Política

A Grande Tanga



Uma tanga pode ser uma pequena peça de vestuário. Apenas um pedaço de tecido colocada à volta das ancas de nativos de países tropicais. Mas, também pode ser a tanga de Ipanema ou, até, uma sofisticada peça de roupa intima.

Andar de tanga não é, seguramente, o mesmo que ficar de tanga.

Grande tanga poderia, então, significar tão-somente uma grande peta contada por alguém que se queria divertir à nossa custa.

Contudo, tanga, também pode significar moeda. Ou seja, valor, preço, finanças, economia!

Ora bem: é num sentido amplo que se aqui se utiliza aquela expressão popular, ou seja, pretende-se falar de uma grande aldrabice que afecta as finanças e a economia, pessoal e colectiva, isto é, que nos deixa de tanga.

Como já perceberam estou a escrever sobre a monumental encenação política criada em torno do OE – Orçamento de Estado 2011.

Com poucas excepções, todos aqueles que têm acesso garantido aos órgãos de comunicação social de massas, peroram sobre a absoluta necessidade de se aprovar um OE “restritivo, rigoroso, austero”.

Desde  políticos de diversos matizes “democráticos”, até aos gurus da economia e finanças, e, sempre, com a intermediação de jornalistas especializados na tradução dos discursos cabalísticos,  garantem-nos que só assim se evita que Portugal vá ao fundo!

Contudo, se atentarmos melhor, veremos que todos eles têm uma filiação comum: o grande centrão dos interesses capitalistas que nos conduziu à crise extrema.

E, poderíamos perguntar, como iria o país ao fundo se não é um navio? Nem uma jangada de pedra, aliás!

Quando muito seria um avião:  segundo o governador do Banco de Portugal o país iria ter dois dos quatro motores em sub-rendimento: o do consumo público e o do investimento! Assim, teríamos apenas  que compensar essa falha aumentando a potência nos outros dois: o das exportações e o consumo privado. Mas, poderá o consumo privado aumentar, quando diminuem as remunerações dos trabalhadores e pensionistas, e aumentam os impostos sobre o consumo? E as exportações, será que podem aumentar, de forma segura e significativa, sem aumentar a base de Produção Económica?

Todos os gurus e políticos do centrão, que andaram a destruir de forma sistemática a produção económica nacional nos últimos trinta anos, vêm,  agora que ela está tuberculizada,  exortar ao aumento das exportações? De quê?

Assim, talvez não seja tonto pensar que o avião vai mesmo estatelar-se no solo. Será sinal disso a fuga sub-reptícia, de parte da tripulação que está a saltar de pára-quedas – refiro-me à noticiada fuga da banca estrangeira, que já teria, só no segundo trimestre de 2010, retirado 31 700 milhões de euros do mercado financeiro português? E tudo isto enquanto os passageiros da classe económica – cerca de 1,5 milhões de portugueses que recebem menos do que 600 euros mensais – está amarrado à cadeira!

Os portugueses já estão assustados, esmagados por discursos cataclísmicos, antes mesmo de serem garrotados pelo rigor orçamental!

A ficção mirabolante é-nos contada da seguinte forma: o “Estado” está gordo e é esbanjador e, portanto, tem que ser posto na ordem, ou seja, tem que se diminuir o “deficit orçamental” em cada ano, de modo a que diminua a dívida pública externa e, assim, diminuir o risco do país face aos “mercados” financeiros.

Como se faz isso? É muito simples, dizem-nos: tal como nas nossas finanças familiares, cortando nas despesas (comendo menos) e, se possível, aumentando as receitas (trabalhando mais)! Assim, os portugueses remunerados por conta do estado e seus aparentados (3,5 milhões de pessoas) deverão, a “bem da nação”, ver os seus salários diminuídos! Aqueles que trabalham no sector privado apanham por tabela, isto é, os patrões, na senda do esforço patriótico, cortam-lhe nos salários e direitos.

Acontece, porém, que esta fábula está viciada e só lhes serve porque extrai  uma moral oportunista.

E quem se aproveita da crise e das propostas resolução feitas pelo governo, sob a batuta da UE e do Banco central Europeu?

Desde logo “os mercados”, ou seja, a grande finança internacional, que ainda não há muito tempo teve crédito a baixos juros dado pelos bancos centrais (1%) para se safar da bolha especulativa onde se meteu, e que agora exige cerca 6,7 % pela emissão de dívida pública portuguesa (Obrigações e Títulos do Tesouro). Mas não só: vejam-se os lucros fabulosos das empresas do PSI 20, que já foram consolidados ou, pelo menos, foram anunciados para 2010! É um escândalo inaceitável!

O centro da crise é-nos apresentado focado no “défice público” e no “ajustamento orçamental” até 2013.

Contudo, como já nos esclareceram alguns economistas sérios e rigorosos, o problema estrutural prioritário deve ser o “défice externo” e o “endividamento externo global”.

Porque Portugal produz pouco daquilo que consome e, também, porque se deve colocar na equação, o dinheiro que a banca privada portuguesa andou a pedir emprestado aos bancos externos, para, com ele, alimentar o consumismo alienante e o negócio especulativo das casas e terrenos. Recordam-se da folia do crédito fácil que nos era proposto diariamente pelos bancos?

Aliás, mesmo no que à divida pública diz respeito, uma parte importante do aumento da probabilidade do incumprimento (de pagamento) que lhe é associado, explica-se, de facto, pelo aumento da procura de dívida pública alemã e não pela diminuição da procura de dívida pública portuguesa.

Este aumento da probabilidade de default e do spread, por sua vez, causa um agravamento das condições de financiamento da dívida pública portuguesa, pois “sugere” aos mercados (que não são parvos, mas são estúpidos) que o risco de incumprimento da dívida pública portuguesa aumentou. E quem determinou que assim sucedesse? A chefe do governo alemão, ou seja, a patroa da União Europeia.

De facto, o sistema financeiro alemão tem vindo a redireccionar a poupança das famílias da Alemanha para títulos de dívida pública do próprio país. Com o aumento dessa procura de dívida pública alemã sobe o preço da dívida pública alemã e diminui a taxa de juro (yield), que se move na razão inversa do preço. A taxa de juros da dívida pública alemã a 10 anos caiu de cerca de 3,6% para 2,29% (1 de Outubro). A portuguesa, já vai nos 6,7%, não obstante ter havido entendimento entre o PS e o PSD quanto ao OE 2011.

A União Europeia está moribunda. Que viva a Europa!

Standard

2 thoughts on “A Grande Tanga

  1. Pingback: O Mundo Doente, uma Cimeira inútil « Praça do Bocage

  2. Luís Almeida diz:

    Demétrio Alves, finalmente ! Muito pedógico o seu post! Então essa de a possiblidade de incumprimento da nossa dívida pública estar associada ao aumento da dívida pública alemã, duvido que haja muita gente ( mesmo atenta ) que saiba…`
    A palavra de ordem do momento para toda a gente decente ( e não apenas de esquerda) devia ser RUPTURA ! Só que, e há muito que me convenci disso, ela não é possível no quadro ( melhor, no colete-de-forças ) DESTA UE!
    Ou a destruímos ( remendá-la não chega ) a partir de dentro ( mas para isso precisávamos de massas europeias em ebulição e/ou de um GUE/NGL mais forte ), ou lutamos pela saída.
    Ou, no mínimo, e como etapa intermádia, saíamos do euro…
    Um abraço e, benvindo !
    Luís Almeida
    ( eu sou aquele agente de viagens que tratava das passagens aéras da C.M. Loures, no tempo da sua presidência, nomeadamente ao Maputo, aquando da geminação com a Matola, lembra-se? )

    Gostar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s