Setúbal

O vereador Calimero

Jorge Santana, vereador independente eleito pelo PSD para a Câmara Municipal de Setúbal, apresentou, numa das últimas reuniões de câmara, uma proposta de demolição do Fórum Municipal Luisa Todi.

Conta o Jornal “O Setubalense” de 5 de Novembro que o «referido vereador sugeriu “abandonar este projecto” e pensar-se “numa solução alternativa” e, muito embora reconhecendo “que muito dinheiro foi gasto”, Jorge Santana propôs “lançar um concurso de ideias, com estimativa de custos”, sugerindo que “seria até melhor que uma demolição e a limpeza do local fosse efectuada”, prosseguindo com a ideia de que “entretanto poderia suprir esta zona tão carente de estacionamento até que o anunciado silo fosse construído e se desse andamento ao novo projecto”».

A autora da notícia, Ana Maria Santos, baseou-se, para escrever o texto, não nas suas notas, mas sim numa declaração escrita que o vereador fez distribuir aos jornalistas na reunião de câmara, o que elimina qualquer probabilidade de a jornalista se ter enganado, ouvido mal ou ter interpretado de forma errada o que ouviu.

Na edição seguinte do jornal, o vereador, abespinhado com o que lera (e, provavelmente, arrependido de se ter lembrado de tão avançada ideia), faz publicar direito de resposta para lavar a honra e desmentir que alguma vez lhe tivesse passado pela cabeça construir um silo auto no local do cinema. Os jornalistas “deturparam” o que disse, o que, aliás, garante Santana, que noutra vida foi presidente do Vitória de Setúbal, já aconteceu noutras ocasiões em que os pérfidos repórteres lhe truncaram e deturparam ideias e declarações, sabe-se lá com que intenções. Um verdadeiro incompreendido…No mesmo dia em que o “Setubalense”, a 8 de Novembro, publicava o direito de resposta de Santana, Augusto Gonçalves, jornalista do “Jornal de Setúbal”, volta a pegar no assunto e, com a declaração escrita do vereador na mão, interpreta-a exactamente da mesma forma. Uma semana depois, a 15 de Novembro, novo direito de resposta, agora no “Jornal de Setúbal”, do vereador Santana, duplamente indignado com o tratamento que havia sido dado à brilhante proposta. Santana não desmente o que está escrito na notícia, mas lamenta que se tenha dado demasiada importância a algumas das coisas que ele próprio disse na reunião de câmara. Ou seja, disse, mas não era para ser levado a sério, o que cria um grave problema aos jornalistas, que reside em saber quando deve ser levado a sério o vereador.

O epílogo da história pode ainda não ter sido apresentado, mas, na última reunião de câmara, realizada no dia 17 de Novembro, o zangado Santana escreveu-lhe mais um capítulo ao apresentar a votação uma moção sobre os deveres da comunicação social, ou melhor, um enunciado que contém um rol de lugares comuns sobre o que deve ser o jornalismo, com os quais até o gato da minha vizinha concordaria, o que fez com que a coisa, que não contém uma única, repito, uma única referência ao que lhe deu origem fosse aprovada por unanimidade. Obviamente, ninguém poderia deixar de concordar com o que ali estava escrito, o que muito deve ter satisfeito o eleito, que assim atingiu o extâse com a aprovação de uma vingançazinha que, daqui a três meses ninguém saberá o que quer dizer, a quem se refere ou por que é que foi apresentada.

Pelo caminho, o edil, que pouco cuidado tem com o que diz e escreve e com as respectivas consequências políticas e públicas, que se arrepende, ainda que não o confesse, dos disparates que propõe (ou alguém se arrepende por ele…) contribuiu para pôr em causa a credibilidade de dois jornalistas, o mais precioso bem que pode ter quem escreve em jornais.

O vereador consegue, ainda, produzir uma moção absolutamente inconsequente, própria de um pequeno e incompreendido Calimero a quem se dá cada vez menos importância.

O que Santana fez foi dar o dito por não dito e demonstrou que nem ele confia já no que escreve ou diz. Os jornalistas da cidade, obviamente, serão os próximos a não confiar no que o ouvem dizer ou no que escreve. Ainda bem…

Nota 1: Já depois da publicação deste post, o jornalista Augusto Gonçalves, em defesa da sua honra, respondeu, nas páginas do jornal, ao vereador Jorge Santana. Para que esta história fique completa, aqui se deixa o texto escrito pelo jornalista.

Nota 2: A Jornalista Natália Abreu, correspondente, em Setúbal, do jornal “Público”, acrescentou mais uma peça a esta história. Na reunião de Câmara de 2 de Dezembro de 2010, no período destinado ao público, leu uma declaração sobre a posição de Jorge Santana que deu origem a tudo isto.Aqui fica a declaração, para memória futura:

Muito boa noite, senhora presidente, senhores vereadores, minhas senhoras e meus senhores

O meu nome é Natália Abreu, sou jornalista, e a minha presença neste lugar, jamais ocupado em outra ocasião, prende-se com o facto de pretender fazer publicamente um agradecimento que gostaria que ficasse registado.

