Cultura

TAS, 35 anos de teatro em Setúbal

No dia 26 de Dezembro de 1975 realizou-se em Setúbal o primeiro dos milhares de espectáculos que TAS Teatro Animação de Setúbal apresentou até hoje. Trinta e cinco anos depois continuam a fazer teatro. Acabaram de estrear “Cantar Lorca, Momentos de Flamenco”.

Cresci com o TAS. Era eu um miúdo quando vi a “A Maratona” (um texto de Claude Confortès), a primeira peça que a companhia apresentou ao público. Estávamos pois em finais de 1975. Vê-la-ia outras vezes. Impressionava-me o facto de a encenação incluir uma banda que tocava ao vivo, acompanhando o passo dos maratonistas António Assunção (1945-1998), Carlos Daniel (1952-1996) e Francisco Costa.

Vivia-se então a euforia dos primeiros tempos de Liberdade e o Maio francês de 1968 ainda estava quente. A descentralização teatral, ou seja o estabelecimento de companhias de teatro profissionais na província, era uma ideia querida a muitos artistas da época num país com sede de cultura e em que quase tudo o que fosse arte (e também o teatro) se concentrava na capital.

O actor e encenador Carlos César (Carlos Alberto Dias de seu nome, n. 1943 – f. 2001) e os “maratonistas” da peça fizeram parte desse movimento e fundaram o Teatro Animação de Setúbal.

A primeira representação, que aqui se evoca,teve lugar no salão de festas da então FNAT (actual INATEL). Desde então o TAS produziu oficialmente 114 produções e realizou milhares de espectáculos e animações.

A companhia possui um longo reportório (*) e durante mais de uma década organizou o Festival de Teatro de Setúbal nos claustros do Convento de Jesus, iniciativa que tão boa memória deixou ao público setubalense da época.

A cidade habituou-se a apreciar o trabalho de uma companhia profissional, tendo-lhe o Município atribuído em 1991 a sua Medalha de Honra; que se juntou ao estatuto de utilidade pública (1987) e à Ordem de Mérito atribuída em 1999 pelo Presidente da República.

Carlos César, pater familias

Carlos César é, ainda hoje, figura de referência da companhia. Actor e encenador de talentos reconhecidos, C. César construiu um extenso curriculum de homem de teatro, com importantes desempenhos em cinema e televisão .

Foi ele quem desafiou a primeira tripulação de uma nau que, apesar de todas tormentas passadas ao longo de trinta e cinco anos, se mantém em funcionamento regular. (Veja aqui a entrevista de Carlos César ao “Setubal na Rede”, em Dezembro de 2000, sobre os primeiros tempos do TAS).

Durante muitos anos C. César foi o encenador, o actor, o presidente da direcção da cooperativa (personalidade jurídica constituída em 1984 para enquadrar a companhia). Era ele quem batalhava afincadamente para manter o Teatro. Uma personalidade que, em pouco tempo, moldou a companhia à sua imagem, à força da sua energia e das suas ideias. Viveu para o teatro e conseguiu criar uma obra que perdura.

Mas a acção de C.César não deixou de ser controversa. Fosse no plano das opções artísticas com que conduziu a companhia – apesar dos êxitos junto do público, a sua opção pelo teatro-revista / musicais, nos anos noventa, foi muito criticada por diversos sectores da arte. Ou pela sua difícil relação com outros agentes teatrais de Setúbal, que nunca lhe perdoaram o facto de a hegemonia do TAS os ter empurrado para as margens.

Carlos César foi, até à data da sua morte, a força motriz da companhia. Pela sua mão passaram pela companhia nomes hoje tão (re)conhecidos como Luísa Barbosa (f.2003), Asdrúbal Telles (f.2007), Alexandre Sousa, Pompeu José, Lídia Franco, António Banha, Cristina Cavalinhos, Luís Aleluia, Fernando Luís, Nuno Melo… de entre tantos outros.

