o assisti e ficarão para sempre na minha memórias as escadinhas da Fonte da Pipa, quando as subia às 9h da manhã e ouvia ecoar por ali abaixo a música da Antena 2 que se escapava de dentro do atelier, assim como os jantares na tasca do Falcão, sempre acompanhados por um telefonema à Fernanda a descrever o que cada um de nós estava a comer! Recordarei para sempre a sua sabedoria, simplicidade, amizade, enfim, uma pessoa excepcional. Obrigado pela recordação!

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  2. Obrigada M. Augusto por esta tão bela homenagem ao nosso querido e saudoso amigo Bartolomeu dos Santos! Sem duvída que nunca, mas nunca mais as passagens de ano terão aquele sabor atmosfera, calor e fraternidade tão especiais e únicos de um casal, tão especial e único na sua generosidade, liberalismo, inteligência, sabedoria, e ‘joie de vivre’, como o Barto e a Fernanda!

    Saudosamente, Inês Amado

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  3. Bartolomeu uma ausência que no entanto está presente na memória dos passos percorridos e do trabalho desenvolvido, a casa de Sintra era um navio aportado, nesses dias de festa Bartolomeu estava no seu território e partilhava-o com prazer, cruzavam-se amigos tilintavam os copos, era sempre uma festa.

    Na minha opinião, o principal contributo deste homem para o mundo foi a sua integridade que fazia questão de exclamar de diferentes modos, a justiça e a reflexão sobre o mundo em que viveu e que através da sua arte lançava pistas e provocações.
    A sua dedicação ao ensino do seu imenso saber era generosa e envolvente, obrigado amigo.

    Miguel Martinho
    1 Jan. 2011

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  4. Samuel Rama diz:

    Bartolomeu será sempre o professor! Artista insatisfeito e pedagogo por instinto, sabia que era preciso fazer violência ao pensamento para continuar a criar. Quantos homens e mulheres, ex – alunos seus, receberam e replicam hoje a sua generosidade e disponibilidade. Quantos já sabem que há um momento em que a pedagogia da arte falha e a única resposta que se deve dar é o incitamento ao trabalho! Quantos ainda se mantêm alerta e a desconfiar daquilo que fazem? Quantos de nós continuam a procurar companhia para discutir ideias, emoções e percepções? E finalmente quantos continuam a ficar intrigados com a atmosfera, mistério, memória e actualidade das suas gravuras, das suas caixas…?
    Obrigado Barto!
    Brindemos ao Barto e ao seu trabalho singular que todos os dias vai irradiando!
    Samuel Rama

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  5. Maria Crabtree diz:

    Obrigada Afilhado.

    Estou em Londres, sempre presente. O Natal custa mas o fim de ano e bem pior. Lemro-me que no ano passado vieste com a Ana passar o fim de ano comigo e que, dado o rigor da neve, acabamos separados na passagem do ano. A Ana e tu foram para o Wigmore Hall ouvir a Emma Kirkby e eu fiquei em casa sem coragem para enfrentar o frio e ir para a ponte de Westminster ver o fogo de artificio.

    Vou contar ao Bartolomeu o que se passa e reencaminhar o teu post para varios amigos. Amanha continuarei o dilaogo. Comovida, sempre muito e tao feliz por ser tua madrinha e “padrinha” ja que nao houve quem substituisse o Bartolomeu na sua funcao de padrinho e eu acumeulei …

    Beijos a Ana e para ti

    Fernanda

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