Não sem antes lamentar a ausência do vereador Jorge Santana, autor primeiro do motivo que aqui me traz, quero pois, agradecer encarecidamente aos senhores vereadores aqui presentes o tempo que dispensaram, durante a última reunião pública deste órgão, à classe profissional a que pertenço. Sinto-me lisonjeada e, diria mais, emocionada, por verificar que, numa cidade que todos dizem repleta de problemas e de situações de difícil resolução, a actividade jornalística seja um ponto de preocupação unânime entre vossas excelências.

Praticamente, nos últimos dois anos, tive oportunidade de partilhar esta sala convosco durante as reuniões públicas do executivo. Desde a tomada de posse dos actuais eleitos apenas por duas vezes falhei estes encontros. Uma delas foi no passado dia 16 de Novembro quando a minha profissão foi elevada a causa merecedora de largos minutos de discussão. Como lamento esta minha falta!

No sentido de que este meu agradecimento fosse respeitador da dignidade com que trataram os jornalistas, pedi atempadamente aos serviços uma cópia da gravação do período de antes da ordem do dia da reunião transacta. Infelizmente essa gravação não estava disponível porque não existe! O equipamento não gravou as intervenções de vossas excelências e, como tal, tive de munir-me de fontes várias (assim faz um jornalista responsável) para poder aqui estar hoje perante vós.

Perante a ausência desse meio áudio, essencial para uma interpretação mais correcta do que aqui se viveu, pedi ainda, nas minhas preces, a São Francisco de Sales que me inspirasse de modo a não cometer injustiças.

Na essência, diga-se, que o documento por vós aprovado na última reunião não me merece qualquer reparo, à excepção de uma pequena falha gramatical que relevo. Concordamos todos que a declaração aqui proferida e unanimemente aprovada não oferece qualquer tipo de questão. Como tese, digamos assim, não podia estar mais correcta. E agradeço uma vez mais o facto de nos terem recordado, a nós profissionais do jornalismo, como devemos exercer a nossa actividade. Quem sabe a inspiração da última reunião não se multiplica e teremos, emanado do grupo de vereadores eleitos para governar os destinos desta cidade e deste concelho, novas teses doutrinais e éticas dedicadas aos professores, aos médicos, aos arquitectos, engenheiros e advogados, padeiros, canalizadores, electricistas e demais profissionais tão ou mais merecedores da vossa atenção quanto os jornalistas.

A minha primeira reacção perante a leitura da moção que aqui me traz foi recorrer a um adágio popular. Dizem que a sabedoria popular é profunda… quem sou eu para o questionar?! Por isso só me lembrei de dizer “Bem prega Frei Tomás!”…

Quando os senhores vereadores falam em ética e conduta deontológica quero acreditar que sabem ao que se referem e conhecem perfeitamente o significado das palavras: ética e conduta.

Ora perante isto, e reafirmando aqui que tenho acompanhado os vários encontros públicos que se realizam nesta sala, fui obrigada a munir-me de outra ferramenta de trabalho, companheiro diário das minhas andanças, o dicionário, para que não restassem dúvidas. Assim:

Ética – substantivo feminino. Parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral. Conjunto de regras de conduta.

Conduta – Galicismo para comportamento

Posto isto não é que a referida frase da sabedoria popular se aplica na perfeição?! BEM PREGA FREI TOMÁS!

Desculpem-me a pergunta, mas como é que se permitem os senhores dizer-nos como devemos fazer o nosso trabalho e apelar ao cumprimento da ética e das regras de conduta?! Acaso temos assistido todos às mesmas reuniões?! A reuniões onde tantas e tantas vezes palavras como “respeito” e “educação” são atiradas ao chão e espezinhadas?! Onde as regras de conduta e ética democrática são mandadas, desculpem-me a expressão, às couves?! – Reforço aqui apenas que estas são perguntas de retórica, não espero que me respondam a este desabafo.

Acredito que todos nós, jornalistas e políticos, temos como objectivo no exercício das nossas actividades, tornar Setúbal, a cidade e o concelho, um lugar melhor! Queremos engrandecer a herança de Bocage e Luísa Todi. Queremos que Setúbal seja vista e conhecida pelos melhores e mais nobres motivos. Tenho certeza que nisto estamos de acordo, muito embora tantas vezes fique com dúvidas ao assistir a algumas cenas que se passam dentro desta mesma sala… mas isto, deixem lá, é também um desabafo.

