Geral

Terrorismo, terrorismos

3º Geração/Fassbinder

Com a proximidade da cimeira da NATO, em Lisboa, o terrorismo, a ameaça terrorista está na ordem do dia. Chegam notícias de cartas armadilhadas, detectadas e neutralizadas pelas forças de segurança. Os governantes visados desfazem-se em elogios às forças policiais. Ninguém se interroga se um terrorista minimamente competente acredita que uma carta bomba endereçada, através dos serviços de correio, a um primeiro-ministro, rodeado de seguranças por todos os lados, conseguirá chegar ao seu destino e, sobretudo, se cumprirá o seu objectivo.

Remetentes e destinatários acabam por confirmar a sua confiança nas forças de segurança. Sabem que esse cenário tem repercussões na comunicação social, propaga uma imagem de perigo, de um perigo que não ultrapassa a folha de papel impressa, as ondas da rádio, o ecrã televisivo. São ameaças feitas à medida que acabam por ser a melhor demonstração das teses de Paul Virillo, quando equaciona que nas sociedades modernas, os governos geram medos para aparecerem junto dos cidadãos eleitores como os seus salvadores, esquivando-se desse modo a promoverem qualquer perspectiva de futuro e dignidade, trabalhando para a sua sobrevivência por terem perdido qualquer horizonte ideológico e aceitarem reduzir-se a sustentáculos do status quo, ao serviço dos interesses económicos de corporações cada vez mais concentradas e poderosas.Se essas ameaças via postal foram palcos preparatórios para a opinião pública, logo se seguiram cenas que anunciavam consequências mais graves. Mantendo a cimeira da NATO em pano de fundo, vários especialistas em segurança, comentadores políticos, jornalistas falam da presença na cidade de Lisboa de um grupo profissionalizado em acções violentas, o Black Bloc. São especialistas em se infiltrarem nas manifestações de protesto para as transformarem em teatros de destruição. Há uma mensagem subliminar transmitida ao público em geral, que desconfia das manifestações e sumariamente condena essas acções, e, em particular, aos que estão predispostos a legitimamente protestar contra a realização dessa cimeira em território nacional. É um aviso de que se arriscam a ser involuntariamente envolvidos nessas cenas, com perigo da sua integridade física. Aviso que tende a desmobilizar manifestantes, advertindo-os que estão condenados a ficarem entalados entre duas violências: a dos profissionais da violência civil e a dos profissionais da violência das polícias.

O tão propagandeado Black Bloc, pelos vistos corre mundo sob o olho vigilante das polícias. Continua, quase impunemente, a espalhar uma violência gratuita e espectacular por onde passa e passa sempre por onde é esperado, sendo os seus elementos repetidamente filmados e fotografados. Dão a conveniente imagem que as manifestações de protesto contra as cimeiras do G-20, do Bilderberg, da NATO, do FMI, do Banco Mundial, dos vários braços armados com as mais diversas armas, sejam notas ou mísseis, descambam sempre em automóveis a arder, vidros partidos, sangue a jorrar, anarquia nas ruas.

A grande curiosidade é esses grupos serem quase omnipresentes. Isso traz-nos à memória um filme de Fassbinder, a 3º Geração, onde se defende a tese que, na actualidade, o terrorismo é uma invenção capitalista para justificar o aumento de protecção do próprio capitalismo.

O terrorismo, o cinismo dos terroristas contemporâneos, o seu completo desrespeito pela vida humana deve ser clara e fortemente condenado, seja ele praticado por quem quer que seja. Mas deve-se sublinhar a traço grosso que o terrorismo é hoje, como foi antes, a forma mais eficaz de decapitar, de anular a violência revolucionária.
O que se deve assinalar são as evidências de uma situação bem actual em que as ficções com que se embrulham ameaças terroristas com propósitos securitários, acabam por ter o efeito perverso de envolverem em difusos nevoeiros as reais, perigosas e desumanas ameaças terroristas que irrompem, quase diariamente, por todo o mundo.

São tão perigosas e condenáveis quanto o é a cimeira da NATO, os seus novos objectivos estratégicos irão comprová-lo, um poder em declínio com muito poder militar o que igualmente é uma real, perigosa e desumana ameaça a pairar sobre o mundo.

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One thought on “Terrorismo, terrorismos

  1. Luís Almeida diz:

    Se vier a haver “terroristas” serão provocadores infiltrados. Mas estou certo que organização da Manifestação estará, como sempre está, preparada para eles. Nem eu nem a minha família próxima deixaremos de a integrar contra o anacronismo que é a NATO e pela saída dela de Portugal…

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