Cultura, Política

Segredos… ou nem tanto

Vivemos numa época que tem tanto de fantástico como de terrível. A ideia de segredo  é certamente uma das que está sofrer o maior abalo.

Antigamente e recorrendo a primeira definição de dicionário (*), segredo queria dizer:  “Coisa que não deve ser sabida por outrem “. Mais que classificar uma informação como segredo – e há quem tenha essa competência atribuída por normas ou leis – é hoje mais difícil guardá-lo. E é-o porque, associado às capacidades e à natureza acelerativa das redes, irrompeu e ganhou foro uma nova dimensão da vida em sociedade – o interesse público, a outra face do interesse privado.

Provavelmente achamos bem que haja segredos; mas adoramos saber os segredos dos outros. É da natureza humana. Daí que tenham florescido as indústrias que se dedicam aos segredos – das revistas de mexericos às agências de informação (espionagem) que, aliás, não nasceram ontem.

Conhecem-se hoje processos em “segredo de justiça”, “segredos pessoais”, “segredos militares”, “segredos bancários” ou “segredos profissionais”. Os segredos militares dos americanos aparecem agora regularmente publicados na internet no sitio WikiLeaks; tal como muitos “segredos pessoais” são  escritos e comentados em sítios como o facebook, o twitter e outros. De qualquer forma se um segredo deixa de o ser, foi porque quem tinha que o guardar não o soube fazer ou porque alguém teve a habilidade de a ele aceder.

O que é resta então da intimidade das pessoas, das organizações e dos países? Muito pouco, se passar por plataformas electrónicas. Os orçamentos milionários dedicados à protecção informática de dados não parecem impedir que um “hacker” (às vezes com outras ajudas!) experimentado a eles aceda e lhes dê a utilização que entenda. E a facilidade de instantaneamente os levar aos quatro cantos do mundo… Como sabemos a informação é um bem precioso. E o sentido da sua utilização é como o da energia nuclear – ora para fins pacíficos ora para fins letais. A propósito do escândalo WikiLeaks dizia-me um amigo, “se as informações fossem sobre os cubanos, davam-lhe o prémio Nobel”. Pois é!

O que é que mudou relativamente ao passado?

A imprensa e a comunicação. Se a imprensa, nos dois últimos séculos, foi lentamente criando uma rede que permitiu a disseminação limitada (geográfica e temporal) da informação, com a economia digital dos bits tudo acelerou, tornando o mundo na “aldeia global” que Marshall McLuhan (1911-1980) anteviu. Comprar todos os exemplares do jornal à chegada à estação (como já aconteceu) ou destruir o telégrafo já não são opções para impedir a divulgação de um segredo ou de uma notícia que interessa a muitos.

Por outro lado, a afirmação da esfera pública. O direito da sociedade discutir, analisar e apreciar. Se essa função era (ainda é) mediada com a participação da imprensa, hoje os espaços de debate e os fóruns são múltiplos e permitem a que cada um possa ser um actor nesse debate.

Vivemos pois numa época de banalização dos “segredos”. Todos os dias circulam milhares de segredos na internet e nas redes de dados. Ninguém julgue que vai conseguir guardar um segredo. Basta inseri-lo numa base de dados, tornando-o num documento digital, para aumentar significativamente a possibilidade de deixar de o ser… Agora sim percebemos o completo alcance do novo conceito estratégico da NATO quando se refere a ataques cibernéticos; Peter Assange, o patrão do WikiLeaks, que se cuide que já está com a aliança à perna.

segredo (ê), s. m., 1. Coisa que não deve ser sabida por outrem; 2. Coisa que se diz a outrem mas que não deve ser sabida de terceiro.; 3. Reserva, discrição.; 4. Arte, ciência.; 5. Meio pouco conhecido de fazer uma coisa.; 6. Receita secreta; 7. Lugar de uma prisão onde se conservam os presos que devem estar incomunicáveis; 8. Estado do prisioneiro incomunicável; 9. Esconderijo; 10. Mola oculta; 11. Meio de acção sabido apenas por alguns; 12. Causas desconhecidas; 13. O íntimo, o âmago.

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