Política

Greve geral e sindicalismo

"Carregador de flores" (1935), de Diego Rivera

Questionam-se muitos de nós: para que servirá a greve geral?

Diria que, em termos imediatos, provavelmente não servirá para alterar o danoso orçamento do Estado que teremos em 2011 nem as gravosas medidas nele contidas, penalizadoras para grande parte da população, recentemente anunciadas e que irão provocar um cortejo de misérias. Porventura seria diferente se o país parasse, de facto.

Porquê então greve geral?

Em primeiro lugar, as razões centrais que a justificam: os aumentos generalizados de impostos, a diminuição generalizada das prestações sociais, a eliminação/diminuição de deduções fiscais, a diminuição de salários na Administração Pública (ver manifesto aqui)….. Não são razões de somenos; afectam negativamente milhões de pessoas.

Em segundo lugar porque a greve geral é ainda das poucas manifestações cívicas com eficácia social, económica e mediática ao dispor de todos e de cada um. E digo – ainda – porque, com a crescente precarização e instabilidade dos vínculos laborais é, cada vez mais difícil exercer este direito constitucional.

Em terceiro. A sociedade não pode estar limitada aos mecanismos eleitorais de expressão política que se realizam de quatro em quatro anos. A greve é um poderoso acto político, porque mostra o descontentamento com opções que são políticas

Em quarto. As formas de luta requerem organização, concertação, planeamento, sob pena de não terem qualquer impacto. Cada um de nós, isolado, não é nada; juntos podemos ser uma força – “juntos temos o mundo na mão”, como diz o poema de António Macedo. Há séculos que o Homem descobriu isso. A greve geral é apenas uma manifestação desse princípio básico.

Uma palavra sobre os sindicatos. Os sindicatos são um produto de outras épocas. De épocas bem mais violentas e intolerantes que a actual. Em que os grevistas eram frequentemente reprimidos com cargas policiais e prisão. A própria afirmação legal e institucional dos sindicatos fez-se com muitas lutas e muitos sacrifícios. O Portugal anterior ao 25 de Abril de 1974 conhece bem o que isso foi. Mas após terem alcançado o papel e o reconhecimento a que tinham (e têm) direito, certamente que muitos sindicatos se “aburguesaram”, passando a beneficiar de mecanismos e apoios estatais, sendo reconhecidos cmo “parceiros sociais”. Mas com o passagem do tempo a imagem que importantes sectores da população têm dos sindicatos está desfocada; segundo um estudo recente dois terços dos trabalhadores portugueses não está sindicalizado e quatro em cada cinco nunca fez uma greve. Os sindicatos e as organizações representativas dos trabalhadores não podem cruzar os braços perante este panorama.

Provavelmente muitos sindicatos estarão envelhecidos e estáticos, repetindo rotinas, como os seus filiados se apercebem. Claro que não podemos generalizar. Mas a responsabilidade pelo que se passa nesses sindicatos (como noutras associações) não é dos seus sócios? Que outras alternativas já conseguimos gerar para substituir, com um mínimo de eficácia, os nossos “velhos” sindicatos? Vamos prescindir deles em troca de quê?

Há um caminho que o sindicalismo não pode perder de vista: o da proximidade às pessoas; o da renovação dos seus quadros; o da compreensão e da proposta de soluções para os novos fenómenos do mundo do trabalho – as novas relações laborais assentes na precariedade e na intermitência.

A greve geral actualiza também a discussão que é preciso fazer sobre o sindicalismo. Precisamos que ele seja mais forte e mais pujante e, sobretudo, solidamente implantada junto das respectivas classes profissionais.

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2 thoughts on “Greve geral e sindicalismo

  1. Luis Almeida diz:

    É mesmo ! Temos de reconhecer que “dois terços dos trabalhadores portugueses não …sindicalizados” é muita gente.
    Há uns anos, falei com uma moça que trabalhava numa loja dentro de um Centro Comercial. Ela ignorava completamente que o patrão não tinha que ficar a saber se ela se sindicalizasse! Que poderia ir directamente ao sindicato, inscrever-se. E pagar as quotas, digamos de 3 em 3 meses sem que o patrão tivesse meios de vir a saber! Quantos trabalhadores ( sobretudo os “a prazo” ) deixarão de se sindicalizar por um medo deste tipo ?…

    Gostar

  2. Pingback: A Greve Geral pela Blogosfera « A Educação do meu Umbigo

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