Geral

Leo Ferré – 7

A finalizar este Agosto em que recordámos Leo Ferré, nada melhor do que abrir com “Preface”, um manifesto sobre a poesia, a arte e a vida num tempo em que “ vivemos uma época épica e não temos nada de épico”

A música mais bela são as canções de reivindicação diz Ferré na canção que se acabou de ouvir. L’Opression é uma canção inquietante sobre a opressão, sobre os olhos da opressão que nos perseguem por todos os cantos e recantos desta sociedade que não tem uma gota de dignidade para nos oferecer. Refira-se a curiosidade de quem ilustrou a canção usar imagens de Durão Barroso e André Glucksman, dois conhecidos ex-militantes maoistas que trocaram a extrema-esquerda pelo neo-liberalismo capitalista, e se tornaram pilares da opressão, para ilustrar o contrabando ideológico de quem se vende por um prato de lentilhas, mesmo quando são lentilhas douradas

Em Merde à Vauban, um preso vitupera o sistema prisional que o retirou da vida, da família, do amor. A referência a Vauban é feita por ter sido ele o mentor de um férreo sistema prisional que começou a vigorar em França no séc. XVII. Vauban é mais célebre por ter sido o arquitecto das fortalezas hexagonais em forma de estrela, que se expandiram por toda a Europa e foram construídas pelas potencias coloniais, um pouco por todo o mundo. Estudioso da demografia e da previsão econométrica, é dele também a ideia de substituir todos os impostos por um único de 10%, o dízimo, sobre os rendimentos.
O poema dessa canção é de Pierre Seghers, um poeta mediano, mas um intelectual de grande gabarito e figura de importância excepcional para a poesia francesa contemporânea pelo seu trabalho como editor.

T’es Rock Coco, é mais uma extraordinária canção, como são muitas das canções de Leo Ferré, sobre a integridade, a firmeza que tem existir para se resistir nesta sociedade moralmente degradada. T’es Rock Coco, poderá ser livremente traduzido És uma rocha, camarada, é mais um manifesto contra o pântano, as areias movediças sobre que andamos lutando para sobreviver neste mundo. Ferré termina a dizer que cantou tudo em versos de pé-quebrado com o único objectivo de tomar posição para a seguir se despir da sua humanidade e ir-se embora a quatro patas. Uma canção de funda desesperança sobre o futuro da humanidade.

A fechar este ciclo dedicado a Leo Ferré que faria 25 anos no dia 24 de Agosto, uma canção com poema de Jean-Roger Caussimon, poeta que não figura na constelação dos maiores poetas franceses mas que tem poemas notáveis como Ostende. Estruturada sobre um refrão que varia no verso de entrada para colocar o tema fundamental, que se repete três vezes: Como em Ostende e como em todo o lado/Quando chove sobre a cidade/e quando se pergunta se isso será útil/e depois sobretudo se vale a pena / se vale mesmo a pena viver a sua vida. Questão que enquadra descrições de bocados da vida quotidiana arrancados nos acasos com que entretece a vida.

https://youtu.be/3jHw0M2mgJA

De ouvidos entupidos por milhares de canções prontas a usar e esquecer, a maior parte só usada para gastar tempo de antena, ouvir Leo Ferré, evitando criteriosamente os raros desvios cabotinos que fez escrevendo umas músicas para-sinfónicas pimbas, é descobrir como a canção pode aspirar à eternidade.
O que se ouviu, e muito mais há para ouvir, é descobrir como a canção pode caminhar no território do sublime mantendo todo o poder de maravilhar geração após geração, construindo o ouvido, colocando questões que nos fazem pensar.

Advertisements
Standard

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s