A morte de C.César foi um duro golpe para o TAS e para Setúbal – fica para a história da cidade o velório à sua urna celebrado em pleno palco do Fórum Municipal Luisa Todi. Apesar da surpresa e do choque, a companhia reagiu porque tinha massa crítica para continuar o projecto. O actor Duarte Victor assumiu a direcção nesse momento difícil.

Problemas e desafios

Apesar de completar três décadas e meia de existência, ao TAS quase sempre faltou (e continua a faltar) uma verdadeira sala de espectáculos dimensionada para a sua actividade.

Instalado desde há muito no Teatro de Bolso, esta pequena mas simpática sala de pequena lotação e com diversos problemas de adaptação à realização de espectáculos, nunca correspondeu em pleno às necessidades da companhia, limitando as opções artísticas e o tipo de produções apresentadas.

Com a aquisição do antigo Cine-Teatro Luisa Todi (actual Fórum Municipal) pela Câmara de Setúbal, no início dos anos noventa, o TAS passou a ser a principal entidade artística residente na sala e Carlos César assumiu uma quase-direcção daquele equipamento cultural. Datam dessa época os grandes êxitos de bilheteira com as produções de teatro-revista musicado, de que são exemplo “À Coca” (1990), “Era uma vez em Setúbal” (1991), “O Pai Tirano” (1992) ou “O Gato” (1995). Infelizmente nunca foi decidido um modelo claro de gestão da sala, vogando-se numa indefinição que não permitiu à companhia (e à própria sala) a garantia de estabilidade para a sua programação.

Ao contrário da generalidade das companhias de teatro mais jovens, o TAS foi incorporando ao longo dos anos um quadro de pessoal (que actualmente conta com cerca de dezena e meia de actores e técnicos) que lhe veio a criar sérios problemas financeiros, nomeadamente pelo condicionamento criado à produção. E isto, apesar de esforços realizados na primeiros anos da década de 2000 e que se traduziram na rescisão de contratos por parte de alguns dos seus actores.

Sempre apoiado, em maior ou menor medida, pelo Ministério da Cultura, têm sido os apoios da Câmara sadina – 200.000 € em 2010, no que é um dos mais vultuosos apoios do município a entidades culturais do concelho, bem como em instalações (Teatro de Bolso), – que tem permitido a continuidade da companhia.

Se nos primeiros vinte e seis anos da história do TAS a companhia conheceu um Director, Carlos César, desde 2002 sucederam-se à sua frente, sucessivamente, os actores Duarte Victor, Carlos Curto, Célia David, Miguel Assis e, recentemente, de novo Carlos Curto.

Os desafios são cada vez mais difíceis. E o financiamento da estrutura é certamente dos maiores. A Carlos César era apontada a virtude de se saber “mexer” nos corredores dos poderes e de saber bater à porta certa para garantir apoios financeiros. Mas essa época passou e a companhia, se perdeu o seu pater familias, ganhou um funcionamento mais participado e com maior rotação na sua direcção.

O trabalho cénico tem-se mantido regular, estreando a companhia duas a três produções anuais e mantendo um programa para itinerância. Faltar-lhe-á visibilidade extra-muros, porventura devida à escassa circulação dos seus trabalhos por outras salas do país. O entrosamento com as redes nacionais de teatros – de que Setúbal está arredada devido ao encerramento do seu Fórum para obras – poderá contribuir para um futuro melhor.

(*) O reportório inclui textos de Moliére, Shakespeare, Brecht, Tchekov, Strindberg, Ionesco, Pirandello, Pinter, Cocteau, Anouilh; autores portugueses contemporâneos como Lauro António, José Jorge Letria, Rui Zink, Fernando Gomes, Fausto Correia Leite ou José Eduardo Agualusa e clássicos como Almeida Garrett, José Régio, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Jorge de Sena, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Sophia de Melo Breyner Andresen.

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