Cultura, Geral

Leo Ferré – 5

Leo Ferré assume-se como anarquista. Muitas das suas canções abordam essa orientação ideológica. Nem deus nem chefe é uma dessas canções. Um hino à liberdade individual e colectiva. No Maio de 68 era uma das canções mais cantadas nas ruas de Paris, nesses tempos em que se proclamava que sob o empedrado das ruas havia uma praia. As ilusões da imaginação ao poder.


Ni Dieu, Ni Maître foi a canção com que Leo Ferré iniciou um recital no Bobino, já lhe tinha sido interdita a entrada no Olympia depois de no seu primeiro recital nessa sala de espectáculo ter dedicado uma canção a Bruno Coquatrix, o dono do Olympia, em que se vingava de todos os anos em que, já cantor celebrado, não tinha sido convidado para aí ir cantar. Ferré, de língua afiada, fez uma canção, La Mafia, sobre o que se exigia aos cantores para pisarem o palco do Olympia: “para se ser cabeça de cartaz de Coquatrix é preciso cantar em english todas as merdas que agradam aos ricos”.

É uma violenta canção anti-marketing, que o marketing da sua etiqueta, a Barclay, recuperou, mas que lhe valeu a óbvia ira de Coquatrix.

Para a história da canção de texto,  que seria esmagada pelos interesses da indústria discográfica tornando-se uma produção residual soterrada na avalanche de detritos musicais que percorrem festivais, enchem páginas de jornais, alguns com pretensões intelectuais, destrói o ouvido musical, que deveria ser um sentido apurado, registe-se que Ferré, anos mais adiante, indignado com a campanha publicitária que a Barclay fez para vender Mireille Mathieu como a nova Edith Piaf, escreveu uma canção que a Barclay nunca editou. Isto depois de ter escrito e ver impressa em disco, uma outra intitulada Mr. Barclay, onde Ferré gozava as sofreguidão pelo sucesso do seu editor discográfico e seus pares, essa ironia ainda lhe foi permitida, mas agarrar pelo pescoço a galinha dos ovos de ouro, isso não lhe foi autorizado.

Bons tempos em que eram os cantores-autores que decidiam, correndo riscos e assumindo esses riscos, o que faziam e não faziam lixando-se para os projectos publicitários dos produtores das empresas discográficas, ainda em principio de vida. Recorde-se que o primeiro disco de vinil foi fabricado em 1948, substituído os “velhos” discos em goma-laca, cujo primeiro disco padronizado, 78 rotações e 25 ou 30 centímetros de diâmetro, tinha aparecido trinta anos antes.

Rapidamente a indústria estabeleceu um padrão de doze canções a imprimir no vinil. Com o tempo e a luta dos cantores de expressão, as normas tornaram-se mais fluidas. Desde que as vendas estejam garantidas, os comerciantes… não hesitam e aceitam o que antes recusavam. Essa norma foi encontrada pela Philips, enfrentando uma baixa sensível de vendas. Seguindo o principio de que quando se vendem dois sabonetes de uma só vez o comprador fica mais satisfeito porque paga menos e fica com mais sabonete, lançou o primeiro 33 rotações com o diâmetro que se vulgarizou e com  doze canções. Anne Sylvestre resolve a ponta final do seu primeiro longa duração, com humor e ironia com uma canção que intitulou “ A décima-segunda” preenchendo os dois minutos e meio da última faixa com dois versos: “Já tinha acabado o meu dia de trabalho/ O patrão obrigou-me a cantar mais esta”. Claro que os seus discos seguintes, como aconteceu a muito boa gente foram de pequenas edições e em cooperativas discográficas.

Ah! Mas Ferré sabe bem a quem deve agradecer o que a vida tem de mais importante, mesmo quando parece não servir para nada: evidentemente ao diabo THANK YOU SATAN o mesmo que fez cair Caim em tentação e a quem Baudelaire exorta que rompa com a maldição que deus lhe lançou, que suba ao céu para atirar esse mesmo deus para a terra.
A fechar mais uma grande canção e outro hino ao modo de viver anarquista. Les quat’cent coups. calão que se poderá traduzir por vamos fazer trinta por uma linha!

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