Cultura, Setúbal

Nunca se faz nada em Setúbal!

Um texto publicado num suplemento promocional distribuído com a edição de 25 de setembro do jornal “Sem Mais”  provocou-me uma surpresa absoluta, coisa que já raramente me acontece com a leitura de jornais.

O texto em causa está estampado na página 3 do suplemento de promoção da nova peça do Teatro Animação de Setúbal — Valparaíso, de Don DeLillo —  e, quem ali caia desprevenido, só suspende a crença absoluta na narrativa jornalística quando o autor na “notícia” cita o “presidente da Câmara Municipal de Setúbal António Medeiros”.

Aparentemente, a notícia, ficcionada, como se percebe nesse momento, destina-se a comprovar um ponto de vista do autor do texto, que, pelas iniciais assinadas no rodapé, deverá ser de Raul Tavares, o director do “Sem Mais”.

Leia-se então a peça:

TAS luta contra miserabilismo cultural

Um estudo recente, da responsabilidade da Cofape Mope, arrasa a frequência da população de Setúbal em espectáculo como o teatro ou eventos similares. Num universo de 70 mil pessoas — censos da população activa no concelho — apenas 7825 indivíduos dizer ter já ido ao teatro, sendo que menos de metade o fez mais que três ocasiões

São números preocupantes, que espelham a realidade a apetência cultural da população sadina, huma altura em que a principal companhia da cidade , o Teatro Animação de Setúbal (TAS) apresenta um índice notável de criação e produção de espectáculos. “Voltamos a um certo miserabilismo cultural, que parece ser uma chaga desta cidade e deste concelho, expplica à agência URBE Ondina Maria, da direcção do TAS.

O estudo da Coface Mope, empresa especializada na medição de audiências de espectáculos culturais e entretenimento, incide nos últimos cinco anos, tendo considerado ainda este período como o de “menor afluência do público” nesta variante cultural, em comparação com os cinco anteriores.

As razões para este regime nefasto são de vária ordem, com destaque para uma “genética demográfica” onde predominam famílias com baixa escolaridade e problemas sociais, enfatiza a este jornal José Cordeiro, ociólogo com obra vasta no campo das micro-realidades urbanas.

Também a Câmara Municipal de Setúbal mostra-se, pela primeira vez, preocupada com estes sinais, tendo em conta a previsível abertura do Teatro Bocage, cuja reabertura está prevista para o início do próximo mês de novembro. “Não se percebe muito bem estas quebras de público. Temos boa oferta, vamos ter um teatro com grande nível e muitas tradições do nosso povo no teatro de revista, por exemplo”, questiona António Medeiros, actual presidente da Câmara Municipal de Setúbal.

Certo é que o futebol e as touradas aparecem no topo deste estudo, com frequências no Estádio do Bonfim à volta de 80 por cento da população activa, sendo que 75 por cento dos inquiridos afirmam ter ido mais do que três vezes ao futebol em Setúbal. (…)

Ou seja, só não vai ao teatro quem não quer e só não participa na actividade cultural da cidade quem não quer. Julgo que é este o ponto de vista do autor do texto. Se assim é, estou plenamente de acordo.

O texto tem uma relação direta com o tema peça de DeLillo — a imprensa e os seus agentes — mas tem, sobretudo, uma relação directa com a realidade setubalense. Por isso me parece que o ponto de vista subjacente a esta ficção jornalística é a de que existe, de facto, oferta cultural em Setúbal, e o TAS é, provavelmente, o melhor exemplo dessa oferta. O que não existe é público para essa oferta. Há anos que defendo esta opinião, mas normalmente esbarro com uma objecção que me parece perfeitamente destituída de sentido. Argumenta sempre quem é confrontado com a existência, evidente, desta e de outras ofertas (basta consultar, mensalmente o Guia de Eventos de Setúbal, editado pela autarquia) que há pouca informação. “Ah, pois… Se tivesse sabido, até tinha ido, mas ninguém me disse nada; não vi nada em lado nenhum sobre isso”, etc.

Na verdade, o problema reside, como escreveu a brincar o Raul Tavares, nos problemas sociais e na baixa escolaridade do público setubalense que, apesar de ter variadíssimas formas de se informar à mão, pouco faz por isso e prefere culpar sempre os outros pelo que diz ser a falta de iniciativas, de espectáculos.

Só o TAS, em 35 anos de existência, produziu 113 espectáculos. Por que se insiste então que em Setúbal não há oferta cultural?

Quando se fala disto lembro-me sempre da história que o Manuel Bola me contou há tempos sobre a disponibilidade dos setubalenses para ir ao teatro e que reproduzo aqui, sem a exatidão necessária, mas com o contexto que se impõe. Contava ele que, um dia, um amigo lhe pediu, quando o encontrou na rua, bilhetes de borla para o TAS. O Bola lá recordou que o TAS era uma companhia profissional e que os seus actores e técnicos vivam das receitas da bilheteira, também. O amigo do Bola, confrontado com o preço dos bilhetes, achou caro. Tempos depois, em novo encontro casual, o mesmo amigo contou entusiasmado ao Manuel Bola que tinha ido ao teatro… a Lisboa. “Epá, fui ver o La Féria, um espectáculo!”. “E quanto pagaste“, perguntou o Bola, recordando a outra conversa das borlas. O amigo ficou envergonhado.

Em Setúbal há oferta cultural, há e haverá ainda mais equipamentos culturais (vamos ter uma nova casa da cultura nas antigas instalações do Círculo Cultural de Setúbal e o Fórum Luisa há de ser reaberto), existem bons actores, encenadores, músicos, corais, grupos de dança. E não é de hoje… Quem afirma o contrário ou está distraído ou passa a vida na bola ou na tourada, como revelava o tal estudo fictício da Cofape Mope…

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One thought on “Nunca se faz nada em Setúbal!

  1. Pingback: “Valparaíso” pelo TAS « Praça do Bocage

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