Costumes

O c*r*lho como muleta oratória

A frase do título não é minha, mas gostava que fosse. O autor, um obscuro juiz do Tribunal da Relação de Lisboa descoberto por Eduardo Pitta, acaba de dar uma inestimável ajuda a todos os que, descontrolados em ambientes sociais mais formais, ejaculam precocemente uma sonora caralhada capaz de deixar meio mundo estarrecido pela audácia da ordinarice.

Bem sei que, por esta altura, o ordinarão já sou eu, que, com a que se segue, já aqui postou três caralhadas sem mais nem menos. É do caralho… E vão quatro.

Na verdade, já estou um pouco encaralhado com a quantidade de ordinarice que hoje pus em letra de forma. Nunca me tinha acontecido… Mas não tanta como a que o douto juiz Calheiros da Gama utilizou para encaralhar um sargento que se sentiu ofendido por um subordinado lhe ter pedido para ir , adivinhem… para o caralho.

O juiz considerou que, afinal, a coisa nem sequer é grave e, para isso, gastou uns bons milhares de caracteres a explicar que não tem mal nenhum um subordinado enviar o seu superior hierárquico, neste caso um sargento, para o caralho. O que nos alivia sobremaneira, pois agora, sempre que aqueles senhores guardas nos mandarem parar na estrada, ou porque não temos a lâmpada do pisca a piscar ou o farol não alumia convenientemente ou outra parvoíce qualquer, podemos sempre enviar o senhor para aquela grande reserva onde se se encontra já o tal sargento. Não faz mal nenhum…

Escreve-se no sumário do acórdão do douto juiz que a «palavra “caralho”, proferida por militar (Cabo da Guarda Nacional Republicana), na presença do seu Comandante, em desabafo, perante a recusa de alteração de turnos, não consubstancia a prática do crime de insubordinação por outras ofensas, previsto e punível pelo artigo 89º, n.º 2, alínea b), do Código de Justiça Militar. Será menos própria numa relação hierárquica, mas está dentro daquilo que vulgarmente se designa por “linguagem de caserna”, tal como no desporto existe a de “balneário”, em que expressões consideradas ordinárias e desrespeitosas noutros contextos, porque trocadas num âmbito restrito (dentro das instalações da GNR) e inter pares (o arguido não estava a falar com um oficial, subalterno, superior ou general, mas com um 2º Sargento, com quem tinha uma especial relação de proximidade e camaradagem) e são sinal de mera virilidade verbal. Como em outros meios, a linguagem castrense utilizada pelos membros das Forças Armadas e afins, tem por vezes significado ou peso específico diverso do mero coloquial».

Só agora me apercebo de como seria bom que se pudesse usar o caralho, sistematicamente, como muleta oratória. Mas, que caralho, as pessoas poderiam ficar ofendidas…

Ora então tomem lá um belo pedaço de oratória, extraído do site do Instituto das Tecnologias de Informação na Justiça, e se quiserem mais instruções jurídicas, directamente da Relação de Lisboa, como usar a a muleta, vejam aqui o acórdão do TRL:

Segundo as fontes, para uns a palavra “caralho” vem do latim “caraculu” que significava pequena estaca, enquanto que, para outros, este termo surge utilizado pelos portugueses nos tempos das grandes navegações para, nas artes de marinhagem, designar o topo do mastro principal das naus, ou seja, um pau grande. Certo é que,independentemente da etimologia da palavra, o povo começou a associar a palavra ao órgão sexual masculino, o pénis. E esse é o significado actual da palavra, se bem que no seu uso popular quotidiano a conotação fálica nem sequer muitas vezes é racionalizada.
Com efeito, é público e notório, pois tal resulta da experiência comum, que CARALHO é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo.
Por exemplo “pra caralho” é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno demais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas (exº: “chove pra caralho”; “o Cristiano Ronaldo joga pra caralho”; “moras longe pra caralho”; “o ácaro é um animal pequeno pra caralho”; “esse filme é velho pra caralho”).
Por seu turno, quem nunca disse ou pelo menos não terá ouvido dizer para apreciar que uma coisa é boa ou lhe agrada: “isto é mesmo bom, caralho”.
Por outro lado, se alguém fala de modo ininteligível poder-se-á ouvir: “não percebo um caralho do que dizes” e se A aborrece B, B dirá para A “vai pró caralho” e se alguma coisa não interessa: “isto não vale um caralho” e ainda se a forma de agir de uma pessoa causa admiração: “este gajo é do caralho” e até quando alguém encontra um amigo que há muito tempo não via “como vai essa vida, onde caralho te meteste?”.
Para alguns, tal como no Norte de Portugal com a expressão popular de espanto, impaciência ou irritação “carago”, não há nada a que não se possa juntar um “caralho”, funcionando este como verdadeira muleta oratória.

Standard

2 thoughts on “O c*r*lho como muleta oratória

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s