Faço jornalismo desde o dia 20 de Setembro de 1991, há quase duas décadas portanto. Foi esta a profissão a que me dediquei durante aproximadamente metade da minha vida. Nunca tive pretensões de saber tudo! A cada dia que passa aprendo mais e mais… tenho, certamente, mais anos de profissão enquanto jornalista, do que alguns dos senhores terão dedicado à política! Isto só para dizer que já assisti a muitas coisas oriundas da classe política local e nacional. E já pouco me surpreende! Ou quase nada! Nunca tive também qualquer ensejo de vos ensinar a fazer o vosso trabalho, como não explico ao médico como deve realizar a sua consulta, ou ao canalizador como deve reparar um cano. E aqui voltamos aos adágios populares… Diz o povo “cada macaco em seu galho!” e eu, também aqui, estou perfeitamente ao lado da sabedoria popular.

O que esteve por trás da entrada desta moção na discussão pública, volto a pedir desculpa pela simplicidade do meu português, “não me aquece nem arrefece!”. Mas incomoda-me! Ávidos de surgir perante as luzes do palco, muitos são aqueles que não se contentam com o facto de permanecerem na escuridão do pano, ou, pior ainda, de ficarem esquecidos nos bastidores.

Sempre que querem os cinco minutos de fama, os senhores vereadores chamam os jornalistas. Se nós aparecemos e fazemos tudo quanto vos agrada somos os maiores, se por outro lado decidimos que aquilo que nos têm a dizer não merece duas linhas de atenção “aqui d’el rei” que estamos comprados, somos incompetentes ou servimos interesses de A, B ou C.

Lamentavelmente ou não, aquilo que foi escrito e que levou à moção aqui aprovada não foi negado! Ninguém teve coragem de dizer que os jornalistas mentiram! Até porque não o podia ter feito! O que se questionou foi o sentido crítico dos jornalistas! Ora, desculpem lá, era o que mais nos faltava! Mas acaso nós jornalistas questionamos as prioridades de vossas excelências?! Então quem vos dá o direito de questionaram as nossas?! – Reforço, são perguntas de retórica.

Confesso que não fiz notícia sobre o referido evento porque entendi que a notícia da referida declaração, que levou à posterior moção aprovada por esta câmara, não passava de um disparate! A única novidade de todo o documento era aquilo que os meus camaradas de profissão, mais que uma vez atacados pelo autor da declaração, tornaram público. Se não era esse o interesse de quem proferiu a declaração, temos pena! O nosso sentido crítico é uma das nossas ferramentas de trabalho, provavelmente a mais importante de todas! Cabe-nos a nós, perante um documento desta natureza, encontrar aquilo que é realmente o ponto de interesse. Se esse ponto de interesse não é partilhado pelo autor do documento, volto a dizer, temos pena! Mesmo que esse ponto de interesse possa classificar-se, reafirmo, como um disparate.

E volto aqui a reforçar que não fiz notícia do disparate porque, em quase 20 anos de profissão já ouvi tantos dentro desta câmara que, se os fosse publicar a todos não chegariam 16 páginas de um jornal, nem a emissão contínua de uma rádio ou televisão durante 24 horas… Um documento jornalístico dessa natureza traduzir-se-ia certamente num livro humorístico de fazer inveja a Herman José, Nuno Markl ou ao saudoso Raul Solnado.

Só para concluir, e porque teremos naturalmente de trabalhar todos uns com os outros, dizer que nada me move contra os senhores e senhoras! Espero e desejo que sejam capazes de fazer o vosso trabalho como políticos e, neste caso, como vereadores, o melhor que sabem e podem. Eu, pelo meu lado, tentarei fazer o meu o melhor que sei e posso. E, como estamos a caminho da quadra natalícia, deixar como desejo que não misturem todos os jornalistas no mesmo saco porque há os bons e os maus, assim como há bons e maus políticos e, certamente, os senhores não gostariam que os medíssemos todos pela mesma bitola.

Muito obrigada pela vossa atenção.

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One thought on “O vereador Calimero

  1. Ana Maria Santos diz:

    Assino por baixo a totalidade do texto da Natália, a quem agradeço a “lavagem da honra” de nós, jornalistas, que tentamos – alguns há muitos anos – fazer desta uma cidade melhor, dando o nosso melhor em prol da informação prestada aos cidadãos a quem cabe, posteriormente, decidir quem os governa.
    Não respondi ao senhor vereador Santana por vários motivos mas, principalmente, porque tenho um grave defeito: não sei ser políticamente correcta e, quando me sinto injustiçada e injuriada perco a calma e as boas maneiras e, assim sendo, prefiro ficar calada para não ofender ninguém…
    Concordo com cada uma das palavras ditas, pela minha colega, na referida sessão de Câmara e acrescento mais uma coisinha: vejam lá se aprenderam alguma coisa com esta intervenção…

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