Cultura, Geral

No Centenário de Paul Bowles

 

foografia de Daniel Blaufuks, in "My Tangier"(Difusão Cultural)

 

Este ano comemora-se o centenário de Paul Bowles (1910-1999), músico e escritor norte-americano, viajante das sete partidas do mundo – numa das suas muitas entrevistas que explica a diferença entre turista e viajante e por que nunca seria turista: “ (…) a diferença tem a ver com o tempo. Enquanto um turista costuma voltar a correr para casa ao cabo de semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais que a outro, desloca-se com vagar, durante anos de uma parte da terra para outra (…) outra diferença importante entre o turista e o viajante é o turista aceitar sem reservas a sua própria civilização, mas o viajante não, compara-a com as outras e rejeita as que não lhe agradam – que, continuando a empreender longas viagens, estacionou em Tanger durante mais de cinquenta anos, com a sua mulher, a escritora Jane Auer. A sua casa tornou-se um pólo magnético para artistas de todo o lado, mas sobretudo e naturalmente norte-americanos. No hall do seu apartamento era normal empilharem-se malas de viagem de William Saroyan, Tenesse Williams, Losey, Gore Vidal, Visconti, Carson McCullers, William Burroughs, Cage, Ginsberg, Bacon, Kerouac, Dali, Orson Wells, um mundo inteiro de artistas atraídos não só pelo trânsito intelectual mas também pelo ambiente exótico de Tanger, cujo estatuto particular durante a guerra possibilitou a instalação e manutenção de um ambiente de grande permissividade sexual e uma certa liberdade no consumo de drogas.

Paul Bowles, escreveu contos, romances e novelas, da poesia abdicou a conselho de Gertrude Stein, em casa de quem nos anos 50 tinha estado em Paris, compôs música para filmes. Uma ópera sua, “The Wind Remains the Same” foi mesmo estreada em Nova Iorque com a direcção de Leonard Berstein, divulgou escritores marroquinos, fez recolhas musicais no norte de África.

É sobre este intelectual de vida intensa, iniciada ainda antes da adolescência e que se prolongou por quase noventa anos, e múltiplos interesses que é uma das personalidades fascinantes do século XX, um século de tempo escasso para tanta gente e acontecimentos marcantes, que de 21 a 23 vai decorrer em Lisboa, um colóquio multidisciplinar “Do you Bowles I”. Na Faculdade de Letras, especialistas da obra de Bowles, vindos de todo o mundo, farão comunicações, enquanto na sua biblioteca acontece uma exposição bibliográfica intitulada “Pirates at Heart”. Na Cinemateca estreia-se o filme “You Are Not I” de Sara Driver e documentários de Jean Martin Domingues e Karin Debbagh e no Museu do Oriente realiza-se um concerto com António Rosado, Anabela Duarte e Richard Horowitz.
Paul Bowles é bem conhecido em Portugal. A sua obra literária está quase toda editada, o filme de Bertolucci “O Chá no Deserto”, baseado no livro “O Céu que nos Protege” obteve bastante sucesso e, em 2007, o Centro Cultural de Belém dedicou-lhe uma semana multi-disciplinar tendo como centro dinamizador uma exposição de fotografias de Daniel Blaufuks do livro “My Tangier” com belíssimas fotos do escritor e dois textos seus inéditos, escritos expressamente para essa publicação.

Dos romances devem-se referir os clássicos “O Céu que nos Protege”, “Deixai a Chuva Cair”, “Missa do Galo”, a autobiografia “Memórias de um Nómada” (todos na Assírio&Alvim). Excelente é o já referido “My Tangier” (Difusão Cultural) fotografias Daniel Blaufuks, textos de Bowles.

O ciclo agora anunciado é mais uma oportunidade para conhecer este escritor que sem fazer juízos de valor sobre os personagens dos seus romances, os coloca neste mundo contemporâneo absurdo, atravessado pelo tédio, a crueza, a corrupção, onde eles se arriscam, atraiçoam até serem alcançados ou pela loucura ou pela morte.

Publicado em Leituras/ Guia de Eventos de Setúbal em Junho 2007

DEBAIXO DE CHUVA PARA O ABISMO

Tanger, Zona Internacional durante a II Guerra Mundial. Tânger dos desencontros e encontros entre duas culturas, a árabe e a ocidental, onde todo o mundo se cruza nos salões dos residentes ocidentais, nos hotéis lotados com personagens potencialmente dedicadas à espionagem, das empresas com actividades de fachada, dos bares, dos bordeis, do Casbah, da chuva que cai sem intermitências. Tanger, onde Paul Bowles estaciona definitivamente, depois de ter viajado por meio mundo, de ter conhecido meio mundo que aí o vai reencontrar. É essa Tânger, que deixa de existir em 1952 quando perde o estatuto de zona franca, o centro de “Deixa a Chuva Cair”, o segundo romance de Paul Bowles. (*) O protagonista é um jovem americano Nelson Dyar que desagua em Tânger em fuga à vida monótona de empregado bancário nova-iorquino, continuando a viver uma vida parda, sem entender nada das culturas que coexistem na cidade, das pessoas com quem se cruza (retratos das figuras da sociedade, em que participa uma caricatura do próprio autor) flutuando ao ritmo da chuva, que persiste em cair, o humor instável pelas ruelas da medina. Os personagens de Paul Bowles percorrem a vida nas fronteiras do abismo e Dyar (o único personagem totalmente inventado) caminha inevitavelmente para a precipício, debaixo de um céu de nuvens pesadas que se abrem na chuva incessante que percorre as páginas deste romance impar. A ler já.

(*) O primeiro é “O Céu que nos Protege” (Assírio&Alvim) que Bertolucci filmou chamando-lhe “Chá no Deserto”.

Deixa a Chuva Cair                                                
Paul Bowles
Editora: Assírio &Alvim
Tradução: Ana Maria Freitas
Capa: Daniel Blaufuks
Março 2007

Título original: Let it Come Down
1ªedição original 1972
1ª edição Portuguesa: Deixai a Chuva Cair
Trad.: Carla Vaz
Editora: Dom Quixote
1